2. ESTÉTICA DA FORMATIVIDADE: CONCEITOS FUNDAMENTAIS
2.3. O processo artístico
2.3.5. Forma formante e forma formada
Embora seja marcado por uma aposta livre por parte do artista, o processo de formação de uma obra de arte pressupõe uma mescla de aventura e orientação. O processo não é pura aventura e abandono de si mesmo, já que o artista, no desenvolvimento de suas intenções, sempre estará, suficientemente, orientado em suas próprias operações.
A obra de arte é mais do que simples atividade do artista, porque o seu processo produtivo também joga com a forma formante99, lei que o guia e o transcende, ao exercer sobre o artista uma espécie de apelo e impulso à formação: “o tentar, portanto, dispõe de um critério indefinível, mas sólido, o pressentimento do resultado, o presságio do sucesso, a antecipação da realização, o adivinhar da forma.”100. Na arte, não existe lei geral, mas sim sua regra individual que é inventada no decorrer da operação. Tal regra é o resultado do processo, ela indica como a obra deve ser feita para atingir seu êxito, porque o critério do resultado é o próprio resultado.
O artista é o primeiro a submeter-se à lei da obra, mas isso não quer dizer que, ao reconhecê-la, ele a conceba passivamente como algo exterior que é dado; pelo contrário, a lei da obra se constitui no momento mesmo em que o artista decide formá-la, sendo, pois, parte interna do processo formativo. A partir desse momento, a liberdade do artista estabelece no processo artístico um diálogo com algo que a transcende, ou seja, com a norma sobre cuja base a obra cresce como organismo rigorosamente constituído. Isso permite que a liberdade siga fielmente, mas, ao mesmo tempo, invente e aplique esta lei.
99 Para Vattimo, a transcendência da lei da obra em relação ao processo formativo, à vontade do artista e à obra mesma, enquanto formada, aparece como a contribuição mais notável da teoria da formatividade de Pareyson, seja no que diz respeito à problemática da arte, seja em vista da fundação ontológica que confere a esta. Para Umberto Eco, o personalismo ontológico pareysoniano equilibra e compensa a sua abertura ontológica, na medida em que não apela a um dos extremos, mas tende a uma relação dialética e congenial entre artista e forma formante. Cf. CIGLIA, F. P. Ermeneutica e libertà. L’itinerario filosofico di Luigi Pareyson, p. 144, nota 19. 100 PAREYSON, L. Estética: teoria da formatividade, p. 74.
Na arte a lei geral é a regra individual da obra a ser feita. O que significa, em primeiro lugar, que em arte não há outra lei senão a regra individual da obra: a arte é caracterizada precisamente pela falta de uma lei universal que seja sua norma, e a única norma do artista é a própria obra que ele está fazendo; em segundo lugar, que em arte a regra é uma lei férrea, inflexível e inderrogável: a arte implica uma legalidade pela qual o artista deve obedecer à própria obra que ele está fazendo, e, se não lhe obedece, nem mesmo consegue fazê-la.101
Essas colocações da estética pareysoniana nos apontam aspectos antagônicos que devem ser conciliados, tais como a compreensão da atividade artística como criação, invenção e originalidade, marcada pela liberdade, novidade e imprevisibilidade, mas, ao mesmo tempo, uma atividade que implica rigor, lei, necessidade férrea e inviolável. Em relação a tais aspectos Pareyson afirma que quanto mais liberdade, mais disciplina, mais lei.
A teorização pareysoniana da forma formante representa uma aquisição teórica de incalculável importância no interior da meditação não só estética do pensador. Essa procura pensar uma presença inconfigurável e inobjetivável, mas, todavia real, uma presença, de qualquer modo misteriosa, que só pode ser considerada e esperada pelo artista, pressagiada ou até mesmo adivinhada. Trata-se de uma presença bem viva, dotada, em certo sentido, de uma personalidade prepotente [...]102.
Isso nos leva a concluir que, na arte, a lei é a própria obra que vai se fazendo, ou seja, que “a obra é lei daquela mesma atividade de que é produto, que ela governa e rege aquelas mesmas operações das quais resultará.”103. A obra de arte chega ao seu êxito quando resulta naquilo que ela mesma queria ser, feita do único modo que podia ser feita e exigia ser feita, em suma porque “realiza aquela especial adequação de si consigo que caracteriza o puro êxito.”104.
E é justamente esta a condição do processo artístico, guiado por uma espécie de antecipação e de pressentimento do êxito, pelo qual a própria obra age antes ainda de existir: se é verdade que a forma existe somente quando o processo está acabado, como resultado de uma atividade que a inventa no próprio ato que a executa, é também verdade que a forma age como formante, antes ainda de existir como
101 PAREYSON, L. Os problemas da estética, p. 184.
102 “La teorizzazione pareysoniana della forma formante rappresenta un’acquisizione teoretica di incalcolabile importanza all’interno della meditazione non solo estetica del pensatore. Essa tenta di pensare una presenza inconfigurabile ed inoggettivabile, ma tuttavia reale, una presenza, in qualche modo misteriosa, che può essere solo attesa e sperata dall’artista, presagita o addirittura divinata. Si tratta di una presenza ben viva, dotata, in un certo senso, di una prepotente personalità [...]”. CIGLIA, F. P. Ermeneutica e libertà. L’itinerario filosofico di Luigi Pareyson, p. 143.
103
PAREYSON, L. Os problemas da estética, p. 184.
formada, oferecendo-se à adivinhação do artista e, por isso, solicitando seus eficazes presságios e dirigindo as suas operações. Com base nesta dialética de forma formante e forma formada a obra de arte tem a misteriosa prerrogativa de ser ao mesmo tempo lei e resultado da sua formação, isto é, de existir como conclusão de um processo estimulado, promovido, dirigido por ela.105
É, portanto, digno de nota que não podemos compreender a forma formante como um uma previsão, uma intuição, ou conhecimento acerca da obra, pois tal consciência será adquirida pelo artista somente quando o mesmo conseguir atingir o sucesso de seu processo formativo. No processo artístico nada se sabe de antemão, o resultado da operação só vem ao artista através de suas tentativas e atuações: “o artista reconhece que encontrou o que buscava não em virtude daquela imaginária presença, mas porque o resultado obtido preenche uma expectativa sua e satisfaz uma exigência.”106.
Na produção, o artista tem de se confrontar com a lei da obra, a qual mostra o quanto o processo não pode ser puramente criativo, ou seja, o quanto não pode depender unicamente da vontade do artista. Essa lei é a própria obra que é, ao mesmo tempo, lei e resultado do seu processo de formação. Na formação artística, portanto, a forma é formada e formante. É a presença da forma formante que garante a organicidade na produção de uma obra de arte. No desenvolvimento orgânico107, o próprio processo é produto e produtor, pois, suas escolhas, possibilidades e seleções são reguladas pela “finalidade intrínseca” que é a própria forma futura. Como produto de uma característica evolução orgânica, a obra de arte é formada a partir de um movimento único, através de um amadurecimento que a conduz da semente à forma completa, garantindo que cada aspecto presente na sua constituição possa ser contemplado em sua totalidade. Em outras palavras, a obra de arte mostra-se como “amadurecimento de um processo orgânico, do qual ela mesma é a semente, a lei individual
105
PAREYSON, L. Os problemas da estética, p. 188-189. 106 PAREYSON, L. Estética: teoria da formatividade, p. 70-71.
107 No que diz respeito à organicidade da forma, Pareyson recorre à concepção schellinguiana de organicidade
das formas viventes, retomada, por sua vez, por Goethe. A origem desta questão encontra-se, no entanto, em Aristóteles, conforme abordado nas notas 51 e 56. Sobre a noção de forma e seu caráter de organicidade, ver 2.2.3. A forma da arte, p. 44-46.
de organização e a finalidade intrínseca.”108. Isso nos permite dizer que a obra só pode ser formada através de um único modo.
No fazer artístico, descoberta e busca vão se consolidando ao longo do processo, pois o procurar vai se direcionando pelo presságio da descoberta, a forma vai se delineando como produto de sua própria expectativa. O processo artístico define sua própria direção, na medida em que é orientado pelo presságio da obra que pretende realizar. A forma já é ativa antes mesmo de chegar ao seu resultado, porque antes de existir como formada, já age como
formante no interior do processo de produção. Mas somente quando realizada é que o artista
pode compreender que suas operações eram como que dirigidas pela forma que agora se definiu. “A adivinhação da forma se apresenta, por isso, apenas como lei de uma execução em curso: [...] não lei única para cada produção, mas regra imanente de um processo único.”109.