4. Análise das propostas para incremento da eficácia das medidas de
4.2 Fortalecimento das disciplinas da etapa de implementação
4.2.3 Fortalecimento dos mecanismos de supervisão
O monitoramento do progresso das ações realizadas pelo reclamado para se adaptar às normas da OMC no domínio de uma controvérsia pode ser considerado como uma das principais inovações trazidas pelo ESC. Trata-se de instrumento salutar para instigar o cumprimento por meios não coercitivos, cujo aperfeiçoamento certamente contribuirá para aumentar a eficácia do mecanismo de resolução de divergências da OMC. Dentre as mais relevantes propostas nesse sentido, é possível indicar:
a) Antecipação do início da supervisão pelo OSC
Atualmente, a inclusão do cumprimento de uma decisão como tópico regular na agenda do OSC ocorre quando se completam seis meses após a definição do prazo razoável para implementação348. Apesar de as partes possuírem o direito de suscitar indagações acerca da matéria tão logo as recomendações tenham sido adotadas, há propostas que visam antecipar o momento em que a questão é automaticamente inserida na pauta de reuniões do OSC. A consolidação de propostas apresentada em 2003 pelo Embaixador Peter Balas, então Presidente da Sessão Especial do OSC, para reforma das normas de solução de controvérsias349, contém dispositivos nesse sentido, pelo qual o
347 FUKUNAGA, Yuka. Securing compliance through the WTO dispute settlement system: implementation of DSB recommendations. Journal of International Economic Law, cit., p. 400. 348 ESC, Art. 21.6.
349 Tal consolidação de propostas ficou conhecida como “Balas Text”, em referência ao responsável por sua elaboração. Não corresponde a um texto consensual entre os membros, mas a uma representação daquilo que o Chairman entendeu que seria o resultado aceitável das negociações em curso. Foi divulgado em 16 de maio de 2003 para servir como base para um acordo em atenção ao mandato da Rodada Doha, que estabelecia como prazo para o fim das negociações o mês de maio de 2003. O consenso ao redor do texto não foi obtido. Sua versão
ínicio da supervisão é adiantado para seis meses após a adoção das recomendações pelo OSC ou após o decurso da metade do prazo razoável, o que ocorrer primeiro350.
b) Fortalecimento do dever de informação pelo reclamado
A mais plausível explicação para o limitado caráter de indução atual da supervisão do cumprimento pelo OSC encontra-se na forma como a obrigação de submeter relatórios pelo reclamado está consubstanciada nas normas da OMC. O ESC lança mão de termos amplos para prescrever o dever de informação que recai sobre o reclamado sem detalhar satisfatoriamente como efetivá-lo. O art. 21.6 do ESC limita-se a enunciar que “o membro interessado deverá fornecer ao OSC relatório escrito do andamento das recomendações e decisões”. A imprecisão da redação resulta em relatórios vagos e evasivos, que não descrevem de maneira suficiente as medidas de ajuste realizadas pelo transgressor. Em sintonia com tal observação, colhem-se inúmeras propostas que visam refinar a obrigação de informação do reclamado com o escopo de ensejar uma vigilância mais efetiva pelo OSC. Todas essas proposições têm em comum a intenção de aprofundar referida obrigação, positivando deveres laterais que tornem mais rígida a forma como o membro deve noticiar seus passos em direção ao adimplemento.
Uma idéia nesse sentido seria introduzir a necessidade de especificar, em cada relatório, todas as ações tomadas pelo reclamado rumo à implementação, desde sua última manifestação. Ao invés de declarar, de forma ampla, que “The US Administration is working with the current US Congress with
respect to appropriate statutory measures that would resolve this matter”,351 que “no further action is necessary for the United States to bring these challenged
measures into compliance with the recommendations and rulings of the DSB”352,
revisada foi publicada como anexo do Relatório do Presidente ao Comitê de Negociações Comerciais. OMC. Dispute Settlement Body - Special Session: Report by the Chairman, Ambassador Péter Balás, to the Trade Negotiations Committee. 06.06.2003. TN/DS/9.
350Balas Text, Art. 21.6(b).
351 OMC. United states – section 211 Omnibus Appropriations Act of 1998: Status report by the United States - addendum. 8 February 2008. WT/DS176/11/Add.68. Genebra: OMC.
352 OMC. United States - laws, regulations and methodology for calculating dumping
margins (zeroing): status report by the United States – addendum. 21 August 2007.
ou outros pronunciamentos similares, o reclamado deveria esclarecer quais exatamente as medidas concretizadas353.
Outra proposta interessante consiste na obrigação de o reclamado apresentar um relatório final (“final status report”) quando do término do lapso temporal estabelecido para sua conformação, devendo tal documento conter a totalidade das medidas executadas para a modificação de seu comportamento em atenção às normas da OMC, bem como cópia do instrumento que a comprove354.
Seguindo a mesma linha de raciocínio, impende mencionar proposta para inserir o dever de notificação, sempre que o reclamado considerar haver implementado integralmente as determinações do OSC. Nesse sentido, alguns documentos apontam para a obrigação de apresentar relatório escrito, que descreva com detalhes as modificações perpetuadas, acompanhado de cópia do documento comprobatório pertinente355. Outras acrescentam a necessidade de notificar a data de entrada em vigor de referida medida, como a recente consolidação de propostas levada a efeito pelo Embaixador Saborío356. No mesmo viés, porém de maneira mais desenvolvida, há ainda aquelas que solicitam explicações legais e fáticas, ou outros documentos que permitam avaliar como se reparou as violações detectadas pela OMC. Eventual dúvida sobre a observância desses requisitos poderia ser dirimida por um painel especial357.
Também com a finalidade de fortalecer o dever de transparência pelo reclamado, vale fazer menção à idéia de depurar o texto sobre a duração do período de supervisão e a obrigação de fornecer relatórios. Atualmente a redação
353 Balas Text, Art. 21.6(b). O dispositivo foi sinalizado entre colchetes, o que significa a inexisitência, à época, de consenso sobre sua aceitação.
354Balas Text, Art. 21.6(b). Proposta conjunta do Japão e CE (JOB (05)71/Rev.1), Art. 21.6(b). 355Balas Text, Art. 21.6(c).
356 Em julho de 2008, o Embaixador Ronald Saborío, Presidente da Sessão Especial do OSC para revisão das normas de solução de controvérsias da OMC, apresentou texto de sua responsabilidade com a intenção de consolidar as principais propostas sobre a mesa de negociação, além de acrescentar algumas sugestões de sua lavra. Seu objetivo, como externa o próprio Chairman, é servir como base para avanços futuros em direção à conclusão dos esforços negociadores. O documento, de circulação restrita entre os membros da OMC sob a referência JOB(08)/81, será aqui aludido como “Proposta Saborío JOB(08)/81”. OMC. Special Session of
the Dispute Settlement Body: report by the Chairman, Ambassador Ronald Saborío Soto, to the
Trade Negotiations Committee. TN/DS/22, 18 July 2008.
do ESC deixa margem à incertezas ao determinar que o tópico da implementação deve ser mantido na pauta do OSC até sua resolução358. Contudo, não esclarece quando a controvérsia será tida como pacificada, e, portanto, retirada da agenda de tal órgão, sendo comum notar nos registros das reuniões do OSC casos no qual o relatório do reclamado tão-somente responde, de maneira sucinta, que o
cumprimento já ocorreu359. Assim, há propostas que procuram determinar que o
assunto somente deverá ser excluído da agenda do OSC quando ambos os contendores concordarem acerca do término da divergência360.
Acerca da periodicidade dos relatórios, as normas da OMC impõem como obrigação sua apresentação pelo reclamado em até dez dias antes de cada reunião do OSC361. Na prática, somente são consideradas para tais efeitos as reuniões ordinárias, que totalizam aproximadamente dez por ano. Algumas sugestões, embore não modifiquem a freqüência dos relatórios, criam uma previsão especial para PEDs, que ficam obrigados a apresentar informativos somente a cada duas reuniões362. A iniciativa atende às reclamações colocadas por Valentina Delich, para quem as disposições atuais do ESC referentes à atividade de supervisão das determinações da OMC não erigem tratamento diferenciado concreto para PEDs363. Tendo em vista essa constatação, bem como as limitações atinentes aos seus recursos humanos e econômicos, a proposição mostra-se acertada, fazendo com que mencionada medida não se transforme em ônus excessivo para PEDs.
O exame de todas essas propostas desperta uma questão conexa referente à existência de conseqüências para o descumprimento dessas obrigações. Quanto à esse tema anota o casal Chayes: “although omitting of a
report is the nonfulfillment of a treaty obligation, it is generally thought to be of a different order of seriousness than nonperformance of the substantive
358 ESC, Art. 21.6.
359 Cf. documentos WT/DS322/22/Add.2 e WT/DS294/20/Add.6. 360Balas Text, Art. 21.6(c).
361 ESC, Art. 21.6.
362 Proposta do Equador TN/DS/W/19, p.5; Balas Text, Art. 21.6(c).
363 “DSU provisions related to the surveillance of implementation of DSB recommendations and rulings are too weak to imply any difference between the possibilities open to industrial and developing countries”. DELICH, Valentina. Developing countries and the WTO dispute settlement system in HOEKMAN, Bernard; MATTOO, Aaditya; ENGLISH, Philip (Eds.). Development, trade,
requirements, and it is so regarded even in domestic legal systems”364. A fim de minimizar essa percepção, verificam-se recomendações para permitir ao reclamante iniciar tratativas para negociação de compensações ou solicitar autorização para sanções, caso o reclamado deixe de enviar o relatório de cumprimento integral da decisão365 e 366. A previsão desponta como estímulo considerável para convencer os membros a se desincubirem de suas obrigações com diligência. Outras alternativas também poderiam ser concebidas, mesmo sem intimidar o membro por meio de penalidades. No entanto, o que não se pode perder de vista é que o fortalecimento das disciplinas de supervisão é fundamental para combater demonstrações de falsa cooperação e pretenso respeito às normas da OMC, explicitando situações de recalcitrância,e fomentando o dever do reclamado de informações, transparência e boa-fé.
c) Relatório periódico do Diretor Geral sobre o status de implementação das decisões
As propostas para reforçar os mecanismos de vigilância também englobam a previsão de um relatório periódico elaborado pelo Diretor-Geral da OMC sobre o andamento dos procedimentos de implementação das decisões da entidade por parte dos reclamados. A idéia foi recebida pelo Balas Text, que enuncia como função do Diretor-Geral colocar em circulação um relatório público dessa natureza a cada seis ou doze meses (periodicidade entre colchetes)367. Importa salientar que mencionado instituto deverá ter caráter apenas informativo, registrando o que tem sido feito pelos membros para a adequação de suas condutas, se os reclamados têm apresentado relatórios conforme vinculados, bem como advertindo aqueles que não estão encaminhando documentos construtivos, objetivos e detalhados. Não se pretende com tal manobra fazer uma determinação legal sobre a questão do cumprimento – papel este reservado aos painéis de implementação. Busca-se, ao revés, fornecer um registro solene por
364 CHAYES, Abram; CHAYES; Antonia Handler. The new sovereignty: compliance with international regulatory agreements, cit., p. 173.
365Balas Text, Art. 22.2.(a).(ii).
366 Em relação à possibilidade de solicitor retaliações: Proposta do G6 (Argentina, Brasil, Canadá, Índia, Noruega e Nova Zelândia) (JOB(04)/52/Rev.1), Art. 22.2bis.(c) e Proposta conjunta do Japão e CE (JOB (05)71/Rev.1), Art. 22.2bis.(b)
parte da OMC, conduzido por seu dirigente, que enalteça a obrigação de cumprimento de suas decisões como elemento vital para o funcionamento eficaz do mecanismo de pacificação de conflitos, e, em última análise, do sistema multilateral de comércio.