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PARTE II UMA LITERATURA IN VERSÕES REPRESENTAÇÕES DE INFÂNCIA EM CHAPEUZINHO VERMELHO: QUEM ERAM/SÃO OS

FOLHA DE ROSTO

5.1.2. Formato, dimensões e estrutura interna do livro

O interesse em apresentar livros fáceis de manusear, destinados a crianças, inclui formato, dimensão e peso. Da mesma forma, é importante que o material gráfico seja de boa qualidade, resistindo ao manuseio infantil e garantindo a legibilidade da obra.

Além do aspecto externo do livro, chama a atenção o tipo de letra, tamanho da fonte e espaçamento entre linhas, que, segundo Massini e Cagliari (1999), influencia na leitura, em especial, do leitor pouco experiente. Assim, considera-se, por exemplo, que as letras de fôrma maiúsculas apresentam-se mais claras, distintas e de fácil reconhecimento, ao passo que a letra cursiva, dificulta o processo de decodificação, sendo apropriada para o uso de quem já sabe ler e escrever com maior propriedade. O mesmo pode ser dito com relação ao

Figura 103 - Folhas de rosto de Chapeuzinho Amarelo.

Figura 104 - Folha de rosto de A verdadeira história de Chapeuzinho Vermelho.

espaçamento, visto que, quanto mais próximas estiverem as linhas umas das outras, mais comprometida será a leitura em fase inicial.

Les Contes de Perrault (1880), por exemplo, apresenta fonte e tamanho de corpo que se mostram apropriados para a criança, inclusive aquela em fase inicial de aquisição dos códigos de leitura. Todos os títulos são dispostos em caixa-alta, e tamanho que varia de 16 a 24 pts, aproximadamente. O corpo do texto possui espaçamento 1,5 e letras em estilo Times New Roman com corpo tipográfico 14 pts, editoração que permite uma leitura confortável ao leitor infantil. A capa e a encadernação são resistentes à utilização e o papel fosco assegura boa legibilidade.

Entretanto, as dimensões e formato da obra dificultam bastante o manuseio infantil. A obra possui 132 páginas e mede 39,5 x 28 cm, com espessura de 4 cm de lombada. Abaixo, na figura 105, podemos conferir duas reproduções comparativas da obra de Charles Perrault com outra produzida no mesmo período, Les Fées: Historietts Naïves et Enfantines, de Claude Perrault. Para se ter uma base de comparação, um livro didático atual possui medidas-padrão de aproximadamente 27 x 20,5 cm e lombada inferior a 1 cm.

Observando as imagens de Les Contes de Perrault (1880), verificamos que seu projeto gráfico-editorial dificulta o uso efetivo da obra pelo pequeno leitor, uma vez que o livro possui formato, dimensões e peso, os quais comprometem o manuseio infantil, levando- nos a crer que não tenha sido projetado para uma criança leitora, mas sim, ouvinte. Dessa forma, embora os contos da coletânea tenham sido adaptados para o público infantil, percebemos, pela materialidade da obra, a necessidade de uma mediação pelo adulto. Isso nos remete à própria figura da lendária Mamãe Gansa, que reunia crianças em seu entorno para

contar-lhes histórias moralizantes e didáticas, com o propósito de ensinar distraindo, ou seja, seguia os preceitos originais de uma literatura “útil” e, ao mesmo tempo, agradável.

Décadas mais tarde, em 1894, incentivado por programas de nacionalização do acervo literário europeu para crianças, Figueiredo Pimentel publica os Contos da Carochinha. Sobre o aspecto gráfico e editorial da obra muitas diferenças podem ser notadas, em relação a algumas obras importadas para o Brasil, como a de Perrault. As dimensões da obra modificaram-se consideravelmente, o que permitia o manuseio autônomo do livro pela criança, especialmente se consideramos que a obra de Pimentel foi largamente utilizada em âmbito escolar.

Apesar de suas 334 páginas e dos 3 cm de lombada, o livro possui dimensões de 18 x 13 cm, medidas que facilitam o manuseio infantil. A ressalva, no entanto, recai sobre as condições de leitura oferecidas pela editoração interna da obra, como apontado anteriormente por Massini e Cagliari (1999). Em espaçamento simples, letra Times New Roman corpo tipográfico 11 pts e margens muito pequenas, a leitura feita por uma criança pouco experiente pode ser comprometida, já que a informação verbal é intensa, página após página. Somado a esse fator, a obra possui poucas imagens que poderiam funcionar, para além de sua função estética, como um descanso visual para o leitor. O aspecto positivo do miolo está na escolha do papel fosco, que propicia uma leitura sem reflexos, e nos títulos dos sessenta e um contos que integram a coletânea, escritos em caixa-alta e corpo tipográfico 14 pts. A figura 106 ajuda na percepção de formato e dimensões da obra:

Os Contos da Carochinha tiveram repercussão nacional, não apenas em âmbito escolar, mas também no doméstico. O prefácio da obra informa, à página 9, que “o público, os educadores, as mães de família, têm escolhido de preferência os Contos da Carochinha, reconhecendo que as crianças só podem encontrar nêles uma boa leitura, útil e agradável ao mesmo tempo”. Ainda na mesma página, comenta-se que a obra de Pimentel é lida como a Bíblia, tanto no lar como em escolas públicas e particulares e acrescenta que “não há (...) uma só criança que não a tenha lido, ou a não queira reler e possuir. Perto de cem mil volumes correm de mão em mão, em todos os Estados, em tôdas as cidades e vilas do Brasil”.

Mediante essas informações, é plausível pensar em uma infância visada que vai além daquela de classe média, branca e em processo escolar, considerando ainda uma representação de criança dentro de um projeto civilizatório que encontra na literatura uma forma de transmissão de “sentimentos do Bem, da Religião e da Caridade, principais elementos da educação da infância”. (Prefácio à 25ª edição, p. 7-8).

No século XX, entretanto, encontramos uma nova proposta de literatura dirigida às crianças nas obras de Lobato. A Editora Brasiliense, em 1973, investiu em uma coleção44, cujo projeto gráfico-editorial faz lembrar livros didáticos tradicionais, com medidas de 27,5 x 21 cm e número de páginas que variam em torno de 160. O texto verbal, divido em duas colunas por página, apresenta fonte Times New Roman e corpo tipográfico 12 pts. Além dos aspectos verbais da obra, é importante mencionar que há pouco investimento em ilustrações, acrescentando o fato de a maior parte das edições apresentar esboços em preto e branco.

Essa estrutura gráfica e editorial adotada pela Brasiliense, associada à carência de obras disponíveis para venda no mercado, resultou em uma série de prejuízos à editora, sendo o mais grave a perda de direitos editoriais sobre as obras de Lobato. Em nota na Folha de São Paulo de 22 de outubro de 2005, a jornalista Laura Matos informou sobre a decisão judicial de quebra de direitos da Editora Brasiliense. Segundo o periódico, um dos motivos da decisão foi o “descaso” da editora com o projeto gráfico-editorial das obras. Nas palavras de Matos:

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Integram a coleção de obras infanto-juvenis de Lobato da Editora Brasiliense: O Picapau Amarelo, História do Mundo para Crianças, Serões de Dona Benta, Caçadas de Pedrinho, O Minotauro, O Poço do Visconde, Fábulas, Dom Quixote das Crianças, Histórias Diversas, O Saci, Geografia de Dona Benta, Histórias de Tia Nastácia, Emília no País da Gramática, Os Doze Trabalhos de Hércules – 1 a 6, Os Doze Trabalhos de Hércules – 7 a 12, Viagem ao Céu, Reinações de Narizinho, Memórias da Emília, História das Invenções, Aventuras de Hans Staden, A Chave do Tamanho, Aritmética da Emília.

Procure uma obra infantil de Monteiro Lobato (1882-1948) nas livrarias e encontrará um livro com ilustrações em preto e branco, bem menos atraente do que a grande e colorida oferta nas prateleiras das crianças. Tente um título adulto do autor de "Urupês". Difícil achar, melhor ir aos sebos. Por trás dessa lamentável constatação está uma complexa briga entre os herdeiros do escritor e a Brasiliense, editora de todos os livros de Lobato desde 1945. (...).

(...) O Diário Oficial da União publicou decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ) que rescinde o contrato com a Brasiliense e concede o direito de edição das obras à família. Segundo o representante dos herdeiros, Jorge Kornbluh, (...), a vitória deverá encerrar "uma década de descaso com a obra" e significará uma "revitalização" de sua produção. Ele diz que os livros do autor vêm sendo "negligenciados" pela Brasiliense, que não tem cuidado na edição. (...).

Três anos antes de morrer, Lobato assinou contrato com o dono da Brasiliense, seu amigo Caio Prado Jr. (1907-1990). Validade: "ad infinitum", ou seja, até a obra passar a domínio público, o que ocorrerá em 2018, 70 anos após sua morte. (...). Em 1998, a família tentou impedir o relançamento de "Reinações de Narizinho" e deu início a uma série de processos, nos quais acusa a Brasiliense de quebrar cláusulas do contrato (como a de manter 200 exemplares de cada título em estoque) (...). (MATTOS, Folha de S. Paulo - Folha Ilustrada. São Paulo, sábado, 22 de outubro de 2005).

Não é simples compreender todo o processo que retirou da Brasiliense o direito autoral sobre as obras de Lobato e, por mais interesses que estivessem envolvidos, é nítido o enfoque na questão de cuidados gráficos que adequassem as edições ao gosto infantil, ou melhor, de providências visando a atualizar graficamente as coleções da obra de Lobato. A grande questão seria justamente definir o gosto infantil. As ilustrações sem cores ou coloridas são chamadas à cabeceira da discussão, considerando-se as coloridas como mais atraentes para o pequeno leitor. O caso foi reforçado pelas palavras do diretor da Monteiro Lobato Licenciamentos, J. M. Kornbluh, que afirmou:

É oportuno salientar que em 1996 a família tomou a iniciativa de sugerir à editora a reformulação dos livros e da coleção infantil, a fim de que apresentassem um aspecto mais moderno, inclusive com ilustrações coloridas, nova paginação, etc. Essas tentativas continuaram em 1997 e fracassaram, simplesmente, porque a Brasiliense não quis efetuar o investimento necessário, continuando a publicar os livros com ilustrações em branco e preto como fazia há décadas e continuou a fazer. (KORNBLUH, 2001, s/ p.).

Toda a discussão entre editora e herdeiros parece perder de vista o fator mais importante relacionado às obras de Lobato: o leitor infantil. Por trás dos contratempos que envolveram as propostas de adequação e modernização das edições, há um fundo mercadológico que parece prevalecer à intenção de se fazer acessível a arte literária de Lobato. Em preto e branco, coloridas, em formatos tradicionais ou inovadores, o importante é que Narizinho, Pedrinho, Emília, Dona Benta e tantos outros personagens do Sítio do Picapau Amarelo continuem batendo à porta de novos leitores, convidando-os a compartilhar aventuras, fantasias e muita imaginação.

A Editora Círculo do Livro, por sua vez, em 1989, reuniu em 15 volumes, 24 títulos de Lobato45. A coleção foi editorada em formato enciclopédico, apresentando dimensões de 21,5 x 14,5 cm, fonte em estilo Times New Roman, corpo tipográfico 12 pts. O destaque dessa coleção está nas lombadas dos livros, que, reunidas, formam o nome do autor, como pode ser observado na figura 107:

45 Integram a coleção de obras infanto-juvenis de Lobato da Editora Círculo do Livro: Volume 1: Reinações de Narizinho; Volume 2: Viagem ao Céu / O Saci; Volume 3: Caçadas De Pedrinho / Hans Staden; Volume 4: História do Mundo para as Crianças; Volume 5: Memórias da Emília e Peter Pan; Volume 6: Emília no País da Gramática / Aritmética da Emília; Volume 7: Geografia de Dona Benta; Volume 8: Serões de Dona Benta Volume 9: História das Invenções / Dom Quixote para as Crianças; Volume 10: O Poço do Visconde; Volume 11: Histórias de Tia Nastácia / O Picapau Amarelo; Volume 12: A Reforma da Natureza / O Minotauro; Volume 13: A Chave do Tamanho / Fábulas; Volume 14: Os Doze Trabalhos de Hércules I; Volume 15: Os Doze Trabalhos de Hércules II / Histórias Diversas.

Figura 107 - Coleção de obras de Lobato da Editora Círculo do Livro - Detalhes da lombada.

O próximo roteiro de análise segue rumo ao final da década de 1970, período em que Chico Buarque publica Chapeuzinho Amarelo. Mantendo a análise das duas edições da obra, é possível verificar semelhanças entre os projetos gráfico-editoriais das editoras Berlendis e Vertecchia e José Olympio, a começar pelas dimensões. Ambas possuem formato quadrado de 21 x 21 cm, textos verbais em corpo tipográfico 14 pts, fonte adequada à leitura46 e disposição de poucas palavras – em estilo estrofe – por página intercaladas com abundantes ilustrações. A diferença marcante está no estilo de ilustração de cada editora, optando Donatella Berlendis, da Berlendis e Vertecchia, pela utilização de desenhos tracejados em preto e branco com alguns preenchimentos em amarelo, vermelho e verde, e Ziraldo, da José Olympio, pela utilização de uma escala sortida de cores. Além do aspecto da ilustração, o que distingue as edições são as escolhas de encadernação, optando a Berlendis e Vertecchia pela capa dura e a José Olympio pela capa mole estilo brochura. Até mesmo as estrofes de cada página possuem, nas duas edições, correspondência de localização no enquadramento gráfico.

Tanto a Berlendis e Vertecchia, quanto a José Olympio, tiveram o cuidado e a atenção voltados ao leitor infantil na escolha gráfica e editorial das obras. O formato, dimensões e estruturação interna permitem que a criança se movimente de forma autônoma pelo livro. De certa forma, este parece ser o desejo do próprio autor que, ao trabalhar uma temática de superação do medo, evoca autonomia e autoconfiança infantis. A figura 108 apresenta imagens comparativas entre as publicações das editoras Berlendis e Vertecchia e da José Olympio, respectivamente.

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A edição de Chapeuzinho Amarelo da Berlendis e Vertecchia usa fonte Arial e da José Olympio Times New Roman.

Figura 108 - Dimensões e formatos de Chapeuzinho Amarelo publicadas pelas Editoras Berlendis e Vertecchia (à esquerda) e José Olympio (à direita).

Seguindo uma tendência de inovação gráfico-editorial, encontraremos em A Verdadeira História de Chapeuzinho Vermelho, publicada em 2008 pela editora Brinque- Book, personagens que saltam da página e utilização de elementos gráficos pouco convencionais, como tecidos e texturas em relevo, fazendo com que a obra atraia a atenção do leitor que espera ser surpreendido a cada nova página virada.

A obra possui formato quadrado com dimensões de 21,5 x 21,5 cm e encadernação cartonada. O papel espesso utilizado nas páginas, assim como a folha de rosto conjugada com o início do período narrativo, pressupõem um leitor principiante que, ao abrir o livro, já entra em contato com a história, sem preâmbulos iniciais. As ilustrações são aspectos de grande relevância na publicação, sendo responsáveis por uma interação direta e concreta entre leitor e livro.

O texto verbal possui corpos tipográficos que variam de 14 a 24 pts e transitam entre os estilos caixa-alta e normal. A disposição na página também é variável, encontrando- se em posição linear, transversal e curvilínea; mostrando-se dentro de quadros, balões, letreiros, livros, jornais, cartas, etc. Do ponto de vista gráfico-editorial, a obra possibilita uma leitura intertextual amparada por um suporte criativo e dinâmico. Na figura 109 podemos observar detalhes do formato e dimensões da obra, com destaque para a lombada e laterais.

Auxiliados pelos elementos gráficos e editoriais analisados, percebemos que os discursos que impregnam a materialidade das obras são, igualmente, responsáveis pela percepção e reflexão da infância que tem sido representada nas obras de literatura infantil circulantes no Brasil, em períodos e contextos sociais diversificados. Desta forma, aliado às considerações e argumentos aqui levantados, o próximo capítulo dará sequência à discussão e à investigação das possíveis representações de infância presentes no discurso literário.

Figura 109 - Dimensões e formato de A Verdadeira História de Chapeuzinho Vermelho publicada pela Editora Brinque-Book

Capítulo 6 - Análise das narrativas: quem são/eram os leitores/ouvintes das