2 FORMAÇÃO DOCENTE: A PALAVRA DO PROFESSOR CONTA?
2.3 Formadoras tornam-se ouvintes e interlocutoras das professoras
A preocupação com a criação de espaços em que os professores possam falar ou
escrever sobre seus saberes e práticas foi um aspecto central na formação desenvolvida nos
EPELLE. Nesse espaço, diferentes gêneros discursivos foram produzidos, sendo
compreendidos como
[...] escritas que pretendem compartilhar lições aprendidas a partir da
experiência, da reflexão sobre a experiência, da discussão coletiva, da
leitura, do estudo, da pesquisa. [...] são gêneros discursivos privilegiados
para que os educadores documentem o que fazem, o que pensam, assim
como suas inquietações, dificuldades, conquistas..., enfim, sua produção
intelectual (PRADO E CUNHA, 2007, pp. 9-10).
Apostando na importância de espaços onde os professores possam apresentar sua
produção intelectual como fruto da experiência, do estudo, da discussão coletiva, a formação
continuada desenvolvida no âmbito do projeto “As (im)possíveis alfabetizações dos alunos de
classes populares pela visão de docentes na escola pública” compreendeu uma didática em
que os enunciados das professoras participantes foram retomados como conteúdos da
formação, sendo colocados em discussão em diversos encontros.
A seguir, analiso alguns eventos da pesquisa de campo realizada. Os discursos
produzidos por formadoras e professoras em formação são analisados considerando-se a
ordem metodológica proposta por Bakhtin (2009, pp.128-129): partindo da situação de
interação verbal – nesse caso, os encontros de formação continuada –, chego aos enunciados
de formadoras e professoras, salientando, finalmente, marcas linguísticas que
refletem/refratam aspectos da situação de interação verbal e constituem as possibilidades de
produção de sentidos dos enunciados analisados.
Analiso agora os diálogos estabelecidos pelas formadoras com os enunciados das
professoras durante os encontros de formação a partir das produções do glossário, dos
ingredientes para a alfabetização e do relato de trabalho com a oralidade.
No primeiro encontro de formação, em 2011, a formadora
23fez a leitura do livro
“Mania de explicação”, de Adriana Falcão
24, e, com o objetivo de levantar representações
sobre alfabetização, propôs um momento de associação livre/tempestade de ideias com o tema
e solicitou que as professoras escolhessem algumas das palavras listadas para criar uma
definição nos moldes do livro lido. As palavras propostas no momento das interações
coletivas, pela oralidade, foram escritas no quadro e novamente enunciadas por escrito nas
definições que as professoras elaboraram.
Dentre as palavras citadas pelas professoras, encontram-se muitas ligadas a aspectos
emocionais e psicológicos (desafio, curiosidade, sofrimento, insegurança, autonomia,
criatividade, desejo), o que pode ser explicado pela influência da leitura utilizada como um
detonador da atividade, mas também pela presença marcante da psicologia no campo
educacional. Não apareceram palavras mais relacionadas ao conhecimento linguístico, tais
como letra e fonema. Tais considerações foram discutidas com as professoras no encontro
posterior, lançando-se a ideia de “ingredientes da alfabetização”.
No segundo EPELLE, realizado no dia 23 de março de 2011, a formadora propôs uma
discussão acerca da ideia de receita de alfabetização. Durante o encontro, foram lidos os
textos “Receita de alfabetização” e “Alfabetização sem receita”, de Marlene Carvalho, e
“Alfabetização não tem receita, mas tem princípios”, de Patrícia Corsino, a fim de provocar a
reflexão sobre o que é necessário para alfabetizar.
É comum, no meio educacional, encontrarmos críticas à busca de receitas prontas por
parte dos professores, como se eles procurassem fórmulas a ser reproduzidas em suas aulas,
como se desejassem “uma facilitação” (ANDRADE 2014). Subvertendo essa ideia, lustrando
seus significados “em prol da compreensão da prática docente, na sua relação com a teoria”
(ANDRADE, 2014, p. 137), a formadora propôs pensar a receita relacionada à culinária no
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Os encontros, em sua maioria, foram planejados e realizados pela coordenadora do projeto e uma professora
da UFRJ. Alguns encontros foram planejados e realizados por doutorandas e mestrandas envolvidas com o
projeto.
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