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FORMATO 2 Doctrina vim promovet insitam,

Rectique cultus pectora roberant. (GRJ, 1808b).

Um dos primeiros aspectos que chamou a atenção foi o contraste de línguas instaurado na fronteira entre o contexto epigráfico (discurso citado) e o jornalís- tico propriamente dito (discurso citante). Nesse caso, a oposição de línguas não apenas atualiza uma relação com outrem, como também flagra a convergência se- mântica de dois tempos diferentes. Ao citar versos latinos, o projeto editorial da Coroa orienta-se pela memória de outra época, de outro contexto político, artísti- co, histórico... Do ponto de vista estético, é importante reconhecer que os versos foram tomados da lírica, gênero literário orientado pelo individual, ainda que não para um eu solitário. E qual o juízo desse eu?

O fragmento citado no formato 1 inclui uma adversativa, o que significa di- zer que a epígrafe guarda uma oposição de ideias em sua memória. A ode enaltece Nero Claudio Druso por sua vitória sobre os vindelícios e destaca seu sucesso mili- tar bélico. Sua glória não pode ser louvada a partir de sua linhagem familiar, já que é enteado de Augusto – a propósito, responsável pelo estabelecimento do Império Romano em detrimento da República – e não seu filho biológico. O co-texto ime- diatamente anterior ao excerto tomado como epígrafe e o co-texto subsequente ao fragmento epígrafe confirmam o juízo:

Quadro 2: O co-texto dos versos

ORIGINAL

Fortes creantur fortibus et bonis; Est in juvencis, est in equis patrum Virtus, neque imbellem feroces Progenerant aquilae columbam:

TRADUÇÃO Os bravos nascem dos bravos e dos valorosos; Há nos touros, há nos cavalos o fervor do pai E as águias guerreiras Não geram pombas fracas: Doctrina sed vim promovet insitam

Rectique cultus pectora roborant; Utcumque defecere mores, Indecorant bene nata culpae. (HORACE, ode iv, lib. iv)

Mas a educação desenvolve a força inata E uma cultura sábia fortifica a alma; Quando falta a boa educação, Os vícios desonram aquele nascido afortunadamente.

Na condição de epígrafe, os versos funcionam como metonímia da postura ética editorial da Coroa,que supõe uma assimetria relacional entre o europeu e o não europeu. Que ensinamento a Coroa pretende proporcionar? Que valores são sustentados pela postura discursiva assumida pela Coroa e quais suas implicações para as possibilidades identitárias brasileiras? A organização do formato 2 confi-

gura um gesto discursivo que altera, em parte, a memória convocada. Apaga-se a ideia de oposição, mas mantém-se garantido o louvor à educação, ao processo de doutrinação, que supõem uma trama relacional assimétrica. Se, por um lado, a re- tirada da adversativa mitiga o possível caráter absolutista do fragmento epigráfico, por outro, os valores por ele convocados são assegurados. (MAGALHÃES, 2011)

A outra epígrafe encontrada nesse jornal corrobora o posicionamento enun- ciativo-discursivo da Coroa: “novus ab integro saeclorum nascitur ordo”. Não há nenhuma referência ao contexto de origem, mas identifiquei a convergência for- mal e semântica com um verso de uma écloga de Virgílio: “magnus ab integro sae- clorum nascitur ordo”. (VIRGÍLIO, 1982) Também esta epígrafe recupera o discurso lírico, já que não é o Virgílio da Eneida, narrativa épica, que é citado. Ao convocar a lírica virgiliana, a GRJ confirma e reforça o referencial singular, individual que sus- tenta. Todavia, a troca de magnus por novus aponta para outro contexto por onde tal verso circulara. Desde 1782, “novus ordo saeclorum” consta no verso do Grande Selo dos Estados Unidos, marca oficial de uma importante República do Continen- te Americano. A epígrafe convoca os dois contextos: o literário e o político; nela habitam os dois discursos. O projeto editorial toma ambas as esferas para a me- tonimização de sua postura ética, consolidando-se como um juízo que guarda a bivocalidade do juízo de outrem.

Seguindo, novamente, as perguntas de orientação metodológica, retomei:

7. Que discurso domina no contexto de produção do GRJ? Há predomínio de um discurso de exclusão, no sentido de que o europeu se distingue do outro, mesmo no espaço Brasil. Não há representação de uma cole- tividade brasileira, mas de uma assimetria relacional/cultural, na qual o europeu é habilitado a “ensinar” sua doutrina, educação, seu modo de socializar no âmbito dessa extensão da Coroa.

8. Qual(is) a(s) forma(s) de refração dessa palavra? A transposição de ver- sos da esfera literária para a editorial, na condição de epígrafe, configura um ato que reacentua juízos e estabelece convergência semântica entre dois contextos. Não há louvor ao indivíduo herói no jornal, há avaliação da concessão empreendida na ode por meio da oposição entre o heredi- tário e o cultural. A refração fica evidente na alteração feita no formato 2 da primeira epígrafe, ao retirar a conjunção adversativa. Outra forma de refratar é convocar como epígrafe um fragmento de texto que guarda

marcas de, pelo menos, duas esferas que compõem, juntas, a memória daquele objeto cultural. Por fim, a mudança da epígrafe 1 para a epígra- fe 2 atualiza dois atos de um único projeto editorial, ou seja, ao trocar a epígrafe, a editoria consolida seu juízo por meio da relação entre juízos. 9. O que serve de meio de refração? A palavra lírica e os valores que a susten-

tam como tal, ao dizer, simultaneamente, o mesmo e o diferente.

Até aqui, vi as formas de discurso em cada projeto editorial separadamente. Notei que, no plano editorial, a relação entre juízos tendia para uma organização de discurso representado. O que isso quer dizer? Se é possível flagrar bivocalida- de no fragmento da epopeia que captura simultaneamente valores tradicionais e valores modernos, na condição de epígrafe, o fragmento tende a servir ao propó- sito editorial e, por isso, figura como discurso representado no âmbito do jornal. A tensão de valores presente no discurso épico citado é convocada para o contexto do jornal para deflagrar uma discussão que vai na contramão do discurso áulico. Assim, nos limites do CB, a tensão é representada.

Semelhantemente, as nuanças discursivas recuperadas da lírica latina, no GRJ, por mais que capturem diferentes vozes constitutivas do discurso citado, na condição de epígrafe, nas páginas do jornal, servem ao projeto da Impressão Régia. Por isso, também nesse caso identifiquei discurso representado.

Não obstante, no contexto de pesquisa sobre a constituição de uma esfera da imprensa brasileira, cada projeto editorial configura um juízo em tensão com o outro, de maneira que se tornam constitutivos mutuamente. No âmbito da im- prensa, os dois projetos atualizam juízos que estabelecem a bivocalidade do que se construía como esfera brasileira. Perseguir o processo dessa constituição, portan- to, demanda um olhar metalinguístico, que atente para a natureza discursiva ativa do objeto e aceite interagir com ele (e não simplesmente agir sobre ele).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Iniciei esta reflexão resgatando, no pensamento bakhtiniano, a noção de rela- ções dialógicas, que implicam transdiscursividade, ou seja, implicam fenômenos que atravessam discursos, como princípio de construção de conhecimento. Para

isso, problematizei o contexto de produção e recepção da obra de Bakhtin e demais membros do Círculo de pensadores russos e sugeri a necessidade de tomar Bakhtin como corpus, antes de lidar com sua proposta teórica do ponto de vista metodoló- gico. Assim, minhas escolhas envolveram focar fontes de autoria não disputada e selecionar textos que tematizam as relações dialógicas e o discurso bivocal. Em seguida, relatei o processo de pesquisa, descrição, análise e interpretação de um fenômeno metalinguístico, procurando destacar os seguintes pontos:

a. a metalinguística requer do investigador uma postura que garanta o pro- cesso relacional de interação com o objeto, e não somente de ação sobre o objeto;

b. os limites e escopo do trabalho de pesquisa dependem do estabelecimen- to dessa interação intersubjetiva. O objetivo de pesquisa é traçado pelo pesquisador, mas até onde ir, no processo de investigação, depende do que o objeto diz sobre si/sobre o fenômeno investigado;

c. as tarefas descritiva e analítica devem reconhecer os juízos que atuali- zam o fenômeno em foco;

d. por fim, o desafio de interpretar deve estar eticamente comprometido com a postulação dialógica, dando os devidos créditos à participação do objeto na construção da interpretação, de maneira que além de falado, o objeto seja também falante.

Diante da exposição, espero ter provocado inquietação, mais do que ter pro- vido respostas. Espero ter auxiliado na identificação de mecanismos para avaliar o modo como o pensamento bakhtiniano tem sido abordado e, assim, poder fazer crescer um arcabouço teórico tão profícuo e multifacetado. Se coloquei o leitor a pensar comigo, se o fiz reavaliar possibilidades do processo de pesquisa, cumpri a tarefa. As relações dialógicas como princípio epistemológico não me permitiram dar a última palavra.

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Enunciados d’Os sertões