4.1 A ENTRADA NO CAMPO
4.1.9 Formas de organização do trabalho escolar
Os espaços para discussão/análise dos processos de trabalho são exíguos na Escola Mestre Álvaro, restringindo-se aos momentos de planejamento entre docentes de uma mesma série e os horários de recreio. Vale ressaltar que a escola possui margem de autonomia limitada para fazer a gestão do tempo, pois é obrigada a cumprir a legislação (LDB nº 9.394/96) que determina a realização de 800 horas de trabalho em 200 dias do ano letivo. A escola, então, atravessada por essa norma, depende da produção de tensionamentos entre a Secretaria de Educação Municipal, a comunidade escolar (principalmente os pais e responsáveis pelos alunos) e os professores.
É importante destacar que, na ausência de uma política pública de educação que garanta o direito dos trabalhadores de fazerem análises dos processos de trabalho no cotidiano, a negociação de tempo para o encontro de formação e de conversa entre os professores passa a ser, todas vezes que se faz necessário, um processo burocrático e penoso, dependente do aval das instâncias jurídicas da Secretaria Municipal de Educação, do Conselho de Escola, dos pais e responsáveis pelos alunos.
Ao conversar com os docentes sobre as interferências da fragmentação do coletivo de trabalho e da dificuldade do encontro entre todos os docentes devido à escola estabelecer uma rotina de três recreios, a professora Virna diz:
Eu acho que interfere! É bom pra escola ter três recreios porque diminui os acidentes, mas eu acho que desarticula as pessoas, porque a gente tem menos momentos de estar num grupo maior. Porque a gente, quando éramos juntos tinha assembleia e outras conversas, ali era um momento de articulação que a gente não consegue ter mais.Isso fica picado, tem coisas que você precisa conversar e não consegue. Então eu acho que pra equipe pedagógica, para os professores é uma perda muito grande ter três recreios. Mas eu também vejo que pra escola é necessário também, porque desafogou (conversa gravada).
Funcionar por meio de três recreios evita que os alunos muitos pequenos (do 1º ano) compartilhem o mesmo espaço de pátio com os alunos de séries com idades mais avançadas e, proporcionalmente, muito mais fortes fisicamente. De acordo com a professora Virna, essa medida fez diminuir o número de acidentes entre as crianças, contudo custou aos docentes não poderem mais se encontrar, todos juntos, no horário do recreio. Esse momento de conversa é visto como primordial para as análises dos processos de trabalho na escola, pois, no entendimento da Profa. Virna, o espaço de conversa no recreio é único
Era um espaço não oficializado, mas ‘ofícioso’, muitas coisas aconteciam, muita coisa... Até a questão das assembleias também. Às vezes, é o momento que tem um montante [de professores], porque, na hora da saída, está todo mundo meio desesperado, por causa de horário e tudo mais (conversa gravada).
O calendário escolar prescrito pela Secretaria de Educação Municipal estipula que reuniões e encontros de formação devem ocorrer após o horário das aulas. Isso também cria um dilema de difícil resolução, pois a maioria dos docentes trabalha em outras escolas no turno vespertino. Assim, caso participem dessas atividades, não conseguem almoçar e nem cumprir seus compromissos com o outro turno de trabalho. As reuniões que ocorrem com a convocação de todos os professores, geralmente, são rápidas, portanto, restringem-se a informes burocráticos sobre organização de eventos, estrutura física, esclarecimentos sobre documentos oriundos da Secretaria de Educação, prestação de contas de festas etc.
Como se engendra o esvaziamento da conversa e fragmentação dos encontros entre os trabalhadores da escola? O que tal “silenciamento” produz? Como a restrição da conversa se constitui como norma sutil e interfere nos modos de exercício protagonista na atividade docente?
Em muitas ocasiões, é no momento da carona de volta para casa que os docentes discutem as questões do trabalho. Falam do cansaço, daquilo que tem dado certo e daquilo sobre o qual não alcançam êxito. Questionam as políticas de educação que não consideram as realidades escolares, sinalizam para a necessidade de maior proximidade das famílias em relação à escola e vice-versa. Nas caronas também se ri muito, fala-se do desejo de viajar nas férias, de trabalhar em uma escola mais perto de casa e do perigo de dirigir todo dia em BR, dos problemas familiares, do interesse em se organizar para fazer mestrado etc.
Parece urgente pensarmos o que a restrição da conversa produz nas escolas e nas redes educacionais. Do ponto de vista do espaço público, o debate das normas que orientam o curso da atividade de trabalho no cotidiano é um princípio do qual não se pode abrir mão. Organizar o trabalho sem levar tal premissa em consideração pode gerar o perigo de povoarmos a instituição de normas ligadas a hierarquias endurecidas, práticas autoritárias e desconfiança.
A comunicação entre Secretaria de Educação Municipal e a escola tem sido precária, o que expressa modos de funcionamento da Rede de Ensino do município. Esse processo tem ocorrido, principalmente, por meio de Circulares Internas (CI). Documentos que, em muitos casos, não chegam ao conhecimento dos professores por serem enviados para o correio eletrônico institucional da escola e/ou por malote ao qual somente diretores e corpo técnico da escola possuem acesso. Em uma dessas circulares, a Secretaria busca impor, exclusivamente, a partir do aparato legal, como a administração escolar deve proceder em relação à organização e cumprimento da carga horária dos professores na escola. Eis o que veicula a CI. SEDU/DAIE nº 009 do dia 20 de maio de 2011:
Senhor(a) Diretor(a)
Tendo em vista algumas dúvidas apresentadas por algumas Unidades de ensino, referente a carga horária diária a ser cumprida pelos profissionais da educação, esclarecemos que o Caput Art. 34 do Estatuto do Magistério Público, prevê em verbis: ´A jornada de trabalho do profissional da educação será de 25 (vinte e cinco) horas semanais, podendo ser estendida até 40 (quarenta) horas por semana de acordo com a necessidade do Sistema Público Municipal de Ensino´.
Portanto vale ressaltar que as quatro horas diárias de efetivo trabalho previsto no Art. 34 da LDB nº 93/94 de 1996, restringe-se ao aluno, uma vez que o professor deverá cumprir cinco horas diárias.
Na certeza de termos contribuído para o bom funcionamento dessa escola.
Atenciosamente,
Secretária de Educação
Divisão de Administração e Inspeção Escolar.
Segundo alguns atores escolares, essa circular foi emitida em razão das diversas manifestações, principalmente dos docentes, que não conseguiram vislumbrar o cumprimento da carga horária de aulas e participar do Curso de Formação obrigatório nas escolas – este como condição para progredir no Plano de Carreira e aumentar o salário. Caso os docentes cumprissem ao que ordena essa C.I, muitos não conseguiriam tempo suficiente para almoçar, muito menos para chegar às outras escolas onde trabalham em um segundo turno. Ou seja, se a prescrição for seguida da forma como se ordena, o trabalho na escola correria o perigo de emperrar ao impor aos docentes viver sob uma norma heterodeterminada e incoerente com as condições de vida, da atividade docente.
Nessa trama é importante analisar: como a atividade docente interroga essas prescrições? Quais usos estão sendo feitos para garantir a realização do trabalho? Como as “renormatizações” da atividade atuam na produção de outras redes?