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3. AS ÁREAS DE PROTEÇÃO AMBIENTAL (APAs)

3.4. O PROCESSO DE GESTÃO DE APAs

3.4.2. Formas de gestão

No caso da APA, o principal fórum de participação é o Conselho da APA que, nos termos do §5º do artigo 15 da Lei n.º 9.985/00, será presidido pelo órgão responsável por sua administração e constituído por representantes dos órgãos públicos, de organizações da sociedade civil e da população residente. O Decreto n.º 4.320/02 esclarece o seguinte, acerca da composição:

 A representação dos órgãos públicos deve contemplar, quando couber, os órgãos ambientais dos três níveis da Federação e órgãos de áreas afins, tais como pesquisa científica, educação, defesa nacional, cultura, turismo, paisagem, arquitetura, arqueologia e povos indígenas e assentamentos agrícolas.

 A representação da sociedade civil deve contemplar, quando couber, a comunidade científica e organizações não-governamentais ambientalistas com atuação comprovada na região da unidade, população residente e do entorno, população tradicional, proprietários de imóveis no interior da unidade, trabalhadores e setor privado atuantes na região e representantes dos Comitês de Bacia Hidrográfica.

 A representação dos órgãos públicos e da sociedade civil nos conselhos deve ser, sempre que possível, paritária, considerando as peculiaridades regionais.

Guapyassú (2003, p. 12) ressalta, porém, que nem a Lei do SNUC e nem o respectivo Decreto regulamentador definem se o papel dos Conselhos das APAs deve ser consultivo ou deliberativo.

O Decreto n.º 4.340/02 estabelece as seguintes competências para o conselho de uma unidade de conservação:

I - elaborar o seu regimento interno, no prazo de noventa dias, contados da sua instalação;

II - acompanhar a elaboração, implementação e revisão do Plano de Manejo da unidade de conservação, quando couber, garantindo o seu caráter participativo; III - buscar a integração da unidade de conservação com as demais unidades e espaços territoriais especialmente protegidos e com o seu entorno;

IV - esforçar-se para compatibilizar os interesses dos diversos segmentos sociais relacionados com a unidade;

V - avaliar o orçamento da unidade e o relatório financeiro anual elaborado pelo órgão executor em relação aos objetivos da unidade de conservação;

VI - opinar, no caso de conselho consultivo, ou ratificar, no caso de conselho deliberativo, a contratação e os dispositivos do termo de parceria com OSCIP, na hipótese de gestão compartilhada da unidade;

VII - acompanhar a gestão por OSCIP e recomendar a rescisão do termo de parceria, quando constatada irregularidade;

VIII - manifestar-se sobre obra ou atividade potencialmente causadora de impacto na unidade de conservação, em sua zona de amortecimento, mosaicos ou corredores ecológicos; e

IX - propor diretrizes e ações para compatibilizar, integrar e otimizar a relação com a população do entorno ou do interior da unidade, conforme o caso.

Em que pese ser bastante usual a utilização do termo “conselho gestor”, convém observar que não consta dentre as competências arroladas pelo Decreto n.º 4.430/02 a atribuição para a gestão da unidade.

Guapyassú (2003, p. 12) ressalta, todavia, que nada impede que isso aconteça na prática, uma vez que algumas APAs vêm delegando a seus conselhos atribuições de gestão da unidade e obtendo ótimos resultados.

Conforme registra Guapyassú (2003, p.24) nas APAs podem ser aplicadas diferentes formas de gestão participativa que incluem a participação pontual ou contínua dos diferentes envolvidos. A idéia central é sempre a mesma: tomar decisões em conjunto visando o benefício coletivo, respeitando-se os princípios e as diretrizes definidas para a categoria e buscando-se atingir os objetivos específicos estabelecidos para a unidade.

A autora distingue três formas de gestão participativa: compartilhada, integrada e por meio de parcerias.

A gestão compartilhada ou co-gestão, diz respeito a mais de uma entidade gerindo simultaneamente uma unidade de conservação, como é o caso da gestão por meio de organizações da sociedade civil de interesse público (OSCIP) (GUAPYASSÚ, 2003, p. 24).

A participação das OSCIP na gestão de unidades de conservação encontra-se prevista no artigo 30 da Lei do SNUC. O Decreto n.º 4.340/02 prevê que a gestão compartilhada será regulada por termo de parceria firmado com o órgão executor e que a OSCIP deve apresentar dentre seus objetivos institucionais a proteção do meio ambiente ou a promoção do desenvolvimento sustentável, bem como deve comprovar a realização de atividade de proteção do meio ambiente ou desenvolvimento sustentável, preferencialmente na unidade de conservação ou no mesmo bioma.

Morsello (2006, P. 263) destaca algumas vantagens na atuação dessas entidades, como a facilidade para mobilizar recursos, inclusive de fontes privadas; maior mobilidade na estrutura e esquema mais informal de trabalho, bem como facilidade para iniciar e manter trabalhos com populações rurais. Registra, também, algumas desvantagens, como a limitada capacidade administrativa.

A gestão integrada compreende as negociações e os entendimentos que devem ser feitos buscando uniformidade de gerenciamento de uma ou mais unidades de conservação (GUAPYASSÚ, 2003, p. 24). Um exemplo é a gestão dos mosaicos de unidades de conservação.

O mosaico é o conjunto de unidades de conservação de categorias diferentes ou não, próximas, justapostas ou sobrepostas, e outras áreas protegidas públicas ou privadas, que estarão sujeitas à gestão integrada e participativa, de forma a compatibilizar a presença da biodiversidade, a valorização da sociodiversidade e o desenvolvimento sustentável no contexto regional. Também pode vir a integrar o mosaico para fins de sua gestão, os corredores ecológicos, reconhecidos em ato do Ministério do Meio Ambiente.

De acordo com o Decreto n.º 4.340/02, o mosaico de unidades de conservação será reconhecido em ato do Ministério do Meio Ambiente, a pedido dos órgãos gestores das unidades de conservação e deverá dispor de um conselho de mosaico, com caráter consultivo e a função de atuar como instância de gestão integrada das unidades de conservação que o compõe.

Guapyassú (2003, p. 15) alerta que o Conselho de Mosaico não se confunde com o Conselho da unidade. São conselhos diferentes, ou seja, o Conselho de Mosaico não substitui o Conselho criado especificamente para a APA, já que apresenta como principal objetivo a integração, para que se evitem conflitos na gestão das unidades. Assim, as atividades dos dois conselhos devem ser, além de integradas, complementares.

Os consórcios intermunicipais são outro exemplo de gestão integrada, nos casos em que a área da unidade abrange diferentes municípios ou Estados. Estes participam da gestão da unidade, partilhando responsabilidades, buscando consenso nas decisões e os recursos humanos e financeiros para a realização de ações de manejo e de gerenciamento (GUAPYASSÚ, 2003, p. 24).

A gestão por meio de parcerias se aplica a todas as formas de gestão participativa e significa “fazer junto”, em cooperação, com a participação do Estado e de diferentes setores da sociedade civil. Assim, na gestão compartilhada uma determinada instituição pode ser parceira do órgão executor ao gerenciar a unidade ou desenvolver uma ou várias atividades específicas. Da mesma forma, a gestão integrada envolve uma série de parceiros que podem tomar parte do desenvolvimento de atividades relacionadas à gestão da área (GUAPYASSÚ, 2003, p. 25).

Na opinião de Dourojeanni; Pádua (2007, p. 87) a presença de populações e de exploração dos recursos dentro da unidade de uso sustentável eleva dramaticamente a complexidade do manejo e a multiplicação dos conflitos que as autoridades da unidade devem administrar, sendo que a margem de manobra dos que manejam as unidades se vê seriamente limitada pelos direitos de propriedade ou de uso.

Segundo os referidos autores, a participação da população nos temas referentes ao manejo de unidades de conservação deve seguir algumas regras para evitar o risco de que no lugar de ajudar a harmonizar os interesses da sociedade civil com os da unidade, façam o contrário, criando animosidade contra a unidade ou prejudicando a sua integridade e qualidade, quais sejam:

 As decisões resultantes da participação não podem ultrapassar as normas legais que correspondem à categoria da unidade de conservação, nem alterar os objetivos que correspondem a essa categoria;

 Do mesmo modo, essas decisões não podem, pelo voto popular, quebrar pautas baseadas em informação científica e que poderiam ocasionar danos à unidade;  Se existem razões de força maior para alterar os objetivos da categoria de

unidade de conservação, antes de executar essa alteração deve-se pleitear a mudança da categoria;

A participação deve estar fundamentada em informação completa e de boa qualidade e não, como é o caso comum, em informações parciais ou falsas.

Para Dourojeanni (2007) a gestão de APAs requer equipes de profissionais muito maiores, mais competentes e multidisciplinares do que outras categorias de unidades de conservação. E acrescenta que as discussões e negociações necessárias para se chegar a um consenso em unidades de uso sustentável são mais complexas por envolverem os atores residentes na área e na sua zona de influência e considerando que discussões sobre restrição de direito ou qualquer outra ação é mais difícil com proprietários da terra, do que com vizinhos ou usuários eventuais. Ao passo que nas de proteção integral as discussões envolvem os atores do entorno, o que reduz muito a sua complexidade. “Assim, nas unidades de usos sustentável a paciência é a palavra de ordem para os funcionários responsáveis pela gestão”.

Oliva (2000, p. 124) ressalta que um processo de gestão participativa deve contar com a motivação dos agentes envolvidos, bem como com um documento de planejamento para a implantação da unidade, preferencialmente, um plano de manejo, que será objeto de análise no tópico seguinte.

Por fim, é interessante observar que se a criação de unidades de conservação de uso sustentável como a APA é relativamente simples, o mesmo não se pode dizer da sua gestão.