CAPÍTULO III – A PROPOSTA DA EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS PARA
3.2. A FORMAÇÃO PROFISSIONAL DOS POLICIAIS CIVIS DO ESTADO DE
A Polícia Civil do Estado de Goiás tem seus princípios institucionais, sua organização, seu funcionamento, suas competências, prerrogativas, garantias e deveres dispostos na Lei estadual nº 16.901, de 26 de janeiro de 2010 (Lei Orgânica
da Polícia Civil do Estado de Goiás).
A referida legislação, no artigo 2º, caput, estabelece a finalidade da Polícia Civil, nos seguintes termos:
Art. 2º A Polícia Civil, órgão permanente do Estado de Goiás, vinculada à Secretaria da Segurança Pública, essencial à segurança pública e à defesa das instituições democráticas e fundada na promoção da cidadania, da dignidade humana e dos direitos e garantias fundamentais, tem por finalidade a preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio. (GOIÁS, 2010).
Aparentemente, há uma preocupação institucional em traçar, como finalidade do órgão, a busca pela preservação da ordem pública e da incolumidade dos cidadãos, alicerçada na promoção da cidadania, da dignidade da pessoa humana e dos direitos e garantias fundamentais.
Foram elencados, na Lei Orgânica da Polícia Civil do Estado de Goiás, os seguintes princípios institucionais, definidos como instrumentos normativos que conduzem as ações do órgão e a conduta dos servidores públicos que lhe integram:
Art. 3º São princípios institucionais da Polícia Civil: I – proteção dos direitos humanos;
II – participação e interação comunitária; III – resolução pacífica de conflitos; IV – uso proporcional da força;
V – eficiência na repressão das infrações penais; VI – indivisibilidade da investigação policial; VII – indelegabilidade das atribuições funcionais; VIII – hierarquia e disciplina funcionais;
IX – atuação técnico-científica e imparcial na condução da atividade investigativa. (GOIÁS, 2010).
Na análise dos dispositivos transcritos, nota-se que a proteção dos Direitos Humanos se destaca como o primeiro princípio institucional a ser observado pela Polícia Civil do Estado de Goiás. Dentre tantos outros princípios também muito importantes e que visam garantir a promoção da cidadania, da dignidade da pessoa humana e dos direitos e garantias fundamentais, a exemplo da resolução pacífica de conflitos e do uso proporcional da força, a proteção dos direitos humanos figura como princípio inaugural.
No que se refere à função da Polícia Civil goiana, a referida legislação enuncia que a ela compete exercer, ressalvada a competência da União, as funções de polícia judiciária e de apuração de infrações penais, exceto as militares. E que
estas funções “[...] consistem na produção e na realização de inquérito policial e de outros atos formais de investigações” (GOIÁS, 2010). Não se identificou, no artigo que trata das competências, menção à prevenção da criminalidade e outras formas de enfrentamento da criminalidade. Predominam as atribuições de exercício da polícia judiciária, apuração das infrações penais e atividades de repressão da criminalidade.
Os cargos que integram o quadro básico de pessoal efetivo da Polícia Civil são: Delegado de Polícia, Escrivão de Polícia, Agente de Polícia e Papiloscopista Policial. Entre as atividades desempenhadas pelos Delegados de Polícia, a principal delas é a de instaurar e presidir os inquéritos e demais procedimentos policiais para a apuração de infrações penais. Os Escrivães de Polícia são os servidores responsáveis pela formalização dos procedimentos policiais e demais atividades cartorárias das Unidades Policiais. Aos agentes de polícia cabe a produção de conhecimento e informações para o planejamento e execução das investigações e das operações policiais. Por fim, os papiloscopistas policiais são aqueles responsáveis por realizar a identificação humana, civil e criminal, por meio da realização de exame papiloscópico e de representação facial humana (GOIÁS, 2010).
Quanto à formação policial civil, a Lei Orgânica da PCGO prevê a formação e o treinamento permanente dos policiais civis e uma capacitação “[...] fundamentada nas regras e procedimentos do SUSP, com ênfase em direitos humanos” (GOIÁS, 2010).
Da análise do Projeto Político-Pedagógico da Escola Superior da Polícia Civil do Estado de Goiás (ESPC), elaborado no ano de 2017, é possível fazer algumas inferências que, acredita-se, impactam no modelo de formação profissional adotada pela Polícia Civil goiana. A primeira delas é que não foi identificada a concepção de segurança pública enquanto promoção de cidadania, convergente com a definição trazida pela Matriz Curricular Nacional de Segurança Pública.
Apesar de declarar que está alinhado à proposta da MCNSP, o projeto define, como sendo a missão da Polícia Civil do Estado de Goiás, “[...] a busca da verdade pela investigação criminal”. Para tanto, as atividades educacionais desenvolvidas na ESPC buscarão “[...] propiciar ao servidor o conhecimento e a prática necessária para torná-lo apto e eficiente no exercício de suas funções” (GOIÁS, 2017, p. 3). A missão institucional delineada no Projeto Político-Pedagógico
da ESPC é definida, de forma resumida, como a de “[...] transformar pessoas comuns em policiais civis” (GOIÁS, 2017, p. 4).
O Projeto Político-Pedagógico da ESPC estabelece que as propostas educativas a serem elaboradas pela instituição levarão em consideração que, para o cumprimento de sua missão, “[...] o policial civil não pode prover-se de conhecimentos comuns, ele deve possuir especialização técnica operacional que o diferencia em um grupo de pessoas” (GOIÁS, 2017, p. 5), motivo pelo qual a ESPC oferece o conhecimento e a prática que permitirão que estes indivíduos comuns se tornem aptos para tais atividades técnicas.
Este propósito de uma ‘especialização técnico-operacional’ parece ter sido a premissa que conduziu a construção dos currículos analisados neste estudo. Identificou-se, nos dois currículos, um predomínio considerável das disciplinas voltadas para o ensino das habilidades técnico-operacionais e uma pequena presença, ou mesmo ausência, de disciplinas relacionadas a outras habilidades – não menos importantes – necessárias aos agentes de segurança pública, como o atendimento a grupos vulneráveis, a prevenção e mediação de conflitos, sociologia do crime e da violência, diversidade étnico-sociocultural.
Definido o objetivo dos processos formativos a serem desenvolvidos na ESPC, o projeto cuidou de estabelecer premissas para a formação continuada e para as pós-graduações sem, todavia, dedicar atenção adequada à formação profissional básica. Não foram estabelecidas premissas para a efetivação do processo de formação profissional, ou seja, não há indicação dos caminhos didático- pedagógicos para o devido planejamento, monitoramento e posterior avaliação da formação profissional básica dos futuros policiais civis.
Na análise do projeto não foram identificadas diretrizes, normativas ou mesmo legislação estabelecidas pela Polícia Civil do Estado de Goiás para conduzir os processos de formação profissional de seus agentes. Da mesma maneira, em contato com a Secretaria de Estado da Segurança Pública, obteve-se a informação de que os processos de formação profissional dos agentes de segurança pública são integralmente conduzidos pelas respectivas instituições que compõem aquela secretaria. Não há necessidade de aprovação prévia por parte da Secretaria de Segurança Pública dos cursos que serão ministrados e não existem diretrizes orientativas sobre como a formação policial será implementada pelas instituições e se deverão observar as políticas do Governo Federal e dos Estados. Desta maneira,
conclui-se que as instituições policiais no Estado de Goiás têm autonomia para conduzir todos os processos formativos de seus agentes, já que as políticas do Governo Federal não são de adesão obrigatória e que o Estado de Goiás não conta com uma política de segurança pública e nem de ensino policial.
Esta autonomia das instituições na condução da formação de seus agentes pode significar, por um lado, liberdade para criar e inovar, trazendo à tona possibilidades de mudanças positivas para estes processos. Mas, por outro lado, também pode permitir que a elaboração e a condução dos diversos itinerários formativos permaneçam fechadas a mudanças e consideravelmente vulneráveis ao contexto político estadual e nacional.
A condução destes processos fica concentrada nas mãos do gestor que estiver ocupando o cargo de Diretor da ESPC quando o concurso público é autorizado pelo governo do Estado de Goiás. Verificou-se que os Projetos Político- Pedagógicos dos cursos de formação profissional básica são elaborados pouco antes do concurso ser realizado, portanto, eles não são objeto de estudo e pesquisa permanente por parte da divisão pedagógica da ESPC.
Questionada sobre as normativas que orientaram a formação profissional de agentes e escrivães realizada no ano de 2017, a Divisão Pedagógica da ESPC mencionou o edital que rege o concurso e a lei estadual que trata da criação dos cargos de agentes e escrivães substitutos citada anteriormente.
A impressão que se tem é que este é um processo um pouco improvisado, que se movimenta somente depois de provocado pelo contexto político e que por ele pode ser influenciado. Esta constatação reforça a ausência de uma política institucional em nível estadual que estabeleça mecanismos direcionados ao planejamento, implementação, monitoramento e avaliação dos processos formativos dos policiais civis do Estado de Goiás, a fim de adequá-los aos termos das políticas implementadas pelo Governo Federal, a exemplo do PNEDH e da MCNSP.
Compreende-se que também é reflexo da configuração constitucional dada à segurança pública, que ainda não teve regulamentado o artigo que trata das atribuições concorrentes entre União, Estados e Municípios (artigo 32), e o que dispõe sobre a organização e funcionamento dos órgãos responsáveis pela segurança pública (artigo 144). O resultado deste processo é uma acirrada disputa entre as diferentes agências do sistema de justiça criminal sobre quem faz o que, enquanto o Governo Federal continua atuando com baixíssima capacidade de
indução e coordenação, mesmo que disponha de mais recursos financeiros que os
Estados e municípios (PIMENTEL et al., 2019, p. 7).
O estudo desenvolvido pelo FBSP (2019) que discute questões sobre o financiamento da segurança pública no Brasil que analisou os gastos com esta função entre os anos de 2002 a 2017, identificou que as Unidades da Federação têm sido as principais financiadoras das políticas de segurança, embora a maior parte dos gastos seja destinada para cobrir despesas com folha de pagamento. O estudo mostra ainda que as despesas com o tema segurança pública apresentaram crescimento entre todos os entes federativos, embora nem sempre a população consiga perceber a melhoria dos índices de criminalidade como resultado deste crescimento.
3.3. A FORMAÇÃO PROFISSIONAL DOS AGENTES E ESCRIVÃES DE POLÍCIA