7 INVENÇÕES PELA CIDADE – ENTRE A RUA E AS INSTITUIÇÕES
7.2 FORMAS DE APROPRIAÇÃO DA CIDADE: RUA E INSTITUIÇÕES
Apesar da afirmativa de todas participantes da pesquisa sobre o graffiti ser o que é na rua, existiu relações com espaços institucionalizados. Muitas deram oficinas, ou mesmo iniciaram suas ações havendo uma intermediação com espaços que trabalham com atividades culturais, universidades e movimentos sociais.
O trabalho como arte-educadoras foi mencionado como algo de importância, uma troca rica entre educadores e educandos. Até mesmo nas oficinas não regulares, aquelas que aconteceram em eventos ou outras situações são colocadas como experiências libertadoras para os participantes. Foi mencionado como a educação formal pode ser castradora, como as
pessoas precisam de mais instrumentos e veículos para a expressão, como precisam se permitir, como aprenderam a reprimir suas pulsões mais orgânicas e espontâneas. As oficinas mencionadas aconteceram com pessoas de todas as idades em lugares variados, desde escolas até hospitais psiquiátricos. Há então, uma relação entre diversos espaços, muitas das instituições impulsionaram a apropriação do espaço público da cidade e permitiram o compartilhamento da experiência com outros grupos e perfis de pessoas. Tati fala com muito entusiasmo sobre a experiência em uma escola: “A gente pintava a escola inteira, muitos continuaram grafitando.”43. Por isso, afirmo que a ação do graffiti não fica restrita nem à rua,
nem ao universo dos praticantes.
Como uma das ações de apropriação da cidade que vão para além do graffiti, irei dar uma atenção especial ao Baile Black, realizado pelo Coletivo do qual Tati e Mari fazem parte, e que estive presente no dia 21 de junho de 2014.
Era sua 6ª edição, o evento faz referência ao primeiro Baile de Black Music do Rio de Janeiro, realizado no antigo clube Astória, na década de setenta, localizado no mesmo território onde hoje acontece a festa atual. O Catumbi é um bairro que possui um histórico de variadas manifestações culturais do Rio de Janeiro, sofreu com interferências do Estado que eram desaprovadas pelos moradores, um projeto de renovação urbana, do fim da do ano de 66 chamado de “Projeto Cidade Nova”, a região era vista como um lugar que não tinha seu potencial devidamente explorado “então considerado um bairro estagnado, muito próximo da área central de negócios e com potencialidades tanto para expansão das atividades econômicas como para o adensamento para fins residenciais.” (ABRAHÃO, 2008, p. 122).
Como em outros momentos da história do Rio de Janeiro, muitas pessoas foram desalojadas e foram desconsideradas as opiniões dos moradores, verdadeiros praticantes daquele espaço, em nome de uma dita modernização, de uma lógica econômica em que o lucro não é revertido para os habitantes locais:
Apesar da resistência da Associação dos Moradores do Catumbi, o bairro teve 2/3 de sua área original destruída, até que, em 1979, a prefeitura do Rio de Janeiro iniciou gestões para mudar os planos originais e em 1980 transformou o que havia resistido às demolições em Área de preservação ambiental. (ABRAHÃO, 2008, p. 123).
A localização do baile faz referência ao clube que foi demolido nesse contexto de revitalização da cidade, paredes e tijolos que ganhavam vida com as criações dos moradores e que foram levados ao chão junto com outros estabelecimentos e residências.
Nunca havia estado na passagem subterrânea do Catumbi antes, a Tati já havia me falado do trabalho que era realizado, mas só é possível entender presenciando. O lugar fica em baixo de um viaduto e em frente ao cemitério, pensando nisso, primeira impressão imaginária é de um lugar vazio, perigoso, escuro, um tanto quanto assustador. Cheguei bem no início do evento, os comerciantes ainda armavam suas barracas, mas o DJ já tocava a música e havia alguns visitantes. É claro que se tratando de uma festa, e sabendo do trabalho que o coletivo realiza, eu tinha certeza de que o espaço não seria parecido com o imaginário que produz, mas ver pessoalmente foi uma grande e agradável surpresa.
O túnel é todo colorido: são personagens, pinturas abstratas, frases e poemas, há ainda mensagens de amor ao bairro e a recorrente frase “Eu amo Catumbi” (nome do projeto do coletivo incorporado pelos moradores). Dentro do túnel há iluminação de festa, luzes dançantes que dão um clima de discoteca ao lugar, e a cada feixe dá para ver com mais nitidez os belos desenhos, que surgem como um cumprimento, um “seja bem-vindo”. Nesse dia, iria acontecer a pintura coletiva do túnel, a tarde, antes da festa, mas acabou sendo cancelada pela grande possibilidade de chuva, ainda sim, houve muito para viver por ali.
Frequentando estavam crianças, jovens, adultos e idosos, aqueles que estavam trabalhando com suas barracas interagiam e se divertiam da mesma maneira. Havia uma pista de dança improvisada, que era de todos, desde os grandes dançarinos e seus passos elaborados, até os que se arriscavam em só sentir a batida da música. Fazendo usos das tintas, havia um grupo fazendo “silk” com a frase “Eu amo catumbi”, a arte era de graça, bastava levar sua própria camisa ou qualquer outra peça de roupa, adesivos com a mesma frase também eram distribuídos. Até aqueles que estão literalmente “de passagem”, apenas utilizando o túnel como forma de deslocamento pareciam se sentir em casa ao passar por ali, mesmo que por um instante.
Não conseguia parar de pensar o como seria aquele local sem a intervenção, sem a contaminação e pigmentação dada por aqueles sujeitos ali presentes e suas marcas nas paredes. É claro que não existe festa todos os dias, mas com certeza a passagem toma outras formas e sentidos por conta deste acontecimento, seja na questão mais física presente na pintura, limpeza e manutenção elétrica, seja no que ele passa a representar (não que eu acredite que uma coisa possa ser separada da outra).
Existe ali uma cultura de valorização do território, o que inclui as pessoas e suas histórias, há gente de outros bairros e localidades, que mesmo assim entram nesse espírito, compartilham essas histórias, os momentos, vivem a cidade junto com quem realmente ali habita.