CAPÍTULO IV A TEORIA DA INTEGRAÇÃO
4.2 FORMAS OU MODELOS DE PROCESSOS INTEGRAÇÃO (GRAUS DE
Como sugerimos no capítulo anterior, foi Bela Balassa no seu festejado livro Teoria da Integração Econômica, quem primeiro descreveu doutrinariamente as formas que podem ser adotadas em processos de integração, que à época, apesar de já termos reconhecido a centralidade da questão econômica, eram vistos apenas sob esse enfoque.
Não é demais comentar, como analisamos em capítulo próprio, que cada forma de integração corresponderá às crescentes limitações de soberania nacional dos países
membros.96
Na obra ainda hoje comentada e citada por todos os que investigam o tema da integração econômica, alvitra o insigne que podem os tais processos adotar as seguintes formas: zonas de livre comércio, união aduaneira, mercado comum, união econômica e
integração econômica total.97 Aproveitou ainda o renomado autor para definir cada forma ou
modelo de integração.
Numa zona de livre comércio os direitos ( e as restrições quantitativas ) entre os participantes são abolidos, mas cada país mantém as suas pautas próprias em relação aos países não membros. O estabelecimento de uma união aduaneira implica, além da supressão das discriminações no que se refere aos movimentos de mercadorias no interior da união, a igualização dos direitos em relação ao comércio com países não membros. Num mercado comum atinge-se uma forma mais elevada de integração econômica, em que são abolidas não só as restrições comerciais mas também as restrições aos movimentos de fatores produtivos. Uma união econômica distingue-se de um mercado comum por associar a supressão de restrições aos movimentos de mercadorias e fatores com certo grau de harmonização de políticas, de forma a abolir as discriminações resultantes das disparidades existentes entre essas políticas. Finalmente, a integração econômica total pressupõe a unificação das políticas monetárias, fiscais, sociais e anticíclicas e exige o estabelecimento de uma autoridade supranacional cujas as decisões são obrigatórias para todos os Estados membros. 98
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CRIS, Dayane e FRAHM, Carina. Política Econômica e a Constituição Européia: Reflexões acerca da
união econômica e monetária e do papel da União política no atual contexto econômico in GOMES, Eduardo Biachi e REIS, Tarcísio Hardman. Direito Constitucional Europeu - Rumos da Constituição. Curitiba: Editora Juruá. 2005, p. 243 a 262, p. 244..
97 BALLASSA, Bela. Teoria da Integração Econômica. Lisboa: Livraria Clássica Editora, 1982, p. 13. 98 BALLASSA, Bela. Teoria da Integração Econômica. Lisboa: Livraria Clássica Editora, 1982, p. 13.
De Bela Balassa para os dias atuais, pouco foi acrescentado às cinco formas de processos de integração regional, uma vez que atualmente chegou-se à concepção de que podem os referidos processos ter a etapa da união monetária e atingir o grau máximo, a união política, através de mecanismo constitucional, como nos dias de hoje ocorre na União Européia com o Tratado de Lisboa. Vejamos a lição de autores nacionais sobre a definição de cada uma das formas de processos de integração.
1- Zona de Livre-Comércio é a primeira fase de integração econômica entre Estados, implica a redução ou eliminação dos direitos aduaneiros entre os Estados-Membros, mas cada Estado-Membro determinará o tratamento comercial que deseja atribuir aos produtos oriundos dos países terceiros:
2- União Aduaneira envolve os requisitos do livre-comércio somados à adoção de tratamento comercial igual apara os produtos provenientes dos países terceiros; noutros termos, os Estados-Membros estabelecem uma tarifa externa comum a ser aplicada.
3-Mercado Comum. Trata-se de terceira fase de integração na qual instituem-se quatro liberdades: (i) livre circulação de pessoas; (ii) livre circulação de capitais; (iii)livre circulação de mercadorias, (iv) livre circulação de serviços;
4-União Econômica constitui-se num mercado comum com controle multilateral e de coordenação entre as políticas econômicas dos países membros ( políticas nacionais harmonizadas );
5-União Monetária. Paralelamente às peculiaridades da União Econômica, há a realização de políticas econômicas coordenadas harmonicamente, ou seja, compatibilidade entre as taxas de juros, as taxas de câmbio, as taxas de inflação e os índices estabelecidos para os déficits públicos. Para tanto, exige-se a criação de um sistema de bancos centrais independentes e de um banco central da União. Um exemplo de processo de criação de uma união monetária é o Tratado de Maastricht. 6-União Política pressupõe também a existência de uma Constituição da União, capaz de consolidar a identidade bem como as políticas externas comuns e estabelecer um sistema de poder e de direitos para os membros, conforme o sistema federal-democrático.99
Ocorreu, no entanto, que Bela Balassa situou a exigência de autoridade supranacional apenas na sua etapa final, a integração econômica total, assunto que necessita de análise no bojo deste trabalho, em virtude da nossa busca por responder em que etapa é necessário ao processo de integração o mecanismo de controle financeiro-orçamentário, que imperiosamente deve ser exercido por instituições ou funções supranacionais.
Na obra nacional “A União Européia e os Estudos de Integração Regional”, surge um outro posicionamento sobre a exigência de instituições supranacionais em processos de integração, antecedendo a sua necessidade.
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CRIS, Dayane e FRAHM, Carina, Política Econômica e a Constituição Européia: Reflexões acerca da
união econômica e monetária e do papel da União política no atual contexto econômico in GOMES, Eduardo Biachi e REIS, Tarcísio Hardman. Direito Constitucional Europeu - Rumos da Constituição. Curitiba: Editora Juruá. 2005, p. 243 a 262, p. 245.
O próximo passo de aprofundamento na integração regional é a formação do Mercado Comum, que acrescenta à União Aduaneira a livre mobilidade de mão de obra e de capital entre os países participantes. Assim, um Mercado Comum conta com a livre circulação de bens, de serviços, de pessoas e de fluxos de investimentos entre os países membros, com a adoção de uma tarifa externa comum, e com a negociação em conjunto no plano nacional.
Neste nível de integração, os Estados cedem um grau de autonomia relativamente elevado. Além de coordenarem as políticas comerciais, cambiais, monetárias e fiscais, faz-se necessário a homogeneização de legislações correlatas-legislação trabalhista, previdenciária, regulação do capital, de concorrência, etc. -, e a existência de instituições supranacionais se torna imprescindível para fazer a gestão da coordenação dessas políticas internas e externas.100
Como já expusemos, o primeiro passo do processo de integração européia foi a criação da Comunidade Européia do Carvão e do Aço(CECA) já com a designação de uma Alta Autoridade Supranacional. Por isso os autores da citação exposta, afirmam que já nesse primeiro acordo havia o intuito de formação de um Mercado Comum no processo de integração européia, à época, recém criado.
O arranjo de integração regional da CECA poderia, à primeira vista, ser associado com uma área de preferência comercial, pois permitia a livre circulação de carvão, minério de ferro, sucata e aço entre a França, Alemanha, Itália e Benelux, via concessão de benefícios aduaneiros e proibição de práticas discriminatórias e restritivas. Mas, embora a proposta da CECA fosse inicialmente simples e tecnocrata (proposta funcionalista), o acordo registrado no Tratado da CECA foi além do processo de integração, objetivando a formação de um Mercado Comum e abrangendo a negociação de uma centena de produtos101.
Com isso, podemos ter como fato certo a necessidade de instituições supranacionais em processo de integração que iniciem ou atinjam a fase de Mercado Comum, pois não há necessidade de início dos processos por meio das fases da zona de livre comércio e da união aduaneria, bastando que o conteúdo delas seja incorporado aos tratados constitutivos do processo de integração.
A União Européia é o exemplo vivo de antecipação de fases, que foram ao longo do processo de integração sendo ajustadas e aprimoradas dada a natureza dos interesses das partes daquele processo. Foi logo no início que perceberam a importância das questões referentes às finanças públicas das instituições supranacionais que criavam, pois,
cinquenta anos se passaram desde a entrada em vigor do Tratado da CECA, em 1952, até sua caducidade em 2002. Ao longo desses cinqüenta anos, o Tratado foi alterado doze vezes. O Tratado da CECA foi alterado em 1965, pelo Tratado de Bruxelas, designado por Tratado de Fusão. Este Tratado estabelece a fusão
100 RAMOS, Leonardo. MARQUES, Silvia Ferreira. JESUS, Diego Santos Vieira de. A União Européia e os
estudos de integração regional- Belo Horizonte: Del Rey, 2009, p. 11.
administrativa, substituindo os três Conselhos de Ministros (CEE, CECA e EURATOM), por um Conselho único, e as duas Comissões (CEE, EURATOM) e a Alta Autoridade (CECA), por uma Comissão única, neste Tratado também foi criado o Orçamento único. Em 1970, por um Tratado que altera algumas disposições orçamentais, instituindo o sistema de financiamento por recursos próprios, em substituição ao sistema de financiamento das comunidades pelas contribuições dos Estados-membros.102
As alterações aos Tratados que criaram as primeiras instituições supranacionais não pararam por aí, pois a supranacionalidade foi assaz aprofundada com a instituição do orçamento único, ao ponto da criação de mais uma instituição supranacional, justamente para o controle das finanças públicas do processo de integração, o Tribunal de Contas único para as três comunidades. Os mesmos autores abordando as alterações nos Tratados que criaram as três primeiras Comunidades, disseram ainda:
Em 1975, pelo Tratado que altera algumas disposições financeiras, instituindo o Tribunal de Contas único entre CECA, CEE e EURATOM e conferindo ao Parlamento Europeu o direito de rejeitar o orçamento e de aprovar sua execução pela Comissão.103
Se, então, a criação de instituições supranacionais é uma necessidade obrigatória aos processos de integração regional que iniciem ou que atinjam a fase do Mercado Comum, o exemplo europeu evidencia que o controle das finanças públicas repassadas às instituições comunitárias é elemento de importância ao sucesso do processo de integração.
Como bem anotaremos em capítulo próprio, o controle das finanças públicas na União Européia foi aprofundado e articulado, como mecanismo comunitário de enlace e de busca de atingimento das finalidades perseguidas.
Antes, porém compete ainda analisarmos o impacto do princípio democrático na construção do processo de integração europeu, como forma de superação dos recursos à soberania fulcrada apenas em interesses nacionais e à própria evolução do processo de integração.
102 RAMOS, Leonardo. MARQUES, Silvia Ferreira. JESUS, Diego Santos Vieira de. A União Européia e os
estudos de integração regional- Belo Horizonte: Del Rey, 2009, p. 16.