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Formação profissional na ETFES e o contexto capixaba

Na Escola Técnica Federal do Espírito Santo, foi a partir do início dos anos 1960 que a questão curricular passou a ser relacionada a uma concepção de formação profissional integrada à educação geral. Embora profissionalizante desde 1910, seu ensino correspondia a uma escolarização primária, objetivada pela função correcional e assistencialista. Mesmo após 1942, com a criação do Curso Básico Industrial, continuava a identidade de uma escola para pobres. Isso, possivelmente, esclarece o aspecto em comum com a escola regular: a seletividade ao longo das quatro séries do Curso Básico Industrial. Com efeito, entre 1945 e 1955 a Instituição registrou 3.430 matrí- culas nos seis cursos ofertados e, nesse período, 390 alunos conclu- íram o curso.

A partir da década de 1960, com a necessidade de incorporar os novos fundamentos científicos e tecnológicos, a formação profis- sional começou a ser pensada a partir das novas exigências do sistema produtivo. Com a extinção do Básico Industrial, em 1961, ao longo desta década seriam criadas três modalidades de cursos profissionalizantes: O Ginásio Industrial, o de Aprendizagem Indus- trial e o Técnico, sendo este último integrado ao 2º Grau e, na década de 1970 se tornaria a única modalidade de oferta. O Curso de Apren- dizagem seria extinto em 1968 e o Ginásio Industrial em 1972.

Figura 1 - Oficina de Mecânica de Máquinas em 1963

Fonte: Arquivo do Ifes.

A nova organização administrativa da instituição, estabelecida a partir de 1959, concedeu autonomia pedagógica à instituição, fator determinante para os novos rumos da Escola Técnica. Nesse modelo, dois conselhos auxiliavam a administração escolar. O Conselho de Representantes, cujos membros eram ligados ao setor empresarial, auxiliava o Diretor Geral no planejamento administrativo, objeti- vando ao atendimento das demandas do setor produtivo. O Conselho de Professores (CP), que auxiliava na organização pedagógica, apon- tava a perspectiva curricular, como mostra o registro abaixo:

Encontra-se o Conselho numa verdadeira encruzilhada, tendo de se manifestar pelo curso Industrial Básico, no qual o adolescente encontra um vasto campo de desenvolvimento e descoberta de suas aptidões, ou pelo curso de Aprendizagem, de duração de 20 meses, para formação do aprendiz. (Ata do CP de 1961).

Com a chegada dos cursos profissionalizantes de nível técnico a formação menos qualificada passou a corresponder aos Cursos de Aprendizagem, com duração de dezoito meses. A oferta de cursos técnicos tevo início no ano de 1961, com a criação do Curso Técnico de Estradas. Em seguida, em 1963, foi criado o Curso de Edificações. Outros seriam criados ao longo das décadas de 1960 e 1970.

Dessa forma, ao elevar a escolarização do trabalhador a concepção curricular dos cursos técnicos tornou-se um fator gerador de tensões, fazendo emergir o conflito entre a perspectiva de formação integral em oposição à perspectiva de formação frag- mentada e voltada para o Mercado de trabalho:

Foi tratado o assunto da modificação dos currículos e respectivas cargas horárias. O Sr. Presidente frisou a necessidade de dar ao aluno uma base humanística e, paralelamente, conhecimentos específicos com o objetivo de formar o técnico de nível médio. (Ata do CP, 1965)

A necessidade apontada pelo diretor Mauro Borges, professor de Geografia, evidencia a preocupação quanto à integração curricular, salientando a importância da formação humanística. Esse contexto produziu duas necessidades: ampliação da oferta visando ao aten- dimento da demanda do mercado de trabalho; mudança dos currí- culos visando ao atendimento das novas exigências formativas. Para atender a essa demanda a oferta de matrículas crescia, mas não o suficiente, como demonstra o gráfico abaixo.

Figura 2 - Relação Candidato/Vaga -1968 a 1977

Os cursos da Escola Técnica Federal do ES passaram a ser cada vez mais demandados a partir de 1970. Enquanto em 1968 a relação candidato/vaga era de 1 para 2, em 1977 essa relação chegava a 1 para 6, continuando crescente ao longo da década de 1980. Naquele contexto da primeira metade da década de 1970 a euforia pelo cres- cimento da oferta de matrículas e pela demanda do setor produtivo animava a Direção da Instituição:

Vemos com entusiasmo a chegada da indústria petrolífera. A indús- tria ainda está iniciando. Entretanto, a escola deve se preparar para o futuro (Ata do CP 1968).

Atravessamos uma fase de verdadeira explosão tecnológica [...] a nossa safra está sendo vendida no pé (Ata do CP 1973).

A necessidade de formação profissional de nível médio foi salien- tada pelo Diretor Geral, em reunião do Conselho de Professores, em 1970, afirmando que “...Pierre Furtier, perito da Unesco, afirma que a dinamização do desenvolvimento vem, em grande parte, pela formação profissional, com a criação de um corpo técnico de nível médio. A mania do nível universitário tende a aumentar o número de técnicos de nível superior, com prejuízo da formação do técnico de grau médio”. A expansão da indústria reforçava a ideia de enca- minhar os jovens para o ensino técnico de nível médio: “Atraves- samos uma fase de verdadeira explosão tecnológica e a nossa safra está sendo vendida no pé” (Ata do CP 1972). A tabela abaixo apre- senta um panorama sobre os concluintes no ensino técnico entre 1965 e 1983, destacando a destinação dos mesmos.

Quadro 2 – Destinação dos egressos da ETFES de 1965 a 1983 Destinação dos Egressos da ETFES – 1965 a 1983

Nº de Concluintes no 2º Grau 6.642

Nº de Concluintes no Curso Técnico 5.476

Nº de Estágios Efetivados 82,5%

Nº de Optantes pela Universidade 7,5% Nº de Optantes por Outras Atividades 10%

Em relação ao mercado de trabalho, o registro abaixo salienta o aproveitamento dos egressos dos cursos técnicos nos diferentes setores empresariais do Espírito Santo.

Figura 3 – Destinação dos Egressos dos cursos da ETFES de 1965 - 1983

Fonte: Arquivo do Ifes.

No período entre 1965 e 1983, um total de 5.476 alunos da ETFES ingressou no mercado de trabalho, constituído majoritariamente por empresas estatais. A Companhia Vale do Rio Doce absorvia a maior parte dos concluintes, seguida pela Escelsa, pela Companhia Siderúrgica de Tubarão, e outras. Contudo, muitos que ingressavam no 1º ano do ensino técnico não concluíam o curso. Com efeito, no período entre 1965 e 1983 estimamos um total de 14.000 matrículas nos cursos técnicos da ETFES, sendo 6.642 concluintes do 2º Grau.

Ao longo da década de 1970 os cursos técnicos passariam a única modalidade de oferta de educação profissional, atraindo jovens que almejavam o ingresso no mercado de trabalho ou a universidade. A mudança do perfil do alunado foi assim descrita pelo então diretor da Instituição, em 1979:

[...] Nos portões da escola não existe mais cadeado. O inspetor não tem mais função policial. Hoje, o aluno entra e sai da Escola à hora que bem entender – apenas tem de assumir a responsabilidade de sua decisão, de seus atos. Por isso, a totalidade de seus alunos é uma juventude otimista, descontraída, alegre e, sobretudo, responsável. [...] Se antes a ETFES não aceitava alunos cabeludos, reformulou esse critério. Aos seus estudantes é permitido o uso de cabelos longos, apenas com uma pequena restrição: que não sejam tão longos a

ponto de sugerir uma possibilidade de acidentes quando estejam a manejar as máquinas nas oficinas. (Jornal A Gazeta, edição especial de 1-4-1979)

A transformação da cultura escolar seria também expressa por outros modos e práticas curriculares. O trabalho na oficina deman- dava outros domínios cognitivos, além da destreza manual.