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2. Conceitos fundamentais e revisão bibliográfica

2.2. Formulação de um composto com base em borracha

Uma formulação que visa a obtenção de um certo composto consiste na

combinação de elastómeros e aditivos para obter uma íntima mistura que proporcione

as propriedades físico mecânicas, dinâmicas e químicas necessárias ao produto final.

Na estrutura de uma formulação, a quantidade de cada ingrediente é expressa

em phr (parts for hundred of rubber – partes por cem de borracha). Isto significa que

todos os ingredientes são medidos em relação à quantidade (massa) de borracha na

composição. Recomenda-se também que a ordem de apresentação dos constituintes

9

da formulação seja igual à ordem de mistura dos componentes no processo de

produção.

Os objetivos da formulação são: assegurar ao produto final as propriedades

requeridas para que satisfaça as exigências de uso, alcançar as características

necessárias para a eficiente utilização dos equipamentos disponíveis e obter as

propriedades e processabilidade desejáveis ao mais baixo custo possível.

A elaboração de uma composição de borracha exige um perfeito conhecimento

de todos os tipos de borrachas e dos mais variados ingredientes de mistura

disponíveis no mercado, os quais, devidamente formulados, permitem obter

composições facilmente processáveis, cujos vulcanizados possuem as propriedades

desejadas, possuem um bom desempenho e apresentam uma durabilidade adequada

ao seu custo de produção.

Na formulação de um composto de borracha utilizam-se vários ingredientes.

Cada um deles tem função específica e correspondente impacto nas propriedades,

processabilidade e no preço do composto. Centenas de ingredientes estão hoje

disponíveis. Para desenvolver o composto mais barato apropriado para cada aplicação

é indispensável o conhecimento das funções e da eficácia dos ingredientes da

composição, de forma que o composto resultante responda a todos os requisitos de

processamento (durante as fases de transformação) e requisitos de produto final

vulcanizado, quando em serviço.

As funções de cada matéria-prima e os seus efeitos nos produtos serão

abordados com mais detalhe seguidamente.

Elastómero base

Elastómero base é o composto principal de cada formulação, e deve ser

escolhido de acordo com a aplicação final da peça produzida.

Uma das borrachas sintéticas mais utilizadas é a que tem como base o

copolímero de estireno (entre 23 a 40% em massa) e de butadieno, designadas por

isso de SBR (Stirene and Butadiene Rubber). A sua fórmula estrutural é a seguinte

[2,8,9]

:

10

Figura 2: Unidade repetitiva da borracha SBR [2]

A borracha de SBR tem um custo relativamente baixo

[9]

e quando comparada

com a borracha natural, apresenta melhor resistência à abrasão e a variações

climatéricas. No entanto, a resistência ao rasgo é ligeiramente inferior. As

propriedades físicas são boas e as suas propriedades mecânicas aumentam quando

são usados reforços adequados (ver 2.2.4). A sua gama de temperaturas de serviço é,

aproximadamente, dos - 45 aos 100

o

C

[5]

.

A principal utilização da borracha SBR é na indústria dos pneus, sobretudo nos

automóveis ligeiros. No entanto, a sua aplicação verifica-se também em muitas outras

áreas: calçado, fios elétricos, mangueiras, produtos farmacêuticos, cirúrgicos e

sanitários.

Para além da borracha de estireno-butadieno – SBR usada nesta empresa existe

igualmente uma grande variedade de polímeros sintéticos que podem também ser

utilizados no fabrico de componentes para calçado. Esses polímeros podem ser:

 Borracha de Poliisopreno (IR);

 Borracha de Polibutadieno (BR);

 Borracha de Policloropreno (CR);

 Borracha de Acrilonitrilo Butadieno (NBR).

Nesta unidade industrial, a borracha de SBR será a mais indicada para o efeito

pretendido.

Cargas

As cargas têm uma importância primordial no que diz respeito à obtenção das

propriedades desejadas nos vulcanizados. As cargas, ou reforços (tais como os

negros de fumo, os caulinos e as sílicas) são adicionados às formulações de borracha

para se atingirem determinados objetivos no nível de desempenho, por exemplo, de

11

resistência à tração, ao corte e à abrasão, aumento da elasticidade e redução do custo

da formulação.

Como reforço entende-se a capacidade das cargas para aumentar a rigidez dos

compostos não vulcanizados e melhorar algumas propriedades dos vulcanizados,

como as referidas atrás

[2,10]

. O grau de reforço que uma determinada carga confere a

um composto depende de vários aspetos, sendo o mais importante o tipo de interface

desenvolvida entre o polímero e a carga

[10]

. O efeito de reforço evidencia-se,

principalmente, na capacidade para alterar as propriedades de um composto à medida

que aumenta a quantidade de carga. As cargas que originam apenas pequenos

aumentos na viscosidade dos compostos e que, ao mesmo tempo, pioram as suas

propriedades mecânicas não são reforçantes. São chamadas semi ativas

[2]

.

As cargas reforçantes são então aquelas que comunicam melhores propriedades

físico mecânicas como: rigidez, resistência à tração, deformação, rasgamento, atrás

referidas. O grau de reforço aumenta com um decréscimo do tamanho da partícula da

carga. As cargas inertes ou materiais de enchimento têm como função embaratecer o

produto e conferir boas características de processamento. Entre as cargas de

enchimento destacam-se o caulino e o carbonato de cálcio.

Peptizantes

Os peptizantes têm a função de catalisar a quebra das macro moléculas do

elastómero durante a mistura com o intuito de reduzir a viscosidade do mesmo para

facilitar a incorporação dos demais ingredientes e o processamento do composto.

Agentes de vulcanização

O processo de vulcanização, também chamado cura, consiste em unir

quimicamente as cadeias poliméricas individuais, por meio das ligações cruzadas,

visando a obtenção de uma rede tridimensional elástica que irá exibir as propriedades

elastoméricas desejadas no produto final.

Os agentes de vulcanização são substâncias que promovem as ligações

cruzadas (reticulações) entre as macro moléculas dos elastómeros. O enxofre é o

agente de vulcanização mais comum empregue na vulcanização dos elastómeros.

A borracha não vulcanizada é muito pouco resistente, não mantém a sua forma

depois de sujeita a uma deformação considerável e pode ser muito “pegajosa”, ou

seja, pode ter aproximadamente a mesma consistência que uma pastilha elástica

[11]

.

12

O primeiro método de vulcanização reconhecido comercialmente foi atribuído a

Charles Goodyear

[11]

. O seu processo (aquecer borracha natural com enxofre) foi

utilizado pela primeira vez em Springfield, Massachusetts, em 1841. Thomas Hancock

utilizou praticamente o mesmo processo um ano mais tarde, em Inglaterra. Desde

esses tempos primordiais, este processo tem sido continuamente desenvolvido e,

consequentemente, melhorados os artigos em borracha

[11]

.

O termo vulcanização é geralmente aplicado a materiais elastómeros,

aumentando a força retrátil e reduzindo a deformação residual após a retirada do

esforço imposto. Isto significa que a vulcanização aumenta a elasticidade ao diminuir a

plasticidade destes materiais, o que se consegue através da formação da rede

molecular reticulada, figura 3, como foi falado atrás.

Figura 3: Formação da rede molecular reticulada [11]

De acordo com a teoria da elasticidade das borrachas

[12]

, a força para resistir a

uma deformação é proporcional ao número de cadeias de polímero por unidade de

volume de elastómero. Na maioria dos casos, o agente de vulcanização é o enxofre.

A vulcanização dos elastómeros faz com que a resistência a tensões e

deformações seja elevada. Estes valores são medidos através das curvas de tensão

deformação (figura 4).

13

Figura 4: Curva de tensão-deformação para borrachas vulcanizadas e não vulcanizadas [15]

Tal como indicado na figura 4, enquanto o polímero não é vulcanizado, há

apenas um fator que faz com que o material resista ao alongamento, o entrelaçamento

entre as cadeias. Este entrelaçamento aumenta proporcionalmente com o aumento da

massa molecular. Quando ocorre a vulcanização são formadas ligações químicas

entre as cadeias de átomos de enxofre e do polímero, formando ligações

carbono-carbono, átomos isolados de enxofre, radicais orgânicos polivalentes ou iões de

metais polivalentes, e assim, aumenta-se a resistência mecânica do polímero

[10, 12]

.

Os agentes de vulcanização são substâncias que promovem as ligações

cruzadas entre as várias moléculas do elastómero, proporcionando assim uma melhor

plasticidade ao produto. O agente de vulcanização é escolhido de acordo com o tipo

de polímero utilizado

[6,10]

. Por meio do agente de vulcanização, o material

elastomérico tem as suas propriedades modificas e melhoradas, destacando-se a

resistência a solventes e óleos minerais, resistência à temperatura, e boas

propriedades mecânicas e térmicas. Quando o elastómero é vulcanizado, ele passa do

estado plástico para o estado elástico, de solúvel para insolúvel.

De forma geral, os agentes de vulcanização podem ser de três grupos: enxofre,

doadores de enxofre e agentes não sulfurosos

[13]

.

14

Enxofre: é o agente de vulcanização mais conhecido utilizado na cura de

borrachas que possuem cadeias insaturadas. Na presença de calor, o enxofre

reage com os polímeros insaturados para formar ligações cruzadas entre as

cadeias macro molecular, melhorando a resistência do material. A reação que

ocorre entre a borracha e o enxofre é muito lenta e, do ponto de vista económico,

não é viável para a fabricação de artefactos de borracha. Para tornar esse

processo economicamente viável, utilizam-se os aceleradores de vulcanização ou

doadores de enxofre, conforme se observa na tabela 1.

Doadores de enxofre: certos aceleradores contendo enxofre (por exemplo

TMTD e MBTS, figuras 5 e 6 respetivamente) decompõe-se a determinadas

temperaturas, libertando quantidades apreciáveis de enxofre. Quando são

utilizados estes aceleradores, o enxofre elementar pode ser reduzido ao mínimo,

ou mesmo eliminado, pois os grupos de enxofre libertados dos aceleradores

promovem a reticulação do elastómero. Estes reagentes são usados para

substituir parte ou todo o enxofre elementar e para produzir borrachas

vulcanizadas com menos átomos de enxofre por ligação cruzada. Os doadores de

enxofre podem agir também como aceleradores da vulcanização, além de

promoverem aumento no nível de ligações monossulfídicas e dissulfídicas,

aumento na resistência térmica e oxidativa além redução da quantidade de

enxofre livre na formulação, como já foi referido.

Figura 5: Dissulfeto de tetrametiltiurano (TMTD) [16]

15

A tabela seguinte mostra a estrutura química de alguns aceleradores de acordo

com a sua classe.

Tabela 1: Agentes aceleradores [17]

As substâncias apresentadas, em combinação com o agente de vulcanização,

reduzem o tempo de vulcanização, aumentando a taxa de vulcanização e melhorando

as propriedades físicas.

Agentes não sulfurosos: neste grupo os agentes de vulcanização são

constituídos por óxidos metálicos como o óxido de zinco. Este agente de

vulcanização tem como vantagem o fato de promover as ligações

carbono-16

carbono, que são mais estáveis que as ligações carbono-enxofre, como resultado

obtêm-se melhor resistência ao envelhecimento pelo calor.

Todos os aceleradores referidos neste capítulo são substâncias que aceleram o

processo de vulcanização, controlando o tempo e o grau de vulcanização, contribuindo

para a obtenção de determinadas propriedades dos vulcanizados com vista a melhorar

as características físicas do elastómero.

Ativadores

Estes compostos possuem a função de ativar os aceleradores, ou seja,

promover a ação dos mesmos sobre o enxofre e a borracha, para uma rápida

vulcanização.

O óxido de zinco é um dos ativadores mais conhecidos e utilizados no processo

produtivo da borracha, pois aumenta a ação dos aceleradores orgânicos. Em virtude

dessa função, é considerado imprescindível em composições elastoméricas. Durante o

processamento da borracha, o óxido de zinco polimeriza o polímero com agente cloro

e neutraliza o ácido HCL proveniente da degradação do polímero ativando o sistema

de aceleração.

Plastificantes

Os plastificantes são utilizados para facilitar a incorporação dos demais aditivos

e proporcionar menor desenvolvimento de calor durante a mistura. Há diversas

famílias de plastificantes, isto é, substâncias que não agem quimicamente na

borracha, mas modificam as características físicas tanto da composição base como

dos vulcanizados. Os mais comuns são os óleos minerais (parafínicos, nafténicos e

aromáticos), os ésteres e os plastificantes poliméricos.

Agentes de proteção

Quase todos os elastómeros são afetados pelo processo de envelhecimento

natural, ou acelerado, com a ocorrência da rutura e outras alterações químicas nas

cadeias poliméricas. Devem-se usar agentes de proteção que eliminem ou diminuam

os efeitos dos agentes catalisadores do envelhecimento (O

2

, O

3

, calor, luz, flexão

mecânica), prolongando a durabilidade do artefacto.

17

Tais agentes classificam-se em:

Físicos: aqueles que têm a propriedade de migrar para a superfície, formando

uma barreira física que protege o polímero da ação do oxigénio e do ozono;

Químicos: são antioxidantes que reagem com o agente agressor (O

2

, O

3

, etc.),

impedindo a ação deste sobre o polímero.

Embora as borrachas sintéticas já possuam antioxidantes que são incorporados

durante o processo de fabricação, quando se está a processar essa borracha no

processo de fabrico de solas para calçado ou para qualquer outro fim, deve-se

acrescentar novamente uma certa quantidade de antioxidantes. Em função do

processo de transformação da borracha sintética num outro produto, o antioxidante

que é colocado pelo fabricante deste polímero pode sofrer alguma degradação, e

assim, perder as suas propriedades

[12, 18]

.

Agentes de expansão

Os agentes de expansão são produtos que, quando adicionados às

composições de borracha, libertam gases a uma certa temperatura. Esses gases ficam

aprisionados na matriz polimérica criando células ocas. Normalmente são utilizados

para se obter artigos de borracha microporosos ou expandidos

[12, 18]

.

Esse efeito que os agentes de expansão proporcionam aos materiais poliméricos

traz inúmeros benefícios ao produto final, tais como: elevada capacidade de

isolamento térmico e de amortecimento, menor densidade, maior rigidez específica,

entre outras

[18]

.

Pigmentos e corantes

Estes materiais são utilizados para se obter após a vulcanização, uma certa cor.

Podem ser incorporados à mistura durante o processo de mastigação ou no momento

em que são adicionados os agentes de vulcanização.

Quando se está a produzir borracha para solas de sapatos é recomendável usar

de preferência pigmentos e não corantes. Isto porque, os corantes podem migrar ou

reagir com os demais componentes do calçado.

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