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4.2 PERFIL DOS PROFISSIONAIS DOS CAPSAD

5.1.1 Formas de encaminhamento O lugar do CAPSad na RAPS

A maioria dos usuários está em tratamento no CAPSad de 1 a 5 anos, o maior percentual dos usuários chegou ao CAPSad por meio de encaminhamento de outros serviços, principalmente pelas Unidades Básicas de Saúde (UBS), seguido de busca espontânea (43,7%). Outros estudos também verificaram a demanda pelo atendimento do CAPSad com prevalência dos encaminhamentos profissionais ou de outros serviços de saúde (CONSTANTINO; BATISTA, 2012; PELISOLI; MOREIRA, 2007). A variável demanda pelo atendimento reforça a hipótese, de que a atenção integral à saúde das pessoas que fazem uso nocivo de álcool e outras drogas está sendo constituída e articulada em rede, um dos principais pressupostos da RAPS. Ao verificar que mais usuários estão sendo encaminhados pela rede pública, supõe-se que cada unidade esteja mais integrada ao CAPSad, efetivando o funcionamento do sistema de referência e contra referência.

Entretanto, é importante ressaltar que o processo de implementação da atual política brasileira sobre drogas, ocorre em um panorama político, com a Política Nacional sobre Drogas (PNAD) da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (SENAD), a Política de Atenção Integral aos Usuários de Álcool e Drogas (PAIUAD) do Ministério da Saúde o Plano Integrado de Enfrentamento ao Crack e outras Drogas (PIEC). Apesar de suas particularidades, a PNAD, a PAIUAD e o PIEC compartilham do objetivo de implantar e fortalecer redes assistenciais as pessoas que tem problemas decorrentes do consumo de drogas. A PAIUAD propaga que os CAPSad serão os articuladores dessa rede, responsáveis pela assistência direta das ações do SUS e também do Sistema Único de Assistência Social (SUAS), atuando em conjunto, principalmente, com a Atenção Primária à Saúde (APS) através das equipes da Estratégia de Saúde da Família (ESF), os Centros de Assistência Social (CRAS) e os Centros de Referência Especializados da Assistência Social (CREAS) (COSTA et al., 2015).

Essa rede está relacionada diretamente com a RAPS, que visa a articulação dos pontos de atenção à saúde para pessoas com sofrimento ou transtorno mental e com necessidades decorrentes do uso de drogas no SUS. Assim, a rede assistencial sobre drogas, tem seu embasamento na Rede de Atenção à Saúde (RAS) e com a RAPS, articulando a atenção a usuários de drogas com a atenção à saúde e em saúde mental, a partir dos princípios do SUS e da Reforma Psiquiátrica (COSTA et al., 2015).

Os CAPSad representam, portanto, o serviço organizador da rede e um grande avanço ao direcionar o tratamento dos usuários de drogas para a comunidade. Entretanto, embora essa pesquisa tenha verificado que os encaminhamentos de outros serviços ao CAPSad tenham sido significativos, ainda há muita dificuldade para consolidação dos CAPSad como elemento aglutinador e organizador da rede de saúde mental e sobre drogas, no cenário nacional (COSTA et al., 2015).

A partir de 2002, houve uma importante expansão no número de CAPS em todo o país. Em 2015 chegou-se ao quantitativo de 1.135 CAPS I, 488 de CAPS II, 92 CAPS III, 210 CAPS i, 315 CAPSad e 88 CAPSad III, totalizando 2.328 serviços, 119 a mais que o último quantitativo divulgado pelo relatório Saúde Mental em Dados (BRASIL, 2015).

Os CAPSad estão localizados em maior número em cidades de médio porte populacional. Os estados do Acre, Tocantins e Roraima não contam com serviços do tipo CAPS i e CAPSad, sinalizando, assim, fragilidade na rede de atenção para públicos específicos: infanto-juvenil e usuários de álcool, crack e outras drogas. Os CAPSad III, por serem serviços mais recentes, encontram-se em menor número em relação aos demais. As estratégias de cuidado para pessoas com necessidades decorrentes do uso de álcool e outras drogas foram ampliadas com o programa Crack, é Possível Vencer (MACEDO et al., 2017).

Apesar da expansão dos CAPSad no país, ainda é questionada a capacidade do CAPSad de atuar enquanto ordenador da rede. Em grande parte, este dispositivo encontra-se desarticulado de outros serviços fundamentais da RAS, RAPS e da própria rede assistencial sobre drogas, como: os serviços da APS, dispositivos socioassistenciais e comunitários e até outros CAPS e CAPSad. Sendo assim, o CAPSad ainda não consegue cumprir o objetivo de ser o centro articulador de toda a rede assistencial sobre drogas, uma vez que não tem conseguido realizar o matriciamento dessa rede. Há um comprometimento da continuidade do cuidado e da oferta assistencial nos níveis de complexidade do sistema de saúde, o que implica na dificuldade em estabelecer a integralidade (COSTA et al., 2015).

O objetivo da regionalização da RAPS no Brasil foi de tornar mais eficientes os recursos nos territórios de saúde e ampliar o acesso, além de melhorar a qualidade da atenção. Os sistemas universais de saúde têm priorizado ações de descentralização e regionalização da assistência, monitorados por instrumentos de planejamento e gestão de redes. Essa é uma tendência dos sistemas de saúde no mundo, a exemplo do que ocorre na Inglaterra, Alemanha, Itália, Espanha, EUA e Canadá. Apesar de acompanhar esse debate mais recentemente, o Brasil guarda particularidades que não podem ser ignoradas. Trata-se de sua dimensão territorial acompanhada de aspectos relacionados às questões de natureza histórico-estrutural, político-

institucional e conjuntural que, não são observados nos países citados. Esses fatores são complexos na realidade brasileira e dificultam a efetivação das redes de atenção em cada território, considerando as diferenças de escala, condições de saúde, oferta de serviços e cobertura, recursos humanos e financiamento, o que singulariza cada região de saúde tornando- a única no desenho que irá tomar no processo de regionalização (MACEDO et al., 2017).

Especificamente em relação a atenção à população com necessidades decorrentes do uso de álcool e outras drogas, identificou-se 200 regiões de saúde (45,16%) que não contam com acesso ao CAPSad. Mesmo com os avanços, a atenção em saúde mental de forma regionalizada para públicos específicos continua como um dos pontos mais problemáticos do processo reformista brasileiro. Em contrapartida, registra-se no país o enorme crescimento das comunidades terapêuticas que pertencem ao setor privado, filantrópico ou a instituições religiosas, sem regulação nenhuma do estado e sem compromisso com as diretrizes da atenção psicossocial e com foco apenas na internação de longa permanência (PEREIRA, 2014).