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FORMAS IMPORTADAS: AJUSTES E DESAJUSTES LOCAIS

A produção romanesca de Aluísio Azevedo se faz, sobretudo, a partir de uma linguagem híbrida, já mencionada, oscilando entre o código romântico e o código realista. Boa parte da crítica tem apontado esse discurso que serve a dois senhores na obra do escritor como uma deficiência. Nos romances considerados de qualidade literária e ainda hoje reeditados como O mulato, Casa de pensão e O cortiço destaca-se esse caráter misto da linguagem. Enfatiza-se que o código romântico aí desequilibra o discurso realista-naturalista, parecendo que o autor não foi suficientemente competente para limpar o terreno lingüístico e escrever uma linguagem nova. O romantismo é uma parte residual, velha, passadista que solapa a cada momento o discurso novo. Nessa perspectiva, o escritor precisaria apenas controlar o discurso e limpá-lo desse resíduo a fim de escrever segundo os novos códigos. A seguir, a título de exemplificação, temos um excerto crítico que se orienta nesse sentido:

Os dois códigos caminham de forma dissimulada e as soluções romanescas ora traduzem a nova abordagem objetiva do real, ora servem-se de situações tipicamente românticas, ora invertem-nas, forçando o aparecimento de conteúdo ainda cúmplice de um comportamento ideológico anterior. (...) Ao mesmo tempo, pretende instaurar um novo sistema de significações `a custa do menor gasto, ou seja, com material já usado de situações culturais envelhecidas às quais acrescenta uma roupagem ‘moderna’.60

Nessa interpretação parece que o discurso de Aluísio Azevedo é algo abstrato, pois se vale de um código do passado, completamente esgotado, o romântico, e não alcança o código novo, o realista, pois este é apenas uma roupagem. Nesse sentido a linguagem aí não tem referencial, não tem contexto e não retira a sua significação da situação social, econômica e cultural da qual faz parte constitutiva. Acreditamos que a linguagem de Aluísio Azevedo é significativa, concreta e histórica justo por ser um híbrido entre os dois códigos. O romantismo que se instala na linguagem é

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BRAYNER, S. Labirinto do espaço romanesco: tradição e renovação da literatura brasileira, 1880-1820. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Brasília: INL, 1979. p.37. A crítica sustenta que o romance naturalista fica entre a ficelle e a descrição de costumes, esta dada a partir de uma ótica cientificista. Também destaca que o naturalismo é solapado pelo romantismo, sem, contudo, investigar mais profundamente quais as causas sociais e econômicas que sustentam a linguagem romântica. Enfatiza que, na Europa, a linguagem naturalista deu certo, mas no Brasil não, devido às condições históricas diferenciadas. Entretanto, parece-nos que esse discurso da diferença é enformado por uma perspectiva negativista em que a literatura brasileira é considerada menor por não realizar o projeto europeu. Acreditamos que é preciso entender que a importação do modelo naturalista é quase inevitável em um país dependente, mas que ele sofre modificações a partir do novo contexto social, literário e econômico em que

ainda, à época do escritor, um código de comunicação atuante e inserido na realidade local. Não é somente um resíduo que possa ser retirado, pois ele recobre várias práticas sociais. O realismo, por sua vez, também não é somente cosmético, pois diz, cria e fortalece outras práticas sociais. A significação da linguagem advém do contexto em que se insere e a sociedade brasileira oitocentista, na época recriada pela produção de Aluísio Azevedo, constitui-se ela própria enquanto um híbrido entre forças e práticas sociais bastante díspares. Boa parte de nossos historiadores destacam nessa época uma realidade contraditória que de início pode ser verificada em nosso sistema de produção econômica, ou seja, a simultaneidade de escravismo e liberalismo. Essa base econômica e material, em parte contraditória, vai interferir na produção cultural e na linguagem. O sistema escravista brasileiro, mantido tanto por uma elite local, os senhores de escravos e de terras, quanto pelo capital internacional para onde a produção das plantagens se destina, gera simultaneamente um apego ao romantismo mais reacionário e nacionalista em que se exalta a ordem estabelecida, a genealogia da elite, o indianismo, a pátria- natureza, as instituições (família, igreja, estado, escola) e ao realismo de extração burguesa cujos valores liberais, sobretudo econômicos e políticos, são ativados em favor da elite local (livre comércio após a independência, a escravidão justificada pela propriedade privada)61. Assim, a vigência dessa duplicidade discursiva em Aluísio Azevedo se institui pelo contexto econômico, político e social de uma sociedade de valores contraditórios cujo vetor ora é passadista ora é progressista. Literatura e sociedade se entrelaçam a partir de uma linguagem plural da qual não é possível se fugir, pois se está falando de dentro dela e não de fora.

Essa dicotomia entre realismo e romantismo vinculados a momentos históricos diferenciados é destacada na obra de Michel Lövy, As aventuras do

Barão de Münchausen contra Karl Marx: Marxismo e Positivismo na Sociologia do

conhecimento.62 Nesse livro, o escritor, ao definir o positivismo, o historicismo e o

marxismo como correntes filosóficas predominantes no século XIX, diferencia o positivismo do historicismo nos seguintes termos: aquele, sinteticamente, prende-se passa a se orientar. É mais adequado se investigar como e por que o modelo importado se realizou de modo diferente.

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A respeito dessa contradição econômica que influencia diretamente na dimensão cultural, gerando idéias fora e dentro do lugar consultar, por exemplo, SCHWARZ (1977), Ao vencedor as batatas e BOSI (1992), Dialética da colonização.

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LÖWY, M. As aventuras de Karl Marx contra o Barão de Münchhausen: marxismo e positivismo na sociologia do conhecimento. Trad. Juarez Guimarães. São Paulo, Busca Vida, 1987.

a uma visão cientificista dos fatos sociais, naturalizando-os à medida que os explica pelo método das ciências naturais. Há aí uma crença na ordem natural, objetiva e imutável da sociedade, a ser descrita pelo cientista de modo imparcial e neutro. Essa visão vincula-se à burguesia racionalista para quem a razão e a ciência são instrumentais formais de dominação da natureza e do social em prol do progresso técnico. Já o historicismo nacionalista se vincula à aristocracia fundiária, principalmente alemã, saudosista de seus privilégios, e temente do ascenso burguês. O romantismo como fenômeno cultural seria seu correlato (saudosista, reacionário, crítico da razão e da visão dessacralizada do mundo científico). Alfredo Bosi, em História concisa da literatura brasileira, apresenta uma interpretação similar para esse fenômeno, citando Karl Mannheim, para quem o romantismo é um fenômeno ligado à aristocracia: “Segundo a interpretação de Karl Mannheim, o romantismo expressa os sentimentos dos descontentes com as novas estruturas: a nobreza, que já caiu, e a pequena burguesia que ainda não subiu: de onde, as atitudes saudosistas ou reivindicatórias que pontuam todo o movimento.”63

Nas últimas décadas do século XIX no Brasil, quando Aluísio Azevedo passa a produzir, se acirram as contradições sociais que vão desembocar na Abolição da Escravatura e na Proclamação da República, modificando-se o panorama sócio- político. Os vários conflitos e disputas sociais entre idéias e práticas políticas díspares se refletem na linguagem e na produção cultural. Essa época de transição em que se acirram as diferenças e se recompõem as elites no poder afeta a linguagem literária cujo perfil vai refletir e refratar esse contexto atribulado entre o passado e o futuro. Sendo assim, podemos apreender o hibridismo da linguagem de Aluísio Azevedo, entendendo-o como socialmente significativo, pois resultado desse embate de várias orientações sociais, políticas e econômicas vigentes na realidade e na linguagem que diz essa realidade.

Se partirmos do pressuposto que tanto o significado quanto a construção do discurso literário ocorre no meio social dinâmico entre os homens que vivem, trabalham e se relacionam entre si, podemos asseverar que discurso e contexto social se revelam e se constroem mutuamente. Desse modo, podemos problematizar de que maneira os discursos sociais e as formas literárias, advindos majoritariamente das sociedades européias, adaptam-se ou não à realidade local brasileira. A partir dos pressupostos teóricos com os quais estamos dialogando,

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podemos afirmar que o discurso, em geral, apresenta uma dose bastante significativa de eventicidade, não ocorrendo sempre do mesmo modo como uma reprodução ipsis litteris. Assim, as formas literárias, oriundas da sociedade européia, sofrem modificações e alterações quando adentram a sociedade brasileira.

Essa discussão sobre as formas culturais advindas das sociedades européias e a circulação e uso dessas formas em solo nacional está presente na obra de vários estudiosos de nossa cultura. Neste estudo, interessa-nos mais estritamente a discussão sobre os caminhos e descaminhos das formas importadas, elaborada por Antonio Candido, Roberto Schwarz e Alfredo Bosi.

A discussão sobre formas importadas e realidade local perpassa a obra crítica de Antonio Candido. A literatura brasileira na obra do Autor64 é vista como um discurso interessado e empenhado em dizer a realidade local. As formas estéticas importadas da Europa passam por uma “adaptação” no solo brasileiro porque o escritor, além de literato, é também um historiador, um sociólogo, um psicólogo social que toma para si o papel de definir e criar o caráter brasileiro via discurso literário. Entre as formas literárias advindas da Europa e o objeto - o homem social, universal, ocidental – interpõe-se o meio local. Esse mediador funciona como elemento de diferenciação da literatura brasileira. As formas importadas adaptadas a esse caráter documental representam um papel positivo à medida que auxiliam a sociedade brasileira a se civilizar, adotando os padrões escritos cultos advindos da Europa. Desse modo, os nossos romancistas românticos, apesar da linguagem declamatória, exaltativa e idealizadora do real, também orientam-se para um discurso realista, apegado a uma noção discursiva documental:

O desenvolvimento do romance brasileiro, de Macedo a Jorge Amado, mostra quanto a nossa literatura tem sido consciente da sua aplicação social e responsabilidade na construção de uma cultura. Os românticos, em especial, se achavam possuídos, quase todos de um senso de missão, um intuito de exprimir a realidade específica da sociedade brasileira. E o fato de não terem produzido grande literatura (longe disso) mostra como são imprescindíveis a consciência propriamente artística e a simpatia clarividente do leitor- coisas que não encontramos senão excepcionalmente no Brasil oitocentista. A vocação pública, o senso de dever literário não bastam, de vez que o próprio alcance social de uma obra é decidido pela sua densidade artística e a receptividade que desperta em certos meios.

A consciência social dos românticos imprime aos seus romances esse cunho realista, a que nos vimos referindo, e provém da disposição de fixar literariamente a paisagem, os costumes, os tipos humanos. Este acentuado realismo (em nada inferior muitas vezes ao dos nossos naturalistas e modernos, tão marcados de romantismo) estabelece no romance romântico

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CANDIDO, Antonio. Formação da Literatura Brasileira (Movimentos decisivos). 6. ed. Belo Horizonte: Ed. Itatiaia, 1981.

uma contradição interna, um conflito por vezes constrangedor entre a realidade e o sonho.65

Antonio Candido, na década de setenta, modifica a sua percepção positiva do processo civilizatório e ilustrado operado pela adaptação brasileira dos padrões literários cultos, problematizando os desajustes entre forma importada e realidade local. No ensaio “Literatura e subdesenvolvimento”,66 Antonio Candido destaca a incultura do meio brasileiro e a atitude intelectual dualista entre a idéia de atraso e a de progresso, como elementos desestabilizadores desse processo civilizatório. A perspectiva ambígua dos intelectuais em relação ao meio local, ora desejando documentá-lo ufanisticamente ora desejando transformá-lo em um cenário europeu, gerou uma série de impasses à medida que escritores brasileiros anacronicamente, por exemplo, utilizavam-se de formas estéticas totalmente alheias à realidade local.

Antonio Candido, especialmente no ensaio “Dialética da malandragem,”67 percebe como o romancista Manoel Antonio de Almeida em, Memórias de um

sargento de milícias, consegue resolver esse impasse entre forma importada e

realidade local. O romancista afasta-se do discurso romântico enaltecedor da realidade, predominante na época, e recupera outra matriz discursiva, ou seja, o folclore popular universal dos contos de Malazarte e a “ajusta” à realidade local. Desse ajuste resulta uma forma literária que revela por intermédio do destino das personagens (homens pobres livres vivendo em uma ordem escravocrata) o movimento sócio-histórico da sociedade oitocentista brasileira que oscila entre a

ordem e a desordem. Nesse ensaio, Antonio Candido faz crítica sociológico-

estrutural, buscando na forma literária e no princípio estruturante do romance uma equivalência na realidade sócio-econômica. O princípio da ordem e da desordem que rege a vida dos homens pobres livres representado em Memórias de um

sargento de milícias se constitui para Antonio Candido em uma possível saída para a

sociedade brasileira, fora dos padrões burgueses em que prevalece o conformismo à ordem social estabelecida. Nesse ensaio de Antonio Candido, revela-se a função social da crítica que se propõe demonstrar por intermédio da literatura outros caminhos possíveis para a sociedade brasileira. O texto literário não somente revela

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Ibid., p.115

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_____. Literatura e subdesenvolvimento. In:_____. A educação pela noite & outros ensaios. São Paulo: Ática, 1987.

67

_____. Dialética da malandragem. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros. São Paulo, 1970, n. 8.

e ilumina o real como pode modificá-lo. A linguagem literária não somente reflete, mas refrata e intervém no real.

Roberto Schwarz (1977), em seu ensaio clássico “As idéias fora do lugar”,68 problematiza o conflito entre idéias liberais importadas e formas literárias correlatas e realidade local, destacando a impossibilidade destas se adaptarem perfeitamente ao contexto nacional uma vez que, neste, a presença do escravismo é um impeditivo à implantação do liberalismo. O trabalho escravo e as idéias liberais são uma contradição de princípio, gerando um “torcicolo cultural” em que as idéias não dizem a realidade. O impasse e o descompasso são causados por fusos culturais e econômicos diferentes entre o Brasil oitocentista e a Europa industrializada. Boa parte da produção literária brasileira, nessa perspectiva, é uma abstração visto que importa um modelo orgânico a sociedades liberais totalmente oposto a sociedades escravistas. Boa parte da literatura brasileira não condiz com a realidade local, gerando toda sorte de descompassos. Para Roberto Schwarz, o liberalismo no Brasil será uma ideologia de segundo grau, apenas um verniz dos discursos da elite, impugnado a todo instante, ostentando o seu caráter fora do lugar. O Autor destaca

as relações de favor entre os homens pobres “livres”, o mandonismo e o arbítrio da

elite local e o escravismo como elementos a solapar a ideologia liberal.

Tanto Roberto Schwarz quanto Antonio Candido, dos ensaios publicados a partir da década de setenta,69 vinculam-se à perspectiva estético-sociológica e sofrem influência de Georg Lukács70 para quem discurso romanesco e realidade social se articulam.

68

SCHWARZ, Roberto. As idéias fora do lugar. In: _____. Ao vencedor as batatas: forma literária e processo social nos inícios do romance brasileiro. 34.ed. São Paulo: Duas Cidades, 2000.

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Sobre a mudança de perspectiva na obra de Antonio Candido, especialmente a partir da década de setenta, pesquisar em WEBER (1997), na obra A nação e o paraíso: a construção da nacionalidade na historiografia literária brasileira. Aqui, WEBER destaca que a feliz confluência entre forma importada e realidade local na visão de CANDIDO se modifica na década de setenta quando CANDIDO enfatiza os descompassos.

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Acreditamos que o ensaio “Narrar ou descrever? Contribuição para uma discussão sobre o naturalismo e o formalismo,” em que LUKÁCS (1968) distingue o discurso descritivo, apegado à ideologia burguesa, conformista e estática, do discurso narrativo, apegado à épica e à ação, constitui-se como fonte de influência para Roberto Schwarz e Antonio Candido. Lukács pretende desvelar as forças sócio-históricas atuantes a partir dos discursos narrativos. Os romances em que predomina a ação e a luta revelam a formação dos destinos humanos em devenir e ao acompanharmos tal processo, podemos captar as linhas de força sociais que geram os conflitos e os acertos humanos. As narrativas, em que predomina o descritivismo, reproduzem o estado social estático onde o homem é um ser conformado, uma natureza morta. As narrativas de ação abrem possibilidades para mudanças sociais; já as de puro descritivismo levam ao conformismo. Forma literária e movimento social se iluminam reciprocamente

Alfredo Bosi, em A escravidão entre dois liberalismos,71 opõ-se ao posicionamento de SCHWARZ, a partir da idéia de filtragem, destacando que a elite local soube adaptar com competência alguns dos valores liberais importados a fim de se legitimar e fortalecer no poder. O crítico apresenta como as idéias e as práticas liberais (democracia representativa, estado de direito, trabalho formal livre, livre comércio, economia de mercado) são recebidas, filtradas e adaptadas pela elite de senhores de escravos e pelos intelectuais no século XIX. A incompatibilidade entre escravismo e liberalismo é resolvida pela aristocracia fundiária à medida que o escravo é visto como propriedade privada e, portanto, inalienável. Somente parte das idéias liberais são adotadas na prática econômico-política porque o regime escravocrata é seu limite. Desse modo, Alfredo Bosi destaca a competência da elite em filtrar os valores importados a fim de se perpetuar no poder e manter o modo de produção escravista. Essa interpretação demonstra que o contexto sócio-econômico brasileiro é ativo e sabe gerenciar os valores culturais importados de modo a se beneficiar. Assim, a realidade brasileira, mesmo presa ao escravismo, não se furta ao direito de se modernizar, entrelaçando valores do passado e do futuro. Entretanto, Alfredo Bosi, destacando a competência da elite em filtrar os valores importados do liberalismo, enfatiza somente os ajustes locais, não problematizando os descompassos entre o lá e o cá, destacados por SCHWARZ.

Embora os posicionamentos de SCHWARZ e de BOSI sejam antagônicos, estamos neste estudo nos valendo em parte ora da perspectiva de um, ora de outro. Adotando a idéia de filtragem, podemos perceber a produção literária híbrida de Aluísio Azevedo, que oscila entre o saudosismo e o romantismo e a racionalidade e o naturalismo, como um ajuste entre um código do “passado”, ainda atuante, e outro do presente a se implantar. O hibridismo cultural estaria a revelar o hibridismo do real. Essa teoria da filtragem pode explicar em parte por que Aluísio Azevedo cientificiza o romance-folhetim romântico e opera certos ajustes às formas importadas que veremos adiante.

O hibridismo da linguagem entre o romantismo e o naturalismo é formalizado de modo “ajustado”, concretizando, em parte, o projeto ilustrado de Aluísio Azevedo. Esse projeto parece concretizar as idéias no lugar. A linguagem híbrida também também na orientação crítica de Schwarz e Candido, fazendo-os dialogar com o crítico marxista húngaro.

71

_____. A escravidão entre dois liberalismos. In: _____. Dialética da colonização. São Paulo: Companhia da Letras, 1992.

capta o movimento sócio-histórico entre práticas sociais díspares as quais já mencionamos. Entretanto, o hibridismo também gera descompassos, produzindo narrativas fraturadas em virtude do impasse gerado pela simultaneidade de fábula aventuresca e rocambolesca e personagens exaltadas, demoníacas cujos discursos cientificizados entram em conflito com o contexto local chão e simplório em que vivem. Nesse sentido, parece que as idéias estão fora do lugar. Objetivamos, neste estudo, dialogar com essas vertentes críticas que entendem a literatura brasileira como um discurso de matrizes importadas, mas vinculado a e constituído por um contexto local ativo que ora modifica, ora deturpa e ora reforça tais matrizes, gerando ajustes e desajustes.