SER I I II V SER V SER VI SEM ORIGEM
FORTALEZA RAÇA 2008 2009 2010 2011 2012 2013 TOTAL %
Ign/Branco 2 6 7 1 17 17 50 19,4 Branca 7 8 8 1 14 9 38 14,0 Preta 4 1 2 1 2 3 13 5,0 Amarela - - - 1 1 1 3 1,2 Parda 10 29 22 17 49 17 144 56,0 Indígena 1 - - - 1 0,4 TOTAL 24 44 39 21 83 47 258 100 SER V RAÇA 2008 2009 2010 2011 2012 2013 TOTAL % Ign/Branco - - - - Branca 4 4 4 2 5 8 27 28,1 Preta - - 1 - 1 4 6 6,3 Amarela 1 - - - 1 2 4 4,2 Parda 2 15 14 13 8 7 59 61,4 Indígena - - - - RAÇA 7 19 19 15 15 21 96 100
Gráfico 6 - Porcentagem dos casos
notificados por raça – Fortaleza.
Gráfico 7 - Porcentagem dos casos notificados por raça - SER V.
0 10 20 30 40 50 60
Ign/Branco Branca Preta Amarela Parda Indígena 19,4% 14% 5% 1,2% 56% 0,4% 0 10 20 30 40 50 60 70
Ign/Branco Branca Preta Amarela Parda Indígena 0%
28,1%
6,3% 4,2% 61,4%
Com relação ao item raça, deduz-se que os profissionais não vêm dando a devida importância ao preenchimento deste dado. Ao analisar a Tabela 5, tem-se o preenchimento de ignorado/branco, com 50 (19,4%) dos casos, um grande número em relação ao total de casos. Nesses termos, a maioria dos casos de violência doméstica e/ou sexual e outras violências teve a raça predominantemente negra (pardos + negros), com 144 (56%) e 13 (5%) respectivamente, somando 157 (61%), 38 (14%) de brancos, 3 (1,2%) de amarelos e 1 (0,4%) indígena, em um total de 258 crianças e adolescentes atendidas.
Ao analisarmos estes mesmos dados com foco no aspecto cor da pele, encontra-se outra enorme desigualdade entre crianças brancas e negras, maior ainda se compararmos com indígenas. Apesar da significativa redução de mortalidade infantil, os avanços apontados escondem iniquidades regionais por raça e etnia .
Segundo a UNICEF (2014, p.120), sobre as desigualdades raciais e de gênero entre crianças, adolescentes e mulheres no Brasil:
A cada mil crianças brancas que nasc eram no ano 2000, 28,5 morreram, número que sobe para 44 entre as negras. Na Região Norte, onde a população é predominantemente indígena e negra, a p robabilidade de morte nessa faixa etária é 1,5 vezes maior que no Sul, onde a maior parte da população é branca.
A trajetória da política por vezes contribui para manter a desigualdade já instituída em regiões e classe sociais do país. Segundo Carneiro (2014, on line):
As disparidades nos Índices de Desenvolvimento Humano encontrados para brancos e negros indicam que o segmento da população brasileira autodeclarado branco apresenta em seus ind icadores socioeconômicos (renda, expectativas de vida e educação) padrões de desenvolvimento compatíveis com os de países como a Bélgica; que o segmento negro da população brasileira autodeclarado negro (preto+pardos) apresenta um Índice de Desenvolvimento Humanos (IDH) inferior ao de inúmeros países em desenvolvimento como a África do Sul que, há menos de duas décadas, erradicou o regime do a pa r theid.
Assim ,as metas de desenvolvimento para o milênio40 , e seus propósitos tem uma relação direta com a redução das violências, para a universalização da instrução, favorecendo ao conhecimento de direitos e deveres, melhorando a socialização e a
40 Em 2000, a Organização das Nações Unidas (ONU), ao analisar os maiores problemas mundiais,
estabeleceu 8 Objetivos do Milênio (ODM), que no Brasil são chamados de 8 Jeitos de Mudar o Mundo – que devem ser atingidos por todos os países até 2015 (OBJETIVOS DO MILÊNIO, 2014, on line).
autoestima, porém ao nível local, a UNICEF (2014, p.145) identifica que
A proporção de crianças e adolescentes negras fora da escola é 30% maior que a média nacional e duas veze s maior que a proporção de crianças brancas que não estudam. Já entre as crianças indígenas, as chances de estar fora da escola aumentam em quatro vezes em relação as crianças brancas.
Na SER V, no que se refere à etnia, há uma predominância da raça parda e negra com 59 (61,4%) e 6 (6,3%) dos casos, respectivamente, ou 65 (67,7%) dos casos dentre as mais notificadas, além de 27 (28,1%) de brancos e 4,2% de amarelos. Não houve casos notificados de ignorado/branco e de indígenas.
Com a ausência de indígena de notificação de indígenas ,temos duas vertentes para reflexão: os indígenas podem ter uma assistência diferenciada nessas situações, ou uma dificuldade de acesso aos serviços de saúde. Sabe -se que os indígenas ocupam predominantemente a zona rural.
Desta forma, de acordo com a Fundação Nacional do Índio (FUNAI apud CEDEFES, 2014, on line), “no Ceará, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística (IBGE), relativos ao Censo 2010, existem 19.336 índios, divididos em 14 etnias. Destes, 12.598 estão na área urbana e 6.738 na área rural”. Outra hipótese levantada é a de que, na zona urbana, alguns não se autodeclaram indígenas41, podendo haver outras reflexões sobre esse tema.
Segundo a UNICEF (2014, p. 156), sobre a violência contra a criança e o adolescente indígena, diz que:
Dados da Fundação Nacional de Saúde (FUNASA) apontam que, nas aldeias do MS, 27% das crianças índias, de até 5 anos de idade, estão desnutridas e que em 2004 a mortalidade infantil chegou a 60 por mil nascidos vivos, quase o triplo do índice verificado entre a população brasileira. Entre os xavantes está o pior índice de mortalidade infantil 133,8 óbitos de crianças menores de 1 ano por mil nascidos vivos, 5,5 vezes maior que a media nacional. Três das crianças mor reram de desnutrição enquanto suas famílias acampavam ao lado da BR -163 para protestar contra terras ocupadas por posseiros .
41 Ao preencher os dados, os profissionais de saúde são orientados de acordo com o Manual para
preenchimento de fichas no item: RAÇA/COR, raça do indivíduo. Este campo é de preenchimento obrigatório. Marcar X na opção de raça/cor, campo de preenchimento obrigatório, podendo ser: Branca: pessoa que se autodeclarar branca (IBGE, 2010).Preta: pessoa que se autodeclarar preta ou negra. Parda: pessoa que se a utodeclarar parda, mulata, cabocla, cafuza, mameluca, morena ou mestiça. Amarela: pessoa que se autodeclarar amarela, ou seja, de origem japonesa, chinesa, coreana etc. Indígena: pessoa que se autodeclarar indígena (IBGE, 2010).
A vida dos indígenas é reconhecidamente feita de lutas pela posse de suas terras. Vivem isolados, em comunidades com hábitos dist intos do que restou da sua cultura. Em algumas regiões do país, aldeias indígenas dispõe m de serviços de saúde específicos42.
A situação da saúde da população infantil indígena brasileira ganhou grande repercussão nos primeiros meses de 2005, em razão de ma is de uma dezena de crianças indígenas que morreram por desnutrição no Mato Grosso do Sul. “A desnutrição atinge 30 % das crianças indígenas do nascimento até os 5 anos de idade” (UNICEF, 2014, p.156).
Há situações em que se acumulam mais de uma vulnerabilidade. Nesse caso a situação é mais complexa e exige intervenções imediatas para evitar situações desastrosas como os vários óbitos que tem ocorrido com crianças indígenas.
Povos indígenas sempre conviveram com pobreza extrema, discriminação e exclusão da sociedade e dos serviços sociais. Em nossas comunidades meninas e meninos com deficiência são os mais vulneráveis e os que têm o desenvolvimento mais precário. Sua marginalização persiste apesar da oportunidade histórica de solucionar os desafios enfrentados que é oferecido por três instrumentos internacionais de direitos humanos – a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência; a Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas ; e a Convenção sobre os Direitos das Crianças (UN ICEF, 2014, p. 72).
As crianças indígenas permanecem como sujeitos invisibilizados nas políticas públicas. Quanto a Constituição Federal, a mesma sublinha a diversidade e a multiculturalidade que nos constituem como nação, incluindo os povos tradicionais inseridos no território (PRIMEIRA INFÂNCIA, 2010).
No depoimento de uma profissional indígena, com deficiência, podemos ter uma noção dos obstáculos a enfrentar:
Com uma deficiência física causada pela poliomielite, cresci em uma comunidade indígena e tenho visto que, apesar dos anos, a situação pouco
42 A Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas integra a Política Nacional de
Saúde, compatibilizou as determinações da Lei Orgânica da Saúde com as da Constituição Federal. Ela prevê, dentre outras coisas, o direito das populações a um atendimento diferenciado pelo Sistema Único de Saúde (SUS), que respeite suas especificidades culturais. Desde agosto de 1999, o Ministério da Saúde, por intermédio da Fundação Nacional de Saúde (FUNASA), assumiu a responsabilidade de estruturar o Subsistema de Atenção à Saúde Indígena no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). Disponível em < http://dab.saude.gov.br/saude_ indigena.php>Acesso em: 20 de dezembro de 2013.
mudou – se é que mudou. Assim como na minha infância, hoje as crianças com deficiência são excluídas e a rejeição por parte da comunidade estende-se aos pais e irmãos , porque a deficiência é considerada uma punição divina, e uma criança com deficiência e considerada uma divida para a comunidade. Hoje, como naquela época, e extremamente difícil ter acesso a serviços e custear as despesas adicionais geradas por um familiar com deficiência. Pobreza excessiva, isol amento geográfico e marginalização política sustentam a discriminação e o preconceito, e são reforçados por eles. As consequências podem ser graves: muitas mães, com pouco ou nenhum poder para mudar a situação, permanecem silenciosas sobre nossas condições ou recorrem ao infanticídio (UNICEF, 2013, p. 72).
Uma das hipóteses foi exposta em reunião, para a elaboração do Plano Municipal da Primeira Infância do Município de Fortaleza, no mês de agosto de 2013, por agentes comunitários de saúde, sobre a existên cia de crianças e adolescentes que em suas visitas domiciliares, encontram indígenas que residem com outras famílias que não a de origem e estes não se reconhecem como indígenas para a sociedade, segundo o Agente Comunitário de Saúde (ACS), por medo da discriminação ainda presente.
Tabela 6 – Distribuição dos casos notificados de violência contra crianças e
adolescentes por faixa etária, em Fortaleza e na SER V, no período de 2008 a 2013 .
FORTALEZA