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Formas de relação dos indígenas com o poder

pagamento/recebimento do benefício

4.6 Formas de relação dos indígenas com o poder

público, comércio e a

sociedade local

Não foi registrada em uma única Terra In- dígena a participação dos indígenas nas instâncias de Controle Social do Programa. A figura do “patrão” emerge aqui nova- mente, posto que não é pouco comum esse personagem ter fortes vínculos com os poderes políticos e a administração pública municipal. Trata-se de uma figura cuja persistência ao longo do tempo de- riva da insuficiência e inadequação das ações do poder público nas suas ações e políticas que se destinam aos povos indígenas. Sua presença é diretamente proporcional à exclusão dos indígenas e à não consideração de suas especificidades socioculturais e territoriais.

No caso de Dourados, vê-se que a dispo- sição dos órgãos públicos está bastante aquém da necessidade dos indígenas mo- radores da TI. Há um jogo de empurra-em-

purra ou mesmo uma clara posição políti- ca de não “facilitar a vida” dos indígenas (o caso dos tratores e preparação da terra dos roçados familiares indígenas) e dar continuidade aos arranjos estabelecidos (por exemplo, das “parcerias” ou arrenda- mentos de lotes para plantio de soja na re- serva indígena) que representam maiores vantagens para não indígenas.

A pesquisa no Alto Rio Negro confrontou- -se com diversas situações discriminató- rias contra os indígenas de parte de co- merciantes, funcionários de Secretarias e outras instituições municipais, como também agentes públicos estaduais e federais responsáveis por atender os in- dígenas no município de São Gabriel da Cachoeira. Esse mesmo comportamento foi identificado por praticamente todos os demais consultores nos seus respectivos estudos de caso.

TERRA INDÍGENA RELAÇÃO COM O PODER PÚBLICO, COMÉRCIO E A SOCIEDADE LOCAL

Porquinhos

• Apenas um interlocutor respondeu seguramente à questão “quem é o responsável pelo BF na cidade”. Alguns responderam que o próprio patrão era “o responsável pelo PBF na cidade”.

• Indígenas sofrem grande preconceito negativo na cidade e se sentem desconfortáveis frequentando vários espaços, como lojas de maior porte e, principalmente, bancos. • Desconhecem “espaços de discussão entre governo e sociedade para tratar do PBF”. Nin- guém na aldeia participa da fiscalização nas Instâncias de Controle Social (ICS) do BF.

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Takuaraty/ Yvykuarusu

• Os “patrões/comerciantes” possuem comércios dos dois lados da fronteira. Esses comér- cios são de fato depósitos que permanecem fechados e são abertos apenas para receber os fregueses indígenas trazidos das aldeias. Do lado paraguaio, por exemplo, um desses co- mércios só apresenta preços afixados em guarani (moeda paraguaia), enquanto outros dois comércios, situados do lado brasileiro, simplesmente não têm preços afixados. Quando os “patrões” retêm cartões, estes ficam guardados invariavelmente em lugar seguro do lado paraguaio.

• Esses “patrões” são aparentados entre si e todos têm vínculos com o poder político local.

Dourados

• O governo estadual e vários prefeitos da região se pronunciam publicamente contra a de- marcação de terras indígenas, além de não apoiarem políticas de reforma agrária, há mesmo quem desconfie na região que se trata de uma forma de sabotagem a não disponibilização dos tratores no período em que mais são necessários.

• Em Dourados há um vereador indígena e foi criada uma coordenadoria na prefeitura só para a temática indígena. Já existiu um comitê gestor de políticas indigenistas na região, mas que hoje não mais existe, o que tem impactado negativamente na resolução de uma série de questões relacionadas à sustentabilidade, gestão territorial, segurança alimenta e outras na TI Dourados.

• Em relação ao apoio dos órgãos públicos às roças familiares, hoje, há uma divisão de trabalhos entre diversos órgãos, que pertencem a instâncias distintas de governo: a FUNAI fornece o óleo diesel e sementes, mas é a prefeitura a responsável pelos tratores e por disponibilizar tratoristas.

• Por questões fundamentalmente políticas e interesses econômicos, a prefeitura não tem disponibilizado o trator no tempo correto, ou não tem disponibilizado de forma eficiente, para auxiliar na preparação dos roçados indígenas em Dourados - o problema da falta de apoio à roça é geral na região sul de MS.

• A falta de assistência técnica e apoio à produção familiar tem um efeito colateral grave na TI Dourados: uma profusão de contratos de parceria para produção de soja em áreas dentro da Reserva.

• Até o final de 2013 não havia sido constituído um Comitê Intersetorial do Programa. • Existem vários mal-entendidos entre os indígenas e não indígenas com relação às crianças e a forma como se deve cuidar delas. Quando o sistema de assistência social age dentro das aldeias, os equívocos se acentuam.

• Há cerca de 20 estabelecimentos comerciais que vendem gêneros alimentícios ali e que pertencem aos próprios moradores da comunidade; também bares e outros tipos de estabe- lecimentos menores. Há também um grande número de comerciantes no entorno da TI que vendem aos índios e vêm sendo alvo de operações de fiscalização coordenadas pelo MPF. • Vários indígenas manifestaram desconfiança com os comerciantes: estarem manipulando os preços e valores da dívida. Além disso, há o problema da qualidade dos produtos vendi- dos. Operações recentes têm demonstrado problemas como carne e peixe impróprios para consumo que são oferecidos aos indígenas.

Alto Rio Negro

• A desarticulação das instituições competentes redunda e contribui negativamente para uma execução das diversas esferas e protocolos do Programa, nas diversas fases, do cadas- tramento ao recebimento do recurso.

• A pesquisadora presenciou diversas situações discriminatórias contra indígenas envol- vendo comerciantes, coordenadores e funcionários de Secretarias e outras instituições mu- nicipais, como também agentes públicos estaduais e federais.

• As redes locais de patronato (o “patrão”) conferem o tom das relações interétnicas locais. A desigualdade, a exploração, a dependência e o endividamento tornaram-se, assim, circuns- tâncias como que naturalizadas e usuais das interfaces que põem em relação indígenas e não indígenas. Esta relação pode se dar diretamente, a partir de valores a serem recebidos, ou indiretamente, através do fornecimento de mercadorias a altíssimos custos.

• A dificuldade em transporem distâncias é, grosso modo, o vetor central deste tipo de rela- ção estabelecida entre indígenas e não indígenas.

• Ocorrência de deslocamento de famílias dos diferentes grupos da Família Linguística Maku para a sede do município, estimulada pela busca de acesso ou usufruto do beneficio do BF. Em geral ficam expostos à condições que os vulnerabilizam mais do que eles já esta- vam e expõem a riscos epidemiológicos e sociais graves (malária e infecções respiratórias, roubos e assédio moral e violências diversas).

Parabubure

• Os Xavante estão descontentes com a prestação dos serviços de todas as instâncias locais e do poder público relacionadas com o BF: “a Assistência”, a Lotérica, “o Postinho” (Posto de Saúde), a Escola. No caso da Lotérica e da Assistência, se referem a ela como sendo ins- tituições onde as pessoas se relacionam com base no preconceito demonstrado: “eles não gostam do Xavante não”, “eles têm preconceito”, “tá sempre bravo com a gente”, “não dá um sorriso, não!”.

• Foram relatadas várias situações de retenção de cartões e documentos pessoais por co- merciantes locais. Em todas essas situações as detentoras dos cartões possuíam dívidas acima do valor do benefício do PBF. Notas fiscais, com os valores das compras efetuadas, comprovavam os depoimentos colhidos.

• Foi constatado que o mercado local mantém uma forma peculiar de se relacionar com os indígenas: trata-se da cobrança sistemática de um “sobre-preço” na venda para os Xavante; todos os itens da cesta básica de alimentos são acrescidos de um valor adicional.

• De modo geral, observou a consultora, o atendimento às índias, no balcão, é realizado de maneira tensa, por um atendente e um auxiliar e as desconfianças são publicamente anunciadas, em voz alta.

Barra Velha

• Os beneficiários sabem que a única forma de solucionar problemas relativos ao PBF é atra- vés do contato com alguém da Assistência Social da Prefeitura de Porto Seguro. No entanto, como a viagem é cara e demorada, requerendo que a pessoa pernoite na sede do município ou em alguma outra aldeia Pataxó mais próxima da cidade, muitos acabam por não buscar a resolução do problema na cidade, aguardando a vinda da equipe volante da Prefeitura, ao final de cada ano.

• No entanto, são extremamente tensas e conflituosas as relações com os moradores da vila de Caraíva, onde episódios de violência emergem com certa regularidade, vitimizando canoeiros, artesãs e indivíduos adictos ao álcool que perambulam pela vila quando estão alcoolizados.

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Jaraguá

• Desconfiança na aproximação com os gestores federais, estaduais ou municipais, em es- pecial com a área de regularização fundiária, vista como permeável a interesses econômicos e/ou empresariais.

• Ninguém sabe quem é o responsável pelo PBF no município.

• Também não há conhecimento sobre espaços de discussão entre governo e sociedade civil como as Instâncias de Controle Social (ICS). A totalidade das pessoas disse que não sabe do que se trata e não citaram alguém que faça esse papel entre os indígenas.

• Em relação ao acesso aos serviços públicos, não há saneamento básico nas residências e o abastecimento de água é público, mas insuficiente e não chega a totalidade das residên- cias. Uma grande preocupação é a poluição da lagoa que há no território da aldeia. Ela já foi piscosa e hoje é visivelmente insalubre. Há coleta pública de lixo.

4.7 Acesso dos indígenas