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1. A DIFICULDADE PYNCHONIANA E A BUSCA DO SENTIDO

1.7 A forma do Infinito

É curioso lembrar dos “provérbios para paranoicos” encontrados na segunda parte de GR. Slothrop, envolvido em uma conspiração que ainda não compreende, vai desenvolvendo esses “mandamentos” de acordo com as situações em que é colocado. O terceiro deles diz: “If they can

get you asking the wrong questions, they don't have to worry about the answers.” (p. 255) Se “eles”

podem levá-lo a fazer as perguntas erradas, “eles” não precisam se preocupar com as respostas. O que tenho argumentado nesse capítulo é que as leituras dominantes de Pynchon têm feito, justamente, as perguntas erradas, o que não só leva, muitas vezes, a respostas confusas e insuficiente como enreda todos os elementos envolvidos – autor, obras, leitores, leituras – em um processo repetitivo e interminável, que se assemelha à hiperprodução característica do capitalismo tardio.29

Ora, é oportuno retornar às perguntas feita anteriormente: se esse vício de leitura é consequência direta da organização da obra, também a obra deve ser imputada nesse juízo? Se a obra não determina o fracasso de suas leituras, há outras maneiras de ler? E se sim, quais?

No processo que tenho descrito, há uma dinâmica pendular, que quase poderíamos chamar “dialética”, de “culpabilidade” entre a obra pynchoniana e o conjunto de seus leitores. Against the

day parece projetar uma necessidade (um leitor-ideal que é o negativo de suas dificuldades) que

determina os modos de leitura, apequenando os leitores reais ao se colocar, desafiadoramente, para

além do alcance de suas capacidades de totalização. Ao mesmo tempo, esses leitores reais com frequência caem na armadilha colocada pela obra, recorrendo a métodos relativamente simplórios e insuficientes, sem procurar alternativas. Ao mesmo tempo em que a obra é transparente a esses “desvios”, ela permanece parcialmente opaca, como se sua constituição oferecesse alguma espécie de resistência, um resto que prova que os cálculos realizados possuem algum erro. Com isso, para responder à primeira pergunta, é preciso antes responder à segunda. Se formos capazes de ler o livro de outro modo, sem cair nos mesmos erros, então estará configurada uma via de contornar a sombra monumental do romance histórico pynchoniano.

Para tanto, tomo como inspiração mais uma vez o artigo de Durão sobre o conceito de “Texto”, ao qual ele contrapõe um outro, o de “Obra”. O autor atualiza essas noções importantes, fazendo uma crítica do primeiro e reconstruindo o segundo como alternativa. Em sua definição de “Obra”, ele elenca uma série de características (pp. 79-80), das quais emerge uma visão geral que poderia ser resumida pela necessidade de estabelecer a forma de um texto como fator limitante ao superávit semiótico. O processo interpretativo deveria colocar em crise o fluxo de significados, “individualizando” a “Obra”, configurando “o material linguístico em cadeias de relação significante”, estabelecendo um “limite” capaz de impedir “que a velocidade assuma um valor preponderante, permitindo que o que passou volte como algo diferente”.

“a forma instaura uma singularidade, mesmo que ela não seja idêntica a si própria, mesmo que contenha uma infinitude dentro de si, ao mesmo tempo em que se impõe limites e fronteiras. A forma não isola a obra, mas apresenta-se como mediação tensa entre o dentro e o fora; a forma esforça-se por incluir dentro de si aquilo que se passa fora da obra.” (p.80)

Parece interessante pensar nessa definição de forma como uma noção de superfície. O infinito não necessariamente é informe: a superfície da Terra, por exemplo, é infinita em duas dimensões, pois não possui começo nem fim, e sobre ela é possível traçar infinitos caminhos. Assim, descrever a forma da obra é um jeito de projetar uma superfície dentro da qual leituras potencialmente infinitas podem se realizar, mas sempre reguladas por uma noção, ainda que dinâmica, de um limite ou domínio “exterior”. Essa abordagem se opõe à praticada pelos usuários da Pynchon-Wiki, que como já afirmei possuem um interesse “sequencial-temporal” na leitura, sem considerar a dimensão “espacial-topográfica” que se instaura ao se pensar a obra como simultaneidade-totalidade. Descrever a forma é um jeito de determinar um horizonte de possibilidades para o livro. Não significa simplesmente abraçar a multiplicidade como algo vago e indefinido, mas como um território traçado dentro desse horizonte. É a oposição entre a concepção do mapa como um instrumento de determinação e controle, embora malfadado, que é o que a leitura paranoica

representa; e o mapa como instrumento de possibilidade, que estabelece proporções e relações centradas em perspectivas específicas, e assim, desenha uma paisagem dupla e concomitantemente gerada a partir de sujeito e objeto – ao contrário da perspectiva divina e abstrata da paranoia.

Essa concepção de forma também é interessante, no caso de Against the day, porque a forma pode agir como um facilitador cognitivo. Como já afirmei, a paranoia elimina qualquer hierarquia, projetando todas as relações como dotadas do mesmo valor. A impossibilidade cognitiva de processar todas essas relações faz as leituras paranoicas elevarem algumas das relações na forma de “chaves de leitura” que, arbitrariamente, dão acesso ao segredo do texto. A alternativa, ao se valer da forma como referência, é projetar uma somatória dessas relações sem a necessidade de se demorar em cada uma delas. Diante da infinidade de relações apresentadas pela obra, a forma permite estabelecer um contorno, sem a necessidade do enredamento permanente nessas cadeias. Ao criar esse contorno, a forma estabelece hierarquias dinâmicas de valores e sentidos dentro da obra, o que reduz o grau de arbitrariedade das decisões interpretativas.

Portanto, para que o problema da leitura de AtD possa ser respondido, ele precisa ser abordado por uma concepção e caracterização da forma do livro, por uma transformação do processo da leitura em uma aparato mental de pensamento, para que então as questões que direcionamos ao livro, sejam elas quais forem, possam ser pensadas através desse “modelo” cognitivo. É isso o que a descrição e interpretação da forma, do conteúdo, da forma do conteúdo e do conteúdo da forma, que serão desenvolvidas a seguir, pretendem alcançar.

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