Fios que puxam fios. Convocar o juízo de James Hafley sobre o narrador woolfiano que seleciona, analisa, organiza, é apontar um problema, pois estão em jogo obras que justamente desafiam e colocam em xeque a ordenação racional16, o que pode ser apreendido nas palavras de Bernard em The waves:
“One fills up the little compartments of one's engagement book with dinner at eight; luncheon at one-thirty. One has shirts, socks, ties laid out on one's bed. But it is a mistake, this extreme precision, this orderly and military progress; a convenience, a lie. There is always deep below it, even when we arrive punctually at the appointed time with our waistcoasts and polite formalities, a rushing stream of broken dreams, nursery rhymes, street cries, half-finished sentences and sights- [...] Whatever sentence I extract whole and entire from this cauldron is only a string of six little fish that let themselves be caught while a million others leap and sizzle, making the cauldron bubble like boiling silver, and slip through my fingers. Faces recur, faces and faces – they press their beauty to the walls of my bubble – Neville, Susan, 16 Em outros termos Jean Alexander apontou para tal questão. Sua abordagem da obra de Woolf gira em torno do conflito entre o humano - como aquilo que compreende a razão e o sentido – e as forças da natureza que escapam ao controle do sistema racional. As personagens estariam sempre sob a ameaça da perda do sentido e da dissolução : “Fear first arises when, looking at the world, one sees that nature is not entirely bounded by man's reason and his desire.” In: ALEXANDER, Jean. Op. cit., p.10.
Louis, Jinny, Rhoda and thousand others. How impossible to order them rightly; to detach one separately, or to give the effect of the whole – again music.”17
Assim, num outro momento, precisarei rever o juízo crítico de Hafley e precisar se realmente existem (e como funcionariam) resquícios de “onisciência” dos narradores em
Mrs Dalloway e em To the lighthouse. No ensaio intitulado “The waves”, portanto
homônimo à obra da qual trata, Jean Guiguet aponta justamente para o desaparecimento das categorias tradicionais de tempo e espaço e vai mais além ressaltando o desaparecimento das personagens e do narrador:
“... Hitherto, for lack of a better term, I have used the word 'monologue' or 'voice' to describe what the caracters say; I must point out, however, that neither of these words satisfactory. These are not voices, in the sense that they are not differentiated. [...] Only apparently has a herald replaced the narrator; it would be truer to say that the poet has replaced the characters. Thus we come to that other aspect of The waves, the poem, [...]”18
Para a análise a ser desenvolvida, esta afirmação de Jean Guiguet assume importância tal que neste momento só posso ressaltá-la sem aprofundar as suas múltiplas 17 WOOLF, Virginia. The waves. Introduction and notes: Kate Flint. England: Penguin Books, 2000, p.
196-197. Segue o trecho traduzido: “Enchemos os pequenos compartimentos de nossa agenda com jantares às oito; almoços à uma e trinta. Temos camisas, meias, gravatas expostassobre a cama. [...] - Mas é um erro, essa precisão extremada, esse avanço ordenado e militar; uma conveniência, uma mentira. Por debaixo, bem no fundo, mesmo quando chegamos pontualmente na hora marcada, com nossos coletes alvos e cortesias formalizadas, há sempre uma torrente rápida de sonhos desmoronados, cantigas de crianças, gritos na rua, frases inconclusas e suspiros [...] Qualquer frase que eu extraia inteira e intacta desse caldeirão será apenas um fio de seis peixinhos que se deixam apanhar enquanto milhões de outros saltam e chiam fazendo o caldeirão borbulhar como prata em ebulição, e escorregam entre meus dedos. Rostos retornam, rostos e rostos – coprimem sua beleza contra as paredes da minha bolha – Neville, Susan, Louis, Jinny, Rhoda e mil outros. Como é possível ordená-los corretamente, destacar um separadamente, ou dar o efeito do todo – mais uma vez, como na música.” WOOLF, Virginia. As ondas. Tradução: Lya Luft. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, p.190-191.
18 GUIGUET, Jean. The waves. LATHAM, Jacqueline E.M. Critics on Virginia Woolf. Florida: University of Miami Press, 1979, p. 88.
conseqüências e efeitos sobre a leitura. Então, voltemos ao fragmento extraído de The
waves.
Outra questão para a qual o fragmento chama a atenção é a da forma e do informe. Esta “torrente rápida” ou este “caldeirão” de destroços imediatamente me remetem a um mar contínuo e informe que só poderá ser captado se – metonimicamente – transformado num fio de seis peixinhos.
Dito em outras palavras, a razão, a forma e a linguagem ocupam uma posição ambígua. Ao mesmo tempo que imprimem uma ordem necessária ao todo informe, tirando o sujeito de uma continuidade angustiante, provocam uma perda deste fluxo sem forma que tanto Virginia como Clarice tomam como o real. Real que é ao mesmo tempo desejado e evitado, na mesma medida que as funções simbólicas – aquilo que seleciona, divide, separa – são tanto necessárias quanto vistas como perigosamente encobridoras do real. Ou seja, a questão seria como dizer sem escamotear o indizível? Como bordejar o real sem encobri-lo com o simbólico? Quais efeitos narrativos que se delineiam quando tal bordejamento é feito em primeira pessoa ? E quando é feito em terceira pessoa?
Delineadas as perguntas, é preciso ao menos apontar a delimitação e a articulação da questão em relação ao foco narrativo, cujas funções seriam: bordejar e não obturar o que não é possível de ser dito; uma vez minada a idéia de identidade, manter a evanescência dos narradores e personagens em questão. Ao próximo tópico.