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Formação no Sistema Socioeducativo: reflexões sobre o ECA e o SINASE

1. Adolescências e juventudes: aspectos para o Sistema Socioeducativo

1.3. Perfil dos agentes e funcionários públicos: aspectos da formação profissional

1.3.2. Formação no Sistema Socioeducativo: reflexões sobre o ECA e o SINASE

Pode-se reconhecer que a formação acadêmica tem sido a base fundamental do processo de ensino e de aprendizagem para as ocupações dos profissionais e parece que é a formação que orienta as concepções e as práticas nos diferentes campos do saber e, não menos importante, no âmbito do trabalho na socioeducação. Nesse campo, parece haver como característica essencial o trabalho interdisciplinar, mediada pela cooperação interinstitucional. Trabalho esse que impacta diretamente a educação dos adolescentes.

Como modo de conhecer o percurso formativo acadêmico dos responsáveis em apurar, acolher, educar, conhecer, defender e/ou julgar os casos de adolescentes acusados da prática infracional, indagou-se sobre os saberes assimilados a partir das legislações nacionais (ECA e SINASE), bem como se os profissionais tiveram formação paralela direcionada ao campo socioeducativo. Se sim, como ocorreram, quem ofertou e qual a importância. Colheu-se as seguintes falas:

Fala 1 – Coordenação do NAI: Participei da criação do Conselho Municipal da Criança e do Adolescente, implantado em São Carlos em 1990, tendo em vista a promulgação do Estatuto da Criança e do Adolescente - ECA e as necessidades de dar suporte para crianças e adolescentes em vulnerabilidade. Nesse período nós estudamos o ECA para implantar o Conselho, entendendo, principalmente, a urgência de articular a rede de serviços para um trabalho mais qualificado. Havia muitos questionamentos do Poder Judiciário e da sociedade civil para se implantar o Conselho, pois não se tinha muito experiência do que seria esse Conselho e como funcionária. A Lei Federal 12.594/2012, SINASE, propõe evitar ou limitar a discricionariedade na aplicação das medidas, priorizar as medidas em meio aberto em detrimento das restritivas e privativas de liberdade e, dentro do possível, reverter a tendência crescente de internação dos adolescentes. Conheço a lei e a proposta do SINASE, mas não tenho muito aprofundamento.

Fala 2 – Psicóloga: Não. Eu tive formação no ECA na época de 2010, que foi um projeto financiado pela Fundação Telefônica. [...] conheço o SINASE basicamente, principalmente quando fomos realizar o Plano Decenal Municipal, que é uma diretriz ... Enfatiza o atendimento da família, o trabalho em rede... há uma afinidade com o ECA, das prioridades, do trabalho integrado... enfim, traz normativas para o atendimento ao adolescente envolvido com o ato infracional. [...] São Carlos tem um Plano Decenal, não sei onde está o Plano, mas foi feito... foi feito no final de 2016.

Fala 3 – Assistente Social: Na universidade nós estudamos o Estatuto da Criança e do Adolescente, principalmente porque são conteúdos que são exigidos nos concursos públicos e em alguns momentos do nosso trabalho acabamos discutindo alguns aspectos da lei,

principalmente em Conferências Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente. Em São Carlos não participei de nenhuma Conferência, mas em Uberaba - MG, nós tínhamos bastante. Também conheço e já li a lei do SINASE, não na integra, mas sei que vem complementar o ECA e o trabalho que precisamos fazer com os adolescentes. O SINASE a gente precisou se aproximar dele e discutir com os diversos setores e instituições para elaborar o Plano Decenal Municipal de Atendimento Socioeducativo, visando a integração e articulação desses serviços, em um só objetivo, voltado para o adolescente envolvido em algum ato infracional. Não participei diretamente na elaboração do Plano, mas o restante da equipe sim. Não tive acesso ao Plano, porque ficou concentrado nas mãos da Secretaria Municipal de Assistência Social e Cidadania. O documento existe, mas não tive acesso ainda. Fala 4 – Direção do NAI: Nunca tive contato com o ECA, até mesmo na nossa militância política não era um tema que gerava preocupação. [...] Eu fui ter ciência do Estatuto na época da faculdade, mas também não houve nenhum material sobre o assunto, nem em metodologia básica e nem nas didáticas pedagógicas tocaram no ECA como algo importante para a atividade do professor na escola, na formação do professor. A UNESP é uma universidade conceituada, no entanto, não tinha nada sobre o ECA. Fiz optativa no curso de direito e havia em todo o curso apenas um semestre que trabalhava rapidamente alguns aspectos do ECA, o que pode perceber que é algo que precisa ser incluído no currículo da formação do professor e do advogado, sobretudo quando se trabalha na área da infância e juventude. Fui me aprofundar mesmo no Estatuto a partir de 2004, época em que me preparava para um concurso público da FEBEM, que exigia esses conhecimentos. Passei no concurso e fui trabalhar nas unidades de internação em São Paulo.

Fala 5 – Delegado de Polícia: Sim. Tive contato com o ECA por meio de palestras e reuniões em meados de 1993, O SINASE através da Lei 12.594, veio complementar e aprimorar o atendimento aos adolescentes em conflito com a Lei. A polícia Civil não atua na parte assistencial, mas no imediatismo do fato criminoso que possa envolver adolescentes, adultos, e tantas outras ocorrências que demandam trabalho da polícia, como o abuso sexual, o estupro, a violência contra a mulher. [...] Um dos aspectos importantes do ECA e leis posteriores é a escuta especializada com adolescentes, a Polícia precisa ter uma abordagem diferenciada com criança e adolescentes, pois as vítimas não podem ter um tratamento igual ao de um criminoso ou de um infrator. Neste caso, estou me referindo às crianças e os adolescentes vítimas de algum tipo de abuso, como o de violência sexual. É preciso evitar o máximo possível os constrangimentos e as exposições diante da violência sofrida, que geralmente é produzida dentro da própria família. [...] O preparo da Polícia para atender a esses chamados precisa ser diferenciado, por se trata de uma situação muito sensível e delicada. O policial precisa ser estimulado desde a formação na Academia Militar para abordar esses casos, concomitante a atuação de Assistentes Sociais e de Psicólogos para um atendimento especializado, inclusive esses profissionais deveriam atuar dentro das Delegacias. [...] E mesmo os promotores e juízes precisam saber lidar com esses contextos, haja vista que são casos que afetam o desenvolvimento, a socialização e o aprendizado de crianças e de adolescentes.

Fala 6 – Defensor Público: Estudei muito o ECA para o concurso público e me identifiquei com a matéria, desde a temática ligada aos princípios básico, mas também aquela parte mais prática. Tal fato influenciou na minha escolha profissional, já que escolhi trabalhar inicialmente, mesmo com uma vaga de substituto, na área da infância em Sorocaba, em detrimento de uma vaga fixa. Na ocasião (2011) ainda não tinha sido aprovado o SINASE, mas desde a sua promulgação eu estudo a lei e acho ela muito importante. [...] Fiquei um ano em Sorocaba até vir para São Carlos (2012). [...] Quando a gente sai da parte teórica e vai para a prática, a gente percebe que o universo não é tão colorido, que os problemas são reais, [...] por exemplo, os princípios do ECA não eram e ainda não são efetivamente

aplicados, os adolescentes envolvidos com os atos infracionais também sofrem negligencias do Estado, como ausência de saúde, escola, moradia digna.

Fala 6 – Defensor Público: Acho que temos dois principais problemas da infância, que foram minimizados, no tocante a problemas sociais e de execução de medida socioeducativa, devido a Lei do ECA e do SINASE: primeiro, trata-se do menorismo, que insiste em permanecer no meio jurídico [...] é comum, entre os operadores do Direito, utilizar de forma inadequada certos princípios, como “o do melhor interesse da criança e do adolescente”, para justificar sentença, que de verdade colidem com os interesses desta criança ou adolescente. Um exemplo recorrente, é a aplicação da medida socioeducativa de internação justificando a necessidade de garantir acesso aos serviços básicos, como escola, tratamento médico, como se tal medida não tivesse também um viés retributivo [...]. A lei fala que a internação deve ser aplicada excepcionalmente, em casos de infrações graves, e não como uma medida protetiva. [...] Um outro exemplo clássico, os famosos “rolezinhos”, restringindo-se por determinação judicial o acesso de adolescentes sem a presença de um responsável à shoppings ou outros espaços de lazer, tolhendo a liberdade destes jovens em nome do “princípio” do melhor interesse do adolescente, que no fundo significa o preconceito em relação à juventude das camadas populares que se encontra em espaços públicos-privados, como o shopping; o segundo problema, trata-se da operacionalização dos processos de execução no âmbito da justiça.

[...] Na primeira situação, há um grande desafio, que se expressa nas normas do ECA, que é a efetiva incorporação dos seus princípios e a correta aplicação pelos operadores do direito, em decorrência de favorecer o desenvolvimento da criança e do adolescente.

Na segunda situação, no trabalho dos operadores do direito, voltado mais para as diretrizes do SINASE, eu vejo como destaque a padronização dos processos de execução das medidas socioeducativas, evitando que cada um, promotor, defensor, delegado, juiz, decida em conformidade com as suas próprias convicções. [...] Um equívoco que se evita após o SINASE, trata-se de aplicar uma segunda sentença, referente a um ato infracional antigo. [...] Acontecia muito, por exemplo, de ficar perdido no cartório um processo de 2010, mas aí o adolescente cometia uma outra infração em 2011, e ele era sentenciado pela pratica da infração mais recente, cumpria uma medida de internação, [...] durante a internação ele atingia todas as metas do PIA e era liberado para a família [...], mas aí o juiz internava novamente pelo ato infracional anterior. No SINASE, o que vale é a última infração e o processo anterior é extinguido. [...] De modo geral, a padronização do Sistema Socioeducativo, desde o atendimento inicial até o acompanhamento do cumprimento de medida foi importante para dar coesão ao trabalho.

Fala 7 – Juiz: Minha formação se deu antes de 1990; precisei estudar o ECA e a Lei do SINASE já depois de ter ingressado na Magistratura, pois essas leis não vigoravam na época. As falas 1, 2, 4, 5, 6 e 7 reiteram que não tiveram disciplinas ou formação acadêmica direcionada para o estudo do ECA e do SINASE. Aspecto esse que constitui uma defasagem no que tange a preparação para o trabalho socioeducativo e pode comprometer as tomadas de decisões no exercício da função.

É sobejamente conhecido que a ausência de formação abre margens para um despreparo na atuação e que, a depender do caso, leva a reproduzir os velhos estigmas e paradigmas dos Códigos de Menores e os “preconceitos silenciados”, mas ainda vivos no imaginário social: “os jovens são naturalmente ruins”, “respeitam quando advertidos com severidade”, “precisam ser punidos e não merecem confiança”. Para além disso, pode-se

alimentar a velha ideia (ainda recorrente em várias partes do Brasil) de que cada integrante do Sistema deve atuar na sua esfera de “competência” e que, a ineficiência do socioeducativo, deve-se ao não adequado funcionamento do programa de internação, que é tão somente o último elo da corrente.

Passados 30 anos do ECA, verifica-se uma resistência à difusão dos saberes da área da infância e da juventude na formação dos cursos de Ciências Humanas e Sociais.

A despeito disso, importa destacar que a mudança das terminologias no Brasil, como a substituição de termos como “menores”, “crime”, “punição” e “aprisionamento” pelos termos “adolescentes”, “ato infracional” e “medidas socioeducativas” ainda não foram incorporadas plenamente em sua concepção pedagógica, quer pelos operadores do direito quer por outros profissionais que atuam no âmbito do Sistema socioeducativo.

Alguns acreditam se tratar apenas de um “jogo de palavras” para suavizar os procedimentos. Essa dificuldade se deve, justamente, pela carência de formação nos cursos de graduação e ausência de um processo formativo continuado, além do preconceito de classe arraigado tanto na elite quanto nas classes pobres da sociedade brasileira. Não se pode descartar também a influência dos países desenvolvidos, que ainda utilizam as expressões da “justiça de menores” e com uma prática de endurecimento maior das sentenças, tendo como parâmetro os códigos penais (mesmo que haja uma diferenciação entre “menores” e adultos). Esses são casos de países como a França, a Alemanha, os Estados Unidos da América, a Inglaterra etc.

Assim, depreende-se que se faz necessário fomentar esse debate na formação acadêmica universitária, incluindo, na grade curricular dos cursos de Ciências Humanas e Sociais, disciplinas obrigatórias sobre direitos da criança e do adolescente. Acrescente-se ainda, a importância da possibilidade de estágio nos espaços das medidas socioeducativas e de reflexão, sempre de maneira a envolver um trabalho interdisciplinar e humanizado, sem perder de vistas os ganhos normativos contidos no ECA e no SINASE.