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No processo de subsunção real do trabalho ao capital, a prática social docente se estabelece de modo que a capacidade de se colocar criticamente frente à realidade se contrapõe à perda de controle, de autonomia, caracterizando uma intensa diminuição no processo de profissionalização.

Abreu e Landini (2003, p. 7)

Sobre a questão da sindicalização estudos têm apontado de modo geral pouca ou quase nenhuma participação de organizações e lutas de classe de professores temporários. No estudo de Ferreira D. (2013), por exemplo, dos 15 sujeitos que participaram de sua pesquisa sobre as possíveis causas do uso recorrente da prática de contratação temporária no magistério paranaense, já referenciado por nós, 14

afirmaram não serem sindicalizados. Para essa autora, ao se ter diferentes tipos de vínculos trabalhistas, gera-se a dificuldade de se convergir em relação aos mesmos interesses e aos mesmos ideais, o que enfraquece o poder reivindicatório e a organização da categoria.

Em suma, a ausência de sindicalização é quase que geral e, do ponto de vista da ação dos sindicatos, alguns deles mediam determinadas pautas, mas marcadamente, as que têm impacto na questão salarial. Gomes (2017), fazendo uma análise das redes estudais do país, por sua vez, ressalta que a falta de vínculo, a rotatividade e a ameaça ao desemprego atuam, portanto, de forma negativa na organização coletiva, retardando o andamento de ações conjuntas entre docentes temporários, como reuniões, greves e manifestações.

Essa falta de organização é problematizada por Roldão (2005, p. 110), em relação à formação da profissionalidade docente no que tange à “Ilimitada intervenção sobre a organização do seu trabalho e da estrutura institucional”, tanto em relação ao controle do saber como também na mínima possibilidade de negociação com o Estado, o que se agrava na condição de contrato temporário. Assim, questionados/as sobre a associação a algum sindicato ou representação de professores, 80% dos sujeitos de pesquisa disseram que não estão associados, dados constantes na Tabela 11. Tal situação se reproduz na realidade local do DF a situação em âmbito nacional quando comparada com diferentes estudos tais como os mencionados anteriormente.

Tabela 11 - Associação de professores temporários a sindicatos ou entidades representativas

Associado aos sindicatos ou

entidades representativas Qtde. %

Não 162 80%

Sim 41 20%

Total Geral 203 100%

Fonte: A autora (2021)

Como já mencionado, o movimento associativo54 docente, torna-se fase importante no processo de profissionalização, preceitua Nóvoa (2014, p. 19) que “A

54 Segundo Nóvoa (2014) estas associações pressupõe a existência de um trabalho prévio de constituição dos professores em corpo solidário de elaboração e de mentalidade comum.

profissão docente exerce-se a partir da adesão coletiva (implícita ou explícita) a um conjunto de normas e de valores”. Em uma análise, segundo o caracterizador coletivo de pares, Roldão (2005, p. 10) destaca que “o individualismo sacralizado do exercício, que tem conduzido, sem que os próprios se apercebam da sutileza deste dispositivo social, ao esvaziamento de um corpo coletivo, enquanto comunidade de pares”.

Na busca por sistematizar e socializar as relações de trabalho com o propósito de progressão para a classe trabalhadora, torna-se essencial a criação de instituições políticas e representativas para esse fim. Pela análise, o desenvolvimento da profissionalidade dos professores temporários, por do sindicato, apresenta-se fragilizado. Contraditoriamente, esta instituição representativa da pesquisa, como uma instituição relevante para consolidação da sua atuação em uma dimensão coletiva e política, embora certas condições objetivas, tais como a da questão financeira apresenta-se como uma barreira a ser transposta para se garantir a inserção plena dos professores na instituição sindical.

Desta feita, alguns respondentes, quando registram respostas às questões abertas referente à sindicalização, apontaram certa resistência ao sindicato, com expressões de negatividade: “não gosto de sindicatos”; “não vejo necessidade”; não confio”. Tais respostas desvelam o posicionamento que os professores assumem ao parece, de certo afastamento das lutas de classe, e de reflexões quanto a alienação do trabalho, das relações com o mundo e suas próprias, mesmo sob a condição de contratação temporária.

Associada a essa resistência, foi enunciado que seriam necessários mais esclarecimentos, por parte do sindicato, sobre seu papel na representatividade da categoria, sobretudo, para a sua condição de professor temporário. Expressões tais como: “Não tive oportunidade de conhecer as vantagens de me associar” ou “Porque até hoje não sei ao certo o que o sindicato faz” exemplificam a necessidade de tais esclarecimentos. Nessa mesma linha, alguns afirmaram que já foram sindicalizados, mas desistiram por terem vivenciado algo negativo que repercutiu no sentimento de não se sentir representado. Mesmo aqueles que indicaram ser sindicalizado comentam que a organização precisaria se aperfeiçoar tanto em forma de se relacionar com a categoria como em relação ao conteúdo de intervenção.

Contudo, quando cruzamos os dados relacionados o tempo de experiência na docência com a associação a algum sindicato ou representação de professores na Tabela 12 constata-se que os professores mais experientes, com 26 a 30 anos de

docência, eram os que mais se associavam (38%) seguido daqueles com 11 a 15 anos de experiência (31%)55.

Tabela 12 - Anos de docência versus associação a sindicatos ou entidades representativas

Anos de docência

Associação a sindicato ou entidades representativas

Não Sim Total Geral

N % N % N %

01 - 05 67 87% 10 13% 77 38%

06 - 10 47 78% 13 22% 60 30%

11 - 15 22 69% 10 31% 32 16%

16 - 20 10 71% 4 29% 14 7%

21 - 25 11 92% 1 8% 12 6%

26 - 30 5 63% 3 38% 8 4%

Total Geral 162 80% 41 20% 203 100%

Fonte: A autora (2021)

A partir dessas respostas, infere-se que, mesmo que o sindicato tenha sido muito tensionado nas falas dos/das participantes, o processo de imersão e constituição da profissionalidade no trabalho docente que vivenciam ao longo dos anos permite que reconheçam a relevância dessa organização tanto no nível mais subjetivo quanto objetivo das relações de trabalho.

Outro fator que foi significativo diz respeito à espera de serem efetivos e a insegurança para se associarem por estarem em condição temporária. Encontramos, nas respostas dos professores, possíveis indicadores do distanciamento no sindicato, quando o professor Onix, por exemplo, pontua que “É complicado ficar com esse compromisso e saber que posso faltar financeiramente com o sindicato sem saber se estarei trabalhando ou não”.

A defesa dos direitos conquistados pelo Sindicato dos Professores do Distrito Federal – SINPRO-DF, é pontuada pelos professores respondentes, como um elemento identificador que caracteriza e define o sindicato, como menciona as professoras Ametista e Amazonita, respectivamente:

55 Para verificar se há diferença estatística significativa realizou-se o teste Qui-Quadrado com α=10%

e obteve-se o p-valor = 0.1,

Identidade de classe e participação na reivindicação dos meus direitos trabalhistas. E no âmbito da consciência coletiva evidencio a importância da associação em contradição que no grande conjunto de professores temporários estão afastados do movimento sindical.

Representa um ato de grande importância no processo de fortalecimento do SINPRO-DF. Isso porque o crescimento da representação do sindicato dá força às constantes ações na luta pela manutenção das conquistas, ampliação dos direitos da categoria, pela dignidade e respeito ao trabalho realizado pelo educador.

Em 2015, o SINPRO-DF, lança uma nota sobre perseguição de professores temporários e a possível perda de direitos dos mesmos em participarem das atividades do sindicato.

Desde que a diretoria colegiada do Sindicato convocou a categoria para manifestação na Praça do Buriti contra a Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) movida pelo Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (TJDFT) que visa a retirar reajustes salariais de várias categorias, em especial o do magistério, os(as) professores(as) do contrato temporário têm recebido notificações das gestões das Regionais de Ensino proibindo-os de participar de paralisações. (GDF cassa direito de professores (as) temporários (as) participar de paralisações. (GDF CASSA..., 2015, Online).

Tal fato, também pode refletir nos últimos 5 anos, no distanciamento dos professores em condição temporária da possibilidade de se associarem SINPRO-DF.

Os sindicatos, em conjunto com os demais elementos para o desenvolvimento de uma organicidade entre os professores, propiciam ao profissional a capacidade de perceber como componente, enquanto militante, de batalha pela superação da imposição do capital sob o trabalho docente, em comunhão com seus pares.

Assim, vemos que o processo de associação e reconhecimento do papel do sindicato para o fortalecimento organizativo e político bem como processos de pertencimento à profissão docente, implicam, numa modificação de postura em relação aos seus pares pois isolados a categoria se torna mais vulnerável. Vemos que a condição temporária tanto se apresenta como um elemento fragilizado, quanto, ao mesmo tempo é visto como espaço significativo para o crescimento de uma representatividade social da categoria, inclusive de afirmação da profissão que se assumiu, categoria que debateremos a seguir.