Cavalhada
Fonte: PREFEITURA MUNICIPAL DE PASSOS, 2008.
Essa rota percorre todos os bairros, ruas, avenidas e ruelas que são pouco mais do que grandes valas. Outra rota percorrida está em todo o imaginário das pessoas de hoje e das gerações dos antepassados até onde a vista ou o imaginário alcança. Não percorrendo somente as ruas fisicamente, mas a cabeça, a leitura de mundo de Passos e a partir de Passos, como lócus importante e significativo do Terno de Congo.
Nesse momento, nossos olhos recaem sobre a territoriedade da sub-bacia do Bocaina, que pertence à Bacia do Córrego Bocaina, que vai desaguar no Rio Grande. A maior parte das nascentes que definem a sub-bacia do Bocaina surgem nas Serras do Fundão, do Jaú, da Ventania, Água Azul e da Conquista, que por sua vez pertencem à Unidade Geomorfológica da Serra da Canastra. A sub-bacia do Bocaina abrange aproximadamente 20,3% da área total do município de Passos. É para esse ribeirão que voltamos nosso olhar sobre o Passos dos ternos de Congo. A justificativa está para o surgimento das currutelas formadas por negros escravos vindos de muitas Áfricas que se misturam nas lavouras e minerações ao longo do trajeto do Ribeirão Bocaina, que corta o município e a cidade de Passos.
As águas do Ribeirão Bocaina trazem em si complexidades. Moram, correm, vivem dentro desse turbilhão de águas muitos e muitos rios. Rios que ora caminham lado a lado, ora corrente contra corrente, ora sobrepostos, misturados e ora se misturam... um confusional. Outrora seus olhos brotavam e saltavam águas cristalinas. Hoje, correm turvas de poluição, sobretudo dos dejetos de homens do campo e da cidade. Congadeiros, bem como nós, enxergamos no interior do Ribeirão Bocaina não só águas de ribeirão, mas águas de muitos rios. Há rios contando da poluição, com suas águas não próprias para consumo humano, sem passar por estações de tratamento de água e de esgoto. São carregadas de resíduos urbanos e industriais, resíduos químicos e sólidos, que vêm da cidade e dos campos que rezam hoje a cartilha dos transgênicos, dos fertilizantes químicos, de todo um compósito de poluentes que escorrem pelas brechas da terra até os aqüíferos. Há rios fluindo pelas interioridades do Bocaina, de águas não potáveis, águas de homens e outros vivos não beberem. Dentre esses rios, um movimenta-se dizendo da história de si e de tudo aquilo que passa à volta, feito um grande banco de dados. Aqui as águas são turvas de sangue, de suor, de lágrimas, de sofrimento, de práticas rituais, de magias, de danças e cantorias vindas de MAMA ÁFRICA. O rio que fala agora conta de um trágico dionisíaco, diz da história de sobrevivência e resistência de povos e povos africanos, trilham caminhos imprimidos a ferros, trafegam pela rota do sombrio e se enraízam e enraízam nas terras de Passos. Tem um outro rio correndo límpido. Por ele ecoam sons, tons e sentidos variados, exalam os sabores, cheiros, cores e a vida/morte dos ternos de Congo. Nesse grande cosmos nasce Passos e com ela a justificativa da nossa condição de testemunhas e observadoras de histórias (re)ordenadas no presente dos dias.
A cidade de Passos integra o grande território dos Sertões de Jacuí. Constitui um dos lugares emblemáticos do terno de Congo, dos fazeres e saberes da Congada. Outras terras encantadas pelo Congo pontilham a vastidão do Jacuí. Tomando a ponta da fila vem Alpinópolis e tantas outras como Pratápolis, Fortaleza de Minas e São Sebastião do Paraíso. As encantarias do Congo, em trajes de romaria, espalham-se como uma das significativas manifestações da cultura popular de raiz afro pelas ancas das Gerais.
A rota do Congo percorre muitos espaços e trafega por vários momentos das currutelas de escravos, erguidas ao longo do Ribeirão Bocaina até os tempos lavrados de 2008.
Os ternos de Congo, as Congadas, suas múltiplas manifestações, suas complexidades de formas, cores, práticas, rituais, saberes e fazeres, suas várias maneiras de dizer de si, dos outros rituais manifestos da mestiçagem, das várias folias e formas de resistência, do jeito de ser negro, de suas nações da negra África, do trançar confusional de muitas possessões de
possuídos que se possuem. É um trânsito intenso entre as várias manifestações de cultura popular de forma que sempre um deixa traços no outro, por vontade de querer ou não.
Considerando o tempo como uma variedade de diversos presentes superpostos, recompostos, revividos, os olhos das pesquisadoras e dos congadeiros que partilham histórias de histórias contam de um real imaginário. Essa rota imaginária percorrida por uma comunidade de destino refere-se a uma outra face do universo que tratamos. Diz dos imaginários compostos de uno-multiplicidade de jeitos, de ordenação, desorganização e recomposição das falas, das cores, dos cheiros, dos corpos e corporeidades emblemáticas, das vestes dos ícones, dos figurativos mítico mágico, dos passos das danças, do farfalhar das vestimentas, dos caleidoscópios do cotidiano, do banal ao extraordinário compreendendo a mistura do poético ao alegórico que escorre dos inúmeros presentes.
A linguagem comporta a possibilidade de expressão dos dois estados da existência humana, o prosaico e o poético. Na linguagem poética, as palavras são mais conotativas que denotativas. Nesse tipo de linguagem as palavras evocam, ganham os contornos das metáforas, infundem uma nova natureza evocativa, inovadora e encantatória. O estado prosaico por outro lado comporta uma prosa que denota, precisa, define, articula-se então, com a nossa atividade racional, lógica, técnica. “Vivemos o estado prosaico, em situação utilitária e funcional, nas atividades destinadas à sobrevivência, a ganhar a vida, no trabalho submetido, monótono, fragmentado, na ausência e no recalcamento da afetividade”. (MORIN, 2002, p. 136).
Na visão de Rimbaud, no mundo da prosa a vida está verdadeiramente ausente. Significa dizer que a verdadeira vida é poética e viver poeticamente é viver por viver. O estado prosaico, ao contrário do poético, tem sempre finalidades exteriores. O estado poético é, portanto, sempre o seu próprio fim. A finalidade da poesia é ela mesma, permite que o transe proporcionado se torne realidade. A vida poética está para o pensamento analógico- simbólico-mitolótico.
A cadência da Congada e dos congadeiros de Passos incorpora, dos anos de 2005 a meados de 2008, duas estrangeiras mulheres compondo uma só alma malhada de Eros, a mineira Adriana Dias, jornalista de fé e profissão, útero inflado de mãe e a paulista Eliana Dancini, inquieta nas artimanhas do (des)ordenar e nas artes de contrabandear saberes e fazeres.
O conhecimento do vizinho, da pessoa com a qual se vive e o conhecimento do estranho são coisas ligadas entre si. Só que há algo, existente nas antigas civilizações que era a hospitalidade, ou seja, o caráter sagrado do outro e do estranho. E é isso que nós também destruímos. Rimbaud usou esta soberba expressão: ‘Eu é o outro’.
Creio que essa é de fato uma questão essencial. De um lado, é preciso compreender que o ‘eu’ nunca emerge a não ser do encontro com o outro. Poderíamos quase dizer que é a primeira experiência da formação cultural e individual fazer a experiência de um outro, de um exterior. Esse é um processo que se aplica ao indivíduo. Trata-se igualmente de conhecer lados que não conhecemos quando nos tornamos de alguma forma estranhos a nós mesmos. A estranheza diante de si mesmo é uma experiência essencial, pois ela permite abrir-se às outras culturas. (WULF; MORIN, 2003, p. 36).
As andanças do terno de Congo representadas nas formas de mapa ganham complexidade quando esquadrinhamos os traços dos muitos monumentos, alguns visíveis ao primeiro olhar, outros pouco vistos pelos pesquisadores da religiosidade, da musicalidade, do dionisíaco presente em todas as faces bacantes das culturas populares. Os monumentos ficam pelos caminhos banhados em ungüentos real/imaginários.
O Congo negro de lá tem substância
A história da África é fascinante. Todos nós já ouvimos falar dos grandes faraós do Egito, dos seus túmulos magníficos e das cerimônias funerárias. Mas quantos, entre nós, sabem da existência dos antigos impérios da África Ocidental? O primeiro desses grandes reinos, o Gana, tornou-se uma grande potência a partir de 300 d.C. e o seu poder manteve-se durante cerca de mil anos. O Gana era tão rico que os cães do seu palácio real usavam coleiras de ouro.
Assim como Passos, o antigo Egito - uma das primeiras grandes civilizações do mundo -, se desenvolveu nas margens de um rio: o Nilo, cerca de 3000 a.C. e manteve seu apogeu durante cerca de dois mil anos.
Na África vivem mais de 670 milhões de pessoas, integradas em cerca de 800 grupos étnicos, cada um com a sua língua e sua cultura próprias. A África está coberta de desertos, estepes e florestas. O maior deserto do mundo, o Saara, estende-se por praticamente todo o Norte de África. Um dos mais longos rios do mundo, o Nilo, corre cerca de 6.400 quilômetros pelo nordeste africano.
As temperaturas na África variam de região para região. A temperatura mais alta registrada no mundo foi a de 58º C, na Líbia, em 1922. A pluviosidade também varia pelo continente. Em algumas zonas, como no deserto do Saara e da Namíbia, não chove durante períodos de 6 a 7 anos. Contudo, na costa ocidental chove praticamente durante todo o ano. Em algumas zonas da África existe uma estação seca (quando chove muito pouco) e outra de chuvas (quando cai muita chuva). No Zaire, situado na África Central, a estação de chuvas vai de outubro a maio; mas na Gâmbia, a estação das chuvas estende-se de julho até outubro.
FOTO 4 - Mapa da República Democrática do Congo