O precursor do objeto
4. Em seu artigo “Formulation on the Two Principles o f Mental Functioning”, Freud (1911) descreveu o pensamento como segue: “E essencial
mente um tipo experimental de ação, acompanhado pelo deslocamento de quanti dades relativamente pequenas de catexia junto com menos dispêndio (descarga) delas.” Em “O homem dos ratos”, Freud (1909) definiu pensamento como segue:
f. Todo esse desenvolvimento também marca o início de um ego rudimentar. Ocorreu uma estruturação na somatopsi- que. Ego e id separam-se e o ego rudimentar começa a fun cionar. As ações desajeitadas - na maioria das vezes malsu cedidas, ainda que manifestantemente dirigidas e intencio nais - que a criança começa a desempenhar são indicadores desse funcionamento. Desde o início elas servem para do minar e defender. A operação de direção do ego rudimentar reflete-se na crescente coordenação e direção da atividade muscular. Freud (1923) denominou este ego rudimentar ego
corporal. Irá tomar-se parte do que Hartmann (1939) cha
mou “a esfera livre de conflito do ego”.
Ao mesmo tempo podemos já observar, neste precursor ar caico do ego, uma tendência à síntese. Esta tendência foi des crita por vários autores de diferentes pontos de vista. A descrição mais amplamente aceita é a de Nunberg (1930), que a chamou de função sintética do ego. O conceito de Hartmann (1950) da fun ção organizadora do ego representa, creio eu, apenas um aspecto diferente da mesma tendência.
Como já declarei em outra parte (Spitz, 1959), creio que esta tendência é geral na matéria viva. Referi-me a ela pela primei ra vez em 1936 e denominei-a “tendência integrativa”; ela con duz da esfera orgânica, isto é, da embriologia, à psicologia e à esfera do desenvolvimento. Minhas idéias foram estimuladas pe la proposição de Glover (1933, 1943) do conceito de núcleos do ego. Em sua primeira formulação ele falou de um “modelo ou pro tótipo de um núcleo primitivo do ego, autônomo e independen te” (Glover, 1932). O exemplo dado por ele foi o sistema oral sa-
processos de pensamento são geralmente conduzidos (por razões de eco nomia) com menores deslocamentos de energia, provavelmente a um nível mais alto [de catexia] do que os atos que pretendem desencadear descarga ou modificar o inundo exterior”. Freud apresenta esta proposição em “Project for a Scientific Psychology". Elaborou-a no mesmo livro com maiores detalhes (1895), assim como no Capítulo VII de A interpretação dos sonhos (1900).
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tisfazendo o instinto no “objeto” (mamilo materno). Este conceito concorda inteiramente com o meu; para mim são partes constituin tes do ego, que têm como protótipo funções fisiológicas inatas, em grande parte transmitidas filogeneticamente, bem como padrões de comportamento inatos. Posteriormente, Glover (1943) parece ter revisto o seu conceito eliminando dele toda referência a um pro tótipo, fisiológico ou outro, definindo-o puramente em termos psí quicos. Entretanto, acrescenta a idéia de que, desde o começo, a psique tem uma função sintética que opera com força progressiva mente crescente.
Quanto ã função sintética da psique, estou novamente de ple no acordo com Glover, embora eu ache que a formação de um ego rudimentar se dá muito mais cedo, isto é, aos três meses de vi da. Ainda estou convencido de que a transição do somático ao psicológico é continua e que, por isso, os protótipos de núcleos psíquicos do ego devem ser encontrados em funções fisiológi cas e comportamento somático. Exemplos disso são a função do tipo IRM do percepto da Gesto/Z-sinal, causando a reação do sor riso; ou o reflexo de fixação e seus diferentes papéis, do ponto de vista do comportamento apetitivo, de um lado, e de outro, do ponto de vista do comportamento consumatório (Spitz, 1957); ou o padrão adormecer-despertar (Gifford, 1960); e muitos outros.
Estes protótipos de núcleos do ego, mais ou menos autôno mos no nascimento, servirão ao recém-nascido, mais tarde, em suas trocas pré-objetais com a mãe. No decorrer destas interações, modificam-se como um resultado de investimento catético, dotado de conteúdo psíquico e transformado em núcleos psíquicos do ego.
Aos três meses, ocorre um importante passo de integração, que reúne os diversos núcleos do ego numa estrutura de maior complexidade, formando o ego rudimentar.
Embora seja ele mesmo o produto de forças integrativas que operam na matéria viva, o ego por sua vez torna-se um cen tro gravitacional de organização, coordenação e integração. Sua força gravitacional aumenta exponencialmente em função do número crescente de núcleos do ego que consegue integrar em sua estrutura.
Núcleos de ego isolados, a princípio relativamente sem for ça, cruzando-se a esmo, tomam-se uma força sempre crescente quando trabalham em conjunto, na mesma direção, complemen tando-se, apoiando-se e reforçando-se um ao outro.
g. A função protetora da barreira do estímulo é assumida pe lo ego emergente.
No nascimento, a condição de não catexiado do sensório constitui a barreira do estímulo (Spitz, 1955b)5. Conseqüente mente, tanto a maturação progressiva das vias neurais quanto as crescentes catexias da representação central de receptores sen- soriais irão reduzir gradualmente este limiar que protege contra a percepção exterior. Concomitantemente, processos catéxicos postos em movimento através da atividade dos núcleos do ego conduzem à sua síntese, resultando em um ego rudimentar, isto é, em uma organização central de direção. O ego rudimentar subs tituirá agora o primitivo limiar de proteção da barreira do estí mulo por um limiar superior e mais flexível de processamento se letivo dos estímulos recebidos.
Cargas de energia evocadas pelos estímulos recebidos podem agora ser fragmentadas, distribuídas, entre os vários sistemas de traços de memória armazenados, ou, eventualmente, descarrega das sob a forma de ação dirigida e não mais apenas como exci tação difusa casual. A capacidade para a ação dirigida conduz o bebê a um desenvolvimento rapidamente progressivo de di versos sistemas do ego, começando pelo ego corporal, ao qual outros são acrescentados mais tarde. As ações dirigidas pro priamente ditas tornam-se não apenas uma saída para a descar ga de energia libidinal e agressiva, como também um recurso para adquirir domínio e controle através da psique, facilitando, desta forma, o desenvolvimento. Esta função de atividade diri-
5. Ver também Freud (1917b), “... um completo esvaziamento de um sis
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gida, de ações como tais, na promoção do desenvolvimento du rante o primeiro ano de vida, não foi devidamente considerada na literatura. Falamos muito freqüentemente da pulsão agressi va; raramente se explica que a pulsão agressiva não está limita da à hostilidade. De fato, é incomparavelmente maior e mais importante a parte da pulsão agressiva que serve como motor de todo movimento, toda atividade, grande e pequena, e afinal da própria vida (Spitz, 1953a).
Esta parte da agressividade que é canalizada na ação dirigi da para o alvo terá de transpor obstáculos, mas também poderá encontrar facilidades na consecução do objetivo. A maneira pela qual este objetivo é atingido determina os padrões de ação que irão surgir, bem como a sua estrutura. Dependendo do seu suces so, tais padrões de ação serão preferidos à descaiga indiscrimina da de agressão: mais tarde, estes padrões de ação levarão à con solidação de vários aparelhos do ego (ex.: locomoção, fala, etc.). Parece-me desejável fazer um estudo mais minucioso destes pri meiros padrões de ação, de como são adquiridos no quadro das relações objetais e de como as influenciam. A dinâmica subja cente ao estabelecimento de tais padrões de ação deve dar uma contribuição significativa à teoria psicanalítica da aprendizagem.
h. Mesmo o observador ingênuo, isento de teorias, não po de deixar de notar a mudança que ocorre no bebê, da pas sividade para a atividade dirigida, no estágio em que apa rece a reação de sorriso.
i. Finalmente, o aparecimento da reação de sorriso dá início às relações sociais no homem. E protótipo e premissa de todas as relações sociais subseqüentes.
Relacionei nove aspectos de um fenômeno global que po de ser concebido como marcando o ponto de transição do está gio narcisista primário para o estágio do pré-objeto. Tomaremos como ponto de partida a convergência desses nove aspectos do
fenômeno e examinaremos detalhadamente, nas páginas seguin tes, alguns deles. Entretanto, não podemos perder de vista o fato de que neste ponto, aos três meses de vida, a estrutura psíquica ainda está em seu início, o ego rudimentar e as relações objetais estão no estágio pré-objetal.