4 CAPÍTULO 3 A EXPRESSÃO REFLEXIVA DA COMUNIDADE
4.2 Forma universal do consenso
4.2.1 Forma simbólica do ethos
A forma simbólica da comunidade é o ethos, e, como tal, ele é um fenômeno evidente em todo agrupamento humano e se apresenta espontaneamente ao sujeito que dele faz parte. Compreender as formas constitutivas desse fenômeno histórico- cultural e o modo como a comunidade atualiza no tempo o seu ethos facilitará o entendimento da expressão do consenso social no interior de uma comunidade e, ao mesmo tempo, a permanência dessa comunidade no tempo. Então, em primeiro lugar, apresenta-se a exposição das formas do ethos que enfatizam a interrelação entre o singular-universal ou entre o ethos-Indivíduo e, posteriormente, a forma social que possibilita a interrelação entre a liberdade-bem ou entre indivíduo-ethos.
A reflexão vaziana sobre o ethos tem como pressuposto a ideia clássica do Bem (agathón) como princípio e fim da práxis individual e social e é a partir desse paradigma ético fundamental que ele reflete sobre esse fenômeno. Para ele, o reconhecimento comunitário desse horizonte universal do Bem é que possibilita a convivência social:
O primeiro momento do encontro com o outro como ato ético exige como primeira condição de sua possibilidade ou como primeiro momento de seu movimento dialético, o reconhecimento do horizonte comum de
universalidade no qual o Eu acolhe o Outro como Outro Eu329.
Este horizonte comum de universalidade é justamente o ethos, conjunto de formas simbólicas que estabelece o sentido da vida-em-comum, da “‘vida no bem’ (eu zen) e, consequentemente, o ‘agir segundo o bem’ (eu prattein), do qual deriva a ‘vida melhor’ ou ‘mais feliz’ (eudaimonia) para o agente ético e a ‘excelência’ ou ‘virtude’ (areté) de seu agir e de seu ser”330. Para Lima Vaz, o ethos é homólogo ao
agathón, e, como tal, é o modelo do consenso social efetivado no novo espaço
intencional da relação de reciprocidade comunitária, pela qual os sujeitos experimentam a sua “segunda natureza” ou o seu ser social.
328 “O termo ethos é uma transliteração dos dois vocábulos gregos ethos (com eta inicial) e ethos (com épsilon inicial). A primeira acepção...o ethos é a casa do homem...a segunda acepção...diz respeito ao comportamento que resulta de um constante repetir-se dos mesmos atos”. (EF II, p. 12- 14).
329 Ibid., p. 70. 330 EF IV, p. 38.
A experiência da sociabilidade humana nada mais é do que o exercício ético referente a esse “universo objetivo de bens, fins, normas e valores, ou seja, a um
ethos historicamente realizado”331. Logo, a análise fenomenológica desse fenômeno
facilita a visão do seu “perfil eidético”, na dinâmica existencial da relação singular- universal em que o sujeito se universaliza pela interiorização desses valores.
A primeira evidência do fenômeno ethos é a sua estrutura dual, ele é inseparavelmente individual e social, o que implica a dependência recíproca entre o social e o individual, uma vez que a existência do ethos só se efetiva a partir da práxis dos sujeitos. Destarte, para Lima Vaz, o ethos é a casa (oikos) do homem.
A casa simbólica que o acolhe espiritualmente e da qual irradia para a própria casa material uma significação propriamente humana entretecida por relações afetivas, éticas, e mesmo estéticas, que ultrapassam suas finalidades puramente utilitárias e a integram plenamente no plano humano da cultura332.
Neste horizonte espiritual, a cultura, o indivíduo encontra aconchego e compreende o sentido da sua existência, ao mesmo tempo em que aprende os elementos necessários à sua auto-realização na sociedade, porque processualmente vai interagindo com a tradição cultural, com os costumes, com os valores, ou seja, com os princípios fundamentais da convivência que formam o caráter e conferem o perfil ético das pessoas.
A cultura333 não é, entretanto, um dado natural, mas é o resultado do agir334 do indivíduo, que continuamente constrói e reconstrói o seu oikos comum na dinâmica incessante da produção cultural. A cultura como espaço habitável em que a comunidade humana cria as suas condições de sobrevivência por meio do conjunto de modos de viver e de pensar é, portanto, o primeiro elemento constitutivo do
ethos. Destarte, há uma “identidade ou coextensão de ethos e cultura”335 no
331 EF V, p. 71. 332 EF IV, p. 40.
333 “Sistema das significações com que a sociedade e o indivíduo representam e organizam o mundo como mundo humano”. (EF II, p. 37).
334 “Afirmar que o ethos é co-extensivo à cultura significa afirmar a natureza essencialmente axiogênica da ação humana, seja como agir propriamente dito (praxis), seja como fazer (poíesis). Assumida na intencionalidade da ação, a res sobre a qual ela se exerce torna-se um opus (ergon) propriamente dito, a síntese realizada entre a natureza do objeto e a operação do sujeito”. (EF II, p. 36).
335“Isso se verifica, em primeiro lugar, porque o ethos é o modo especificamente humano, inseparavelmente individual e social, de existir no mundo; em segundo lugar porque a cultura não é mais que a criação de um mundo propriamente humano, tanto pela produção material de bens que garantam a sobrevivência dos grupos humanos como pela produção de obras que atestam o empenho dos grupos humanos na luta pelo sentido a ser dado à sua existência; e, em terceiro
pensamento vaziano, o que denota a equivalência que o Filósofo faz entre Cultura e Ética.
Então, se “o homem habita o símbolo”, no processo contínuo de sua inserção cultural, ele se encontra necessariamente com a herança simbólica336 tradicional, preservada ao longo do tempo pelas gerações passadas como “o legado mais precioso”, e que é transmitido às novas gerações como princípios que orientam a sua convivência social e possibilitam a sua auto-realização. O que significa dizer que, no intercâmbio cultural, o sujeito interage com o ethos tradicional337 presente na
história e com os seus pares vai aprendendo os princípios norteadores da vida-em- comum.
Essa dinâmica tradição-história é o segundo elemento constitutivo do ethos. Com efeito, ele permanece no tempo, como uma construção histórica, uma vez que “o ser humano não conseguiria refazer continuamente sua morada espiritual”338. Não é, todavia, uma permanência fechada à dinâmica própria da história, nem um padrão normativo e prescritivo de valores estáticos, pois o ethos assimila dinamicamente novos valores e adapta-se a novas situações temporais, principalmente em períodos de crise.
A relação entre a permanência e a historicidade do ethos, por sua vez, manifesta-se na sociedade na forma de costumes (mores) que especificam em extensão universal “a forma com que a vida humana é vivida dentro de determinada
lugar...porque as formas mais elementares do que veio a ser a ética como ciência do ethos não são mais do que transcrições racionais, sob a forma de códigos de conduta, do ethos vivido pelas comunidades históricas. Se é verdadeiro o pressuposto da identidade entre ethos e cultura, dele se segue necessariamente a afirmação de que toda cultura é constitutivamente ética.” (Cf. Marcelo PERINE, Ética e sociedade, p. 52.
336“Enquanto mundo objetivo de realidades simbolicamente significadas e que tende, pela tradição, a perpetuar-se no tempo, a cultura mostra, assim, toda uma face voltada para o dever-ser do indivíduo e não apenas para a continuação do seu ser: nela o indivíduo encontra, além do sistema técnico que assegura a sua sobrevivência, ainda e sobretudo o sistema normativo que lhe impõe a sua auto- realização”. (EF II, p. 39.)
337 “No ethos tem lugar uma necessidade instituída, e é justamente a tradição que suporta e garante a permanência dessa instituição e se torna, assim, a estrutura fundamental do ethos na sua dimensão histórica. Entre a necessidade natural e a pura contingência do arbítrio, a necessidade instituída da tradição mostra-se como o corpo-histórico no qual o ethos alcança sua realidade objetiva como obra da cultura. A própria significação literal do termo tradição (parádosis, traditio) indicando entrega ou transmissão de uma riqueza simbólica que as gerações se passam uma à outra, denota a estrutura histórica do ethos e a sua relação original ao fluxo do tempo.” (EF II, p. 17-19.)
tradição ética”339, por meio da codificação das leis e da criação das instituições
sociais. Nesse sentido, o costume é o terceiro elemento constitutivo do ethos.
Na sociedade, as instituições e as leis sociais conservam o costume, mas ao mesmo tempo o transmitem ao sujeito por meio do processo educativo de interiorização dos valores e da vivência dos mesmos na forma de hábito (hexis). O hábito é, então, a “forma concreta de vida”, a expressão da intencionalidade consciente do sujeito que interioriza livremente os valores sociais e os assume como seus pela prática da virtude (areté). Logicamente, o hábito (hexis) é o quarto elemento constitutivo do ethos e tem como fim o bem do sujeito, ou a sua “auto- realização segundo os valores do ethos socialmente legitimado. Como tal, o hábito exprime uma forma superior de excelência do indivíduo, sua areté ou virtude ética”340. Há uma circularidade dialética no ethos:
Do ponto de vista de sua efetiva realização social, o costume como tradição é um universal abstrato que se particulariza continuamente nas infinitas situações através das quais transcorre a vida dos indivíduos, e que encontra sua singularidade efetiva na praxis concreta na qual determinado indivíduo realiza ou recusa os valores do costume recebidos pela educação341.
Lima Vaz estabelece uma circularidade causal entre a tradição (costume) e a educação (hábito), ou entre o ethos e a práxis; pela tradição, o hábito recebe a sua forma, e pela educação, a tradição recebe o seu conteúdo, daí a necessidade social do intercâmbio entre ethos-práxis para que o consenso social se efetive historicamente em uma comunidade.
O consentimento à presença do Outro na comunidade resulta, portanto, das relações interativas desenvolvidas pela educação (paideia) no “campo ético”, ou no espaço social entre o ethos e a práxis desenvolvidas pelas diversas instituições que socialmente asseguram o consenso intersubjetivo. Logo, a educação ocupa uma função determinante no processo de socialização, pois só a partir da formação da consciência moral o sujeito alcançará a sua auto-realização, a sua independência e a “posse de si mesmo (autarqueia)”342 e poderá conviver socialmente.
A aceitação da universalidade e normatividade do ethos pelo sujeito no processo educativo de sua socialização não se dá, contudo, de forma arbitrária, como se ele não tivesse a oportunidade de escolher, mas pela conscientização do
339 EF II, p. 41. 340 Ibid., p. 42. 341 Ibid. 342 EF II, p. 22.
sentido das leis e das normas para o bem comum, de tal forma que o seu cumprimento expresse a liberdade individual efetivada.
Por outro lado, a efetivação da liberdade individual não deve ser interpretada como passividade do indivíduo diante da lei, nem que ele é incluído passivamente no costume social em que nasceu muito menos como uma relação de causa-efeito. Para Lima Vaz, a relação ethos-indivíduo se dá em uma relação dialética:
A universalidade abstrata (no sentido da lógica dialética) do ethos como costume é negada pelo evento da liberdade na práxis individual e encontra aí o caminho da sua concreta realização histórica no ethos como hábito (hexis) ou como virtude343.
A educação (paideia) deve propiciar, por conseguinte, a efetivação da relação circular ethos-práxis-hexis como processo pelo qual o indivíduo vivencia a sua maturação ética. Lima Vaz chama, porém, a atenção para a complexidade e dificuldade desse processo educativo, uma vez que a liberdade individual vive continuamente na ambivalência da escolha entre o ser e o não-ser, expressando a dificuldade experimentada pelo sujeito na passagem do dado à forma educativa da sua “segunda natureza” em todas as suas experiências vitais, as corporais, as psíquicas e as culturais.
O sujeito vive no interior de um drama existencial, porque uma vez situado historicamente, ele encontra um ethos socialmente constituído que lhe ensina os valores norteadores do seu viver e do seu agir e, ao mesmo tempo, descobre em si a possibilidade de aceitá-los ou não de acordo com a sua decisão voluntária. A tensão singular-universal é amenizada quando o sujeito toma consciência da sua essencial sociabilidade como um ato moral ou como expressão da sua liberdade. Logo, a tarefa educativa da vontade individual é a tarefa mais árdua exercida pela sociedade é, contudo, a mais necessária, pois só no continuum dessa aprendizagem o sujeito passa do dado ao significado e compreende a sua identidade ética como uma relação interativa no meio social.
Daí o resgate que Lima Vaz faz do conceito tomásico de Consciência moral como o ato que reflete sobre o agir moral e expressa a liberdade pessoal diante do bem comum, a Lei moral, e possibilita a vida comunitária. Para aprofundar o pensamento vaziano sobre a participação do sujeito na sociedade, discorrer-se-á
fenomenologicamente sobre a formação da consciência moral, fundamento da socialização.