(...) Podemos ver nas comunidades do ciberespaço a aplicabilidade do conceito de socialidade (mas também de sociabilidade), definido por ligações orgânicas, efêmeras e simbólicas. (LEMOS, 2004, p.86).
As comunidades virtuais eletrônicas são agregações em torno de interesses comuns, independentes de fronteiras ou demarcações territoriais fixas. Na exploração do tema de estudos das redes, consideramos que a rede se trata de um ambiente participativo e colaborativo.
As possibilidades de leitura da imagem fotográfica no ambiente virtual exigem sua contextualização para que se chegue a um método seguro de acesso ao que as fotografias postadas possam significar. Em seu isolamento, sem a interlocução com seus autores, estas imagens podem ser deslocadas de sua intencionalidade, perdendo-se aí o seu conceito de valor:.
Inicialmente, a fotografia, para surpreender, fotografa o notável; mas, em breve, por meio de uma reviravolta conhecida, ela decreta que é notável aquilo que fotografa. O “não importa o quê” torna-se então o cúmulo sofisticado do valor. (BARTHES, 1980, p. 56).
Nem sempre a imagem representa mais que as palavras, pois seu conteúdo, embora testemunhal, também inclui significações implícitas. Conforme GLEICK(2000) desde que começou a ser utilizada na sociedade, a fotografia ultrapassou as possibilidades técnicas. Além de ser um meio através do qual são preservados os registros visuais ou expressam-se visões artísticas, ela amplia o alcance da visão humana em termos espaço-temporais.
A possibilidade de distorção do sentido das imagens existe desde os primórdios de sua utilização como instrumento social. Por isto, na tentativa de sua tradução para o verbal, na interpretação de seu sentido, precisa receber análise crítica e contextual.
Retomamos em BARTHES (1980) o fato de a fotografia ressuscitar sentimentos. Esta especificidade da fotografia independe do período de sua produção e da forma como foi tecnicamente viabilizada. Pode, como signo, atuar em nível individual ou coletivo. Uma imagem pode reavivar sentimentos de memória póstuma ou trazer o saudosismo de um período histórico que não existe mais.
A fotografia é também instrumento de representação mental e/ou visual do pensamento humano. Desta forma, caracteriza-se como oportunidade de captura do real com representação de
intencionalidades, quando se fotografa algo em busca de um objetivo, para atender a uma expectativa, tendo uma motivação específica.
Neste capítulo traçam-se características de subjetividade existentes no uso deste recurso em ambientes virtuais. Trata-se de uma abordagem teórica sobre o conceito de representação das imagens veiculadas em redes sociais.
Para que se possa investigar a produção de fotografias e seu uso no espaço virtual em blogs sociais e fotologs pessoais, faz-se necessário recuperar informações técnicas contidas nos subsídios teóricos de estudos da imagem existentes.
Historicamente, sinais indicativos das faculdades imaginativas do ser humano associadas às imagens são encontrados em todo o mundo, desde as pinturas rupestres até o período contemporâneo.
Em seus estudos filosóficos, Platão separou conceitualmente a compreensão de idéia e de imagem. Ao conceber que as imagens são a materialização das idéias, estabeleceu duas formas de representação em imagens: a subjetiva, que é resultado do pensamento-imaginação, e a objetiva, que é detectada por nossos sentidos. Desta forma, acrescentou o suporte da fantasia às possibilidades de produção imagética, acentuando-lhe o componente da ilusão. Mas a crença no caráter testemunhal da fotografia como resgate da realidade sempre teve seu espaço nos estudos teóricos posteriores a Platão.
Na contemporaneidade, muitos estudiosos ainda pensam na fotografia como imagem, cópia, reprodução. O surgimento das tecnologias virtuais possibilita que
Indefinidamente conserváveis, as imagens infográficas são quase completamente indegradáveis, eternas e cada vez mais facilmente colocadas à disposição do usuário em situações corriqueiras e cotidianas, em qualquer tempo e lugar. (SANTAELLA e NOTH, 1998, p. 174).
O advento das tecnologias permite a ampliação da percepção de Platão e a cada dia surgem novas discussões sobre a precariedade do conceito de que a fotografia é idêntica à situação que mostra. A imagem na cibercultura considera uma lógica da simulação, um tipo de criação estética que não mais pretende representar o real com uma imagem, mas possibilita, em toda a sua complexidade, recriar uma realidade virtual autônoma.
As imagens veiculadas em redes sociais de relacionamento podem tanto ser observadas como algo similar à realidade material que as constitui quanto como algo diferente desta
realidade. Elas são criadas por indivíduos no corpo social de suas relações e, mesmo sendo posadas, criadas, imaginadas, ficcionalmente articuladas e fabricadas, refletem o mundo exterior e a sociedade vigente.
Existe uma representação que se dá de forma dupla e contraditória: ao mesmo tempo em que reproduz a historicidade humana, a fotografia virtual se permite a manipulações e distorções de realidades. Desta forma, ao ampliar o campo de visão na questão espaço-temporal, a fotografia torna-se instrumento de registros do momento vivenciado, independentemente desta condição.
A imagem é uma fonte histórica porque traz consigo esta representação de uma época, dos hábitos, costumes e simbologias de determinado período. Deve, por isto, ser explorada com critério, pois traz embutidas em sua produção as escolhas do produtor e do contexto em que será capturada.
Fotografias, objetos específicos (como um piano, um relógio, uma cadeira) e eventos particulares (uma certa canção tocada ou cantada) se tornam o foco de uma lembrança contemplativa e, portanto, um gerador de um sentido de eu que está além da sobrecarga sensorial da cultura e da moda consumista. (HARVEY, 1994, p. 264).
Há neste estudo o cuidado de evitar falseamentos destas realidades. Trabalha-se somente com perfis que se remetam a sujeitos da pesquisa reais e que tenham confirmado seus dados presencialmente. Produto da sociedade que a fabricou, a fotografia adquire o status de documento quando é contextualizada junto a seus produtores e destinatários, conforme explica LEITE(2001). Este cuidado é adotado por saber-se que, na rede virtual de relacionamentos, de acordo com a sua colocação na hierarquia social, o indivíduo pode especificar uma realidade material fictícia, com a intenção de impressionar os internautas que acessarem as imagens por ele veiculadas.
A análise criteriosa das fotografias postadas como documento permite a recuperação da memória coletiva através do manuseio científico dos dados que as definem. O testemunho que elas trazem é prospectado neste estudo através das entrevistas com os blogueiros, desmistificando o significado aparente, flagrante, das imagens publicadas.
Os sujeitos entrevistados demonstram esforço em mostrar para a sociedade uma imagem de si mesmos e não cabe a esta pesquisa aprofundar se estão promovendo uma aparência enganadora. Cabe a este estudo apurar se houve uso de recursos técnicos elaborados- na manipulação ou falseamento- e citá-las como forma de expressão daquele indivíduo no meio social.
Enquanto signo, a fotografia é caracterizada pela natureza de classe do indivíduo que a produz, dentro de uma determinada comunidade virtual. Existe, em sua produção, a síntese de necessidades, interesses e estratégias de intervenção social do autor.
As fotografias são produzidas para atender a fins sociais e servem de instrumento para tecer relacionamentos nos domínios virtuais. Os retoques e correções estabelecem uma modalidade de expressão que se aproxima mais da estética do que da realidade nas fotografias veiculadas.
Todo o impacto da cibercultura está na simbiose paradoxal entre tecnicidade e socialidade. Ela pode ser mesmo compreendida como a expressão tecnocultural desta civilização virtual, pondo em marcha um processo de apropriação e de construção de tecnossocialidades ou cibersocialidades. Podemos dizer que
Os usuários não se contêm em se submeter à técnica. E seu papel supera aquele de escolhas elementares do tipo adquirir\não adquirir, ou utilizar bem\não utilizar (...) os novos objetos técnicos. São eles que, pelas práticas que eles vão progressivamente desenvolver e afinar, determinarão, no final das contas, a incidência efetiva das novas tecnologias sobre a transformação de suas vidas quotidianas. Existe aí um processo de reapropriação mais ou menos consciente das técnicas que o público nem concebeu nem explicitamente desejou. (MERCIER apud LEMOS, 2004, p.78).
A linguagem das fotografias publicadas nas redes sociais é caracterizada por ser virtual, visual, polifônica, dialógica, fluida, simbólica e comunicacional. O surgimento das redes interativas transforma a leitura de fotografias dos fotoblogs em um mecanismo dialógico de comunicação.
O receptor destas imagens é convidado a emitir sua opinião e a analisar as informações visuais que está recebendo. Este processo garante uma permuta de sensações despertadas, criando um relacionamento social reproduzido no espaço virtual, com reflexos também no espaço público.
Embora aparente perda de materialidade, a exibição e a circulação de fotografias nas redes sociais ganham status de instrumento pessoal de interação. Desde sua concepção como imagem digital, esta fotografia tem linguagem mais fluida, mais volátil, mais permeável, mais modificável, mais influenciável. “A gravação digital ocupa uma posição muito particular na sucessão das imagens, anterior a sua manifestação visível, não irreal nem imaterial, mas virtual”. (LÉVY, 1999, p. 54).
A relação do homem com o objeto retratado passa a ser uma simulação de outros aspectos da sua natureza que não estariam diretamente explorados nas imagens. A partir do código visual, pode-se interpretar o código escrito dos fotologs como mais fluido também. Acompanhada dos discursos articulados, a fotografia gera fotologs que encorajam um estilo espontâneo de escrever.
Estes enunciados – tanto de legendas (ou títulos) quanto de comentários- revelam muito sobre a identidade, o caráter e a personalidade de seus autores (figura 9). Esta condição amplia as possibilidades do processo de discussão da linguagem, leitura e interpretação das imagens, agregando-lhes um valor de análise que se aproxima do estilo de produção coletivo e participativo.
Figura 9 – Fonte: Orkut
“As mídias são suportes materiais, canais físicos nos quais as linguagens se corporificam e através dos quais transitam”. (SANTAELLA, 2003, p.25). No caso dos fotologs, esta situação vai possibilitar um relacionamento em que a mensagem e o canal utilizados configuram-se muito menos importantes que a imaginação despertada nos interlocutores, quando materializam seus pensamentos sobre as fotografias.
Um dos efeitos da interatividade gerada pelo diálogo dos fotologs é o componente polifônico das fotografias publicadas, porque possibilita e estimula que múltiplas vozes se articulem em torno de um discurso visual. A sua forma compartilhada permite que a polifonia seja mais importante que a informação.
O componente visual da linguagem de uma fotografia publicada nos espaços virtuais é composto por elementos que representam o seu simbolismo através de uma presentificação que se obtém com a criação de um contexto mental nos observadores.
As questões que norteiam este entendimento são estéticas e espaciais. Eminentemente tecnológica, a fotografia é composta por elementos visuais que a tornam capturável no espaço e no tempo. Transformam-se, assim, dados observados visualmente em situações testemunháveis e presenciáveis para além do tempo e do espaço destas capturas.
Os objetos visuais são regidos por leis perceptivas. O espectador tem uma abstração da realidade concreta enquanto observa as imagens reapresentadas. Sempre há uma relação entre a imagem concreta e seu destinatário concreto, mesmo virtualizada. Não é possível pensar nas imagens representadas nos fotologs sem fazer referência às imagens efetivamente existentes.
Não há propriamente desmaterialização da informação ou da imagem digital, mas sim virtualização. Embora o sistema digital seja mais leve e ocupe menos espaço que a fotografia tradicional, a imagem necessita de um suporte para existir: acontece que o suporte agora é outro, pois para ver a imagem em um computador ou imprimi-la, precisamos de um cabo USB ou da transferência por bluetooth, além de a manipulação ser feita utilizando um mouse.
O suporte da fotografia muda, mas precisa existir para que a imagem seja presentificada. Este é o caráter fluido da linguagem fotográfica explorada nestes espaços virtuais. O fluxo de comunicação é livre e democrático.
Esta experiência transforma o fotolog em uma obra aberta, que, embora possua uma dinâmica própria- uma arquitetura que permita responder ao estímulo das legendas (ou títulos) e dos comentários postados- reúne colaboradores que atendem diretamente aos seus fins, ampliando o número de possibilidades discursivas.
A perspectiva de análise da linguagem fotográfica presente nos fotologs conduz a uma consideração sobre o sujeito que observa, que olha, que contribui para a sua construção. Este estudo do olhar implica na observação sobre a seletividade do foco, pelo ângulo da atenção observacional e pela busca visual do seu autor.
A utilização desta linguagem digital não se define apenas pela cognição tecnológica, mas sim pela adequação social ao uso, que se traduz em comodidade, agilidade, praticidade e interatividade. A atenção ao olhar do espectador recebe um papel primordial e necessário para se entender os aspectos considerados no campo visual observado e os discursos articulados nos fotologs.
Não há como falar de linguagem digital sem pensar na cibercultura, que pode ser definida como a “forma sócio-cultural que emerge da relação simbiótica entre a sociedade, a cultura e as novas tecnologias de base micro-eletrônica”. (LEMOS, 2004, p. 12).
Há comunidades de relacionamento que estabelecem vínculos de interação tão significativos que a contextualização do evento se dá pela troca de mensagens em torno das imagens postadas. Ao contrário disto, quando uma imagem não recebe comentários, perde-se a comunicação, já que os dados apresentados tornam-se inconsistentes e isto reduz a contextualização das mesmas no espaço público.
É possível às pessoas que consomem atuarem também como produtoras. Isto se torna um ritual desafiador para os participantes que compõem estas comunidades virtuais. Por outro lado, se as trocas de informações passam a ser critério de visibilidade, considerando-se a partir daí a maior ou menor popularidade do blogueiro, então esta comunicação estabelece relações de consumo e trocas simbólicas.
Diário pessoal visual, álbum de fotografias, exposição de imagens de um grupo, os fotologs apresentam-se em uma dessas formas, ou podem ser tudo isso ao mesmo tempo, dependendo do interesse do usuário.
Há fotologs mais pessoais, com auto-retratos, fotos de festas com amigos, passeios com a família, muitas vezes sem preocupação técnica/estética em relação às imagens publicadas, com as legendas (ou títulos) apresentando as datas e pessoas reunidas no evento.
Em outros casos, as fotos não se restringem ao universo particular do autor e exploram mais as potencialidades estéticas e comunicativas da fotografia. Assim, temos imagens de animais, paisagens, objetos, fotos simuladas e manipuladas em software de edição de imagem e uso dos mais variados recursos da câmera.
Figura 10 – Fonte: Orkut
O registro do universo pessoal do fotógrafo (figura 10) pode aparecer em auto-retratos, fotos do quarto ou de objetos pessoais, mas não se restringe a isso. As legendas (ou títulos) podem ser menos extensas, ou mesmo nem existir. Todas estas características dependem da imagem, da mensagem que o usuário quer transmitir e do tempo disponível de dedicação à manutenção do blog.
Os visitantes que registram comentários, de modo geral, postam depoimentos que costumam girar em torno do conjunto de imagens do blogueiro que se relacionam com sua co- participação no evento publicizado (figura 11).
É bastante evidente a busca pela reciprocidade, uma vez que os comentários, embora assinados por vezes apenas com codinomes ou iniciais, indiquem que o visitante teve conhecimento ou cumplicidade naquele episódio retratado.
Também é público que tanto o proprietário do blog visitado como outros que venham a visitá-lo podem reconhecer a identidade daquele que postou o comentário. A opção de compartilhar um fotoblog com um grupo em que todos seus integrantes podem postar comentários é uma forma de (res)socialização.
Embora não seja necessário se identificar por dados concretos, em muitos casos descobrimos informações do autor do blog através das legendas (ou títulos) e dos comentários das fotografias ou dos marcadores de nomes.
A linguagem polifônica e dialógica da fotografia publicada no fotoblog tem como característica também propiciar uma oposição ao consumo massivo. A conexão participativa traz uma nova configuração comunicacional, onde o fator principal é a liberação do pólo da emissão, após séculos em que a sociedade viveu sob o controle e monopólio da comunicação pelos mass media.
A extensão e o adensamento das redes de transporte e de comunicação se manifestam por um processo de interconexão geral que implica um retraimento do espaço prático e, no mesmo movimento, uma aproximação dos humanos e um alargamento de suas perspectivas: eis, em suma, a essência do processo de planetarização. (LÉVY, 2001, p. 41).
Uma breve observação dos fotologs comprova que, mais do que apenas exibir imagens, o que vemos é um exercício da possibilidade de criar sentido através do diálogo. Mais do que orientar a exposição pública, os fotologs se traduzem em possibilidade de construir sentidos e significados. Este é o caráter simbólico da linguagem fotográfica ali inserida.
Daí a comemoração dos autores quando o fotolog registra um grande número de visitantes, ou quando uma foto é bastante comentada. Por isso a preocupação em manter o site atraente, atualizado com novas fotos, ou em visitar outros blogs e postar ali um comentário para trocar gentilezas e estabelecer relacionamento social.
Mas, juntamente com a polifonia e o simbolismo instaurados, o fotoblog permite uma troca para além das imagens e comentários. Tão importante quanto o conteúdo compartilhado, que resulta na qualidade das imagens ou dos depoimentos, é o ato mesmo de trocar.
Na troca de fotografias, vemos a relevância de se estar conectado e de estabelecer relações com o outro, trocando imagens de si, expondo-se. Mas há o interesse em exibir também imagens discursivas, pontos de vista sobre os mais variados assuntos que estimulam outros- scraps- e assim por diante, justificando os acessos aos fotologs para ver o que há de novo, ou para postar mais uma fotografia.
No próximo capítulo explica-se o conjunto de instruções que direcionaram a sequência dos procedimentos adotados nesta pesquisa, determinando o protocolo de investigação. Desta forma, permite-se a codificação e decodificação da informação discursiva contida em cada fotografia analisada.