desprovido de um aparelho capaz de externar as imagens desse “cinema” que se encontra dentro de cada um.
Quando se trabalha com fotografia é necessário considerar que se está diante de uma prática mediada por um aparelho, ou seja, “trata-se de imagem produzida por aparelhos” (FLUSSER, 1985, p. 10). A câmera e os equipamentos utilizados assumem relevância considerável, não apenas por mostrar os recursos técnicos acessíveis para o exercício da linguagem em determinado período, mas ainda por ser um elemento inserido entre o executor e seu objeto (SANDRI, 2007, p. 28).
Um mesmo dispositivo pode desempenhar distintos papéis conforme o momento histórico, como observado na camera obscura, que até o século XVIII representou um modelo clássico de ver o mundo privilegiando uma subjetividade interiorizada e determinista, passando no século seguinte a representar um modelo de visualidade assentado nas hesitações do corpo. Isso significa afirmar, segundo Carvalho (2007), que um dispositivo é capaz de sobreviver ao tempo, no entanto, não sem se ajustar aos regimes de visão e de subjetividade referentes a cada época. “A pluralidade de dispositivos na atualidade constitui um campo aberto de possibilidades e experimentações, e estas são capazes de produzir transformações na subjetividade humana” (CARVALHO,2007, p. 18-19). Seria correto afirmar, baseado no apoio teórico dos autores relacionados acima, que a evolução dos dispositivos na fotografia seria um dos fatores relevantes para os fotógrafos que se utilizam do acaso em seus trabalhos.
A seguir, descreve-se as evoluções dos dispositivos fotográficos numa narrativa cronológico-histórica, desde o advento da fotografia até sua mudança de suporte para o meio eletrônico, sendo esse tratado especificamente no quarto e último capítulo deste estudo.
assombra nossos pensamentos e assusta nosso olhos. Em cem anos, essa máquina será o pincel, a palheta, as cores, a destreza, a experiência, a paciência, a agilidade, a precisão, o colorido, o verniz, o modelo, a perfeição, o extrato da pintura...Não se creia que o daguerreótipo será a morte da arte... Quando o daguerreótipo, essa criança gigantesca, tiver alcançado sua maturidade, quando toda sua arte e toda sua força se tiverem desenvolvido, o gênio o segurará pela nuca, subitamente, clamando: Aqui!
Tu me pertences agora! Trabalharemos juntos” (BENJAMIN, 1987, p. 106).
Apesar de ter maravilhado nossos antepassados, o nascimento da fotografia não se deu de uma invenção abrupta, de uma vez, pois sua legitimidade provém da câmara obscura (SANTAELLA; NÖTH, 1998, p. 164). O princípio da câmera escura, 33 segundo Mannoni, é simples. De acordo com o autor, se for feito um pequeno orifício em uma parede ou na janela de uma sala totalmente escura, aquilo que estiver ao lado de fora desse ambiente, um objeto qualquer, será projetado para dentro, na parede oposta ao orifício (MANNONI, 2003, p. 31). Para Mauricio Lissovsky (2008, p. 22), já com a concepção da câmera escura passa-se a pertencer a uma nova forma de estar no mundo e de entendê-lo. Um mundo de imagens não mais visto diretamente pelos nossos olhos, mas mediado por um dispositivo. A defrontação entre o sujeito e o mundo, agora intermediado por uma prótese, especial e inovadora, assegurou um resultado imagético - a fotografia - que além de grande potencial estético, trouxe uma capacidade de propiciar o reencontro de diferentes pessoas em diferentes lugares e em diferentes tempos. “Essa é a magia do encontro do homem, situado num tempo e num espaço, com a eclosão de uma técnica que promove a experiência com o inesperado” (FERNANDES, s/d, p. 17).
Conforme observado por Mannoni,
O filósofo Aristóteles, ainda na Grécia antiga, chegou a observar tal fenômeno; no século XIII, a câmera escura era usada com um fim bem específico: a observação de eclipses e do sol, evitando danos aos olhos dos astrônomos. Os primeiros relatos sobre as suas utilidades para “captação”
imagética de objetos exteriores só irá acontecer entre os séculos XV e XVI, por Leonardo da Vinci. Entre 1521 e 1550, lentes biconvexas (arredondadas dos dois lados) passam a ser postas nas aberturas das câmeras escuras,
Lúcia Santaella usa o termo câmara obscura. Outros autores usam termos diferentes para o mesmo
33
significado: câmera escura (português brasileiro), câmara escura (português europeu) e camera obscura do latim.
melhorando consideravelmente a qualidade das imagens obtidas (MANNONI, 2003, p. 32-34).
Descrições de ambientes escuros com orifícios que projetam imagens em seu interior existem já na Renascença, mas há também referências deste conhecimento entre os chineses, árabes, assírios e babilônios (SALLES, 2008, s/p). Em todo caso, a câmara escura foi frequentemente usada no período da Renascença e nos séculos XVII e XVIII para o estudo da perspectiva na pintura, em que o “papel do artista consistia apenas em fixar essa imagem com pincel e tinta” (MACHADO, 1997, p. 226), só que já dispunha de avanços tecnológicos típicos da ciência renascentista, como lentes e espelhos para reverter a imagem, que se projetava de cabeça para baixo, devido às leis da física. “A câmara escura só não podia estabilizar a imagem obtida” (SALLES, 2008, s/p), ou seja, não era possível fixar, ou gravar, em nenhum suporte, essa imagem. Seria função da química resolver esse processo com o estudo dos materiais fotossensíveis. “Fotossensibilidade é um fenômeno que quer dizer, literalmente, 'sensibilidade à luz'” (SALLES, 2008, s/p). É certo que toda matéria existente é sensível à luz, ou seja, modifica-se a partir dela. Esse fenômeno pode ser verificado, por exemplo, quando um tecido desbota no sol, ou quando a tinta de uma parede que vai aos poucos perdendo a cor, de maneira que todos os cientistas que buscaram de alguma forma fixar uma imagem iniciaram suas pesquisas com um produto muito conhecido e considerado o mais propício para tal: os sais de prata (SALLES, 2008, s/
p).
A grande dificuldade no advento da fotografia, para que o termo “escrita com luz”, do grego photo (luz) + graphia (escrita), pudesse se tornar realmente possível, foi encontrar uma maneira de fixar essas imagens projetadas nos materiais sensíveis. Já existia um dispositivo (a câmera obscura), já se conheciam materiais químicos sensíveis à luminosidade (sais de prata), faltava então para os pesquisadores descobrirem como manter visíveis as imagens ao longo do tempo. Seria a busca pela permanência da imagem. De acordo com Roland Barthes, no sentido da técnica, a fotografia está no entrecruzamento de dois processos completamente separados; um é
de ordem química, com a ação da luz sobre certas substâncias; outro é de ordem física, com a formação da imagem através de um dispositivo óptico (BARTHES, 1984, p.
21). Barthes coloca que a camera obscura é somente uma das causas da fotografia ter acontecido; o principal, para ele, foi a descoberta no campo da química (BARTHES, 1984, p. 52).
Diz-se com freqüência que são os pintores que inventaram a Fotografia (transmitindo-lhe o enquadramento, a perspectiva albertiniana e a óptica da camera obscura). Digo: não, são os químicos. Pois o noema “Isso foi” só foi possível a partir do dia em que uma circunstância científica (a descoberta da sensibilidade dos sais de prata à luz) permitiu captar e imprimir diretamente os raios luminosos emitidos por um objeto diversamente iluminado. A foto é literalmente uma emanação do referente (BARTHES, 1984, p.120-121).
Interessante notar que Arlindo Machado tem um pensamento quase oposto ao de Barthes. Conforme Machado,
a invenção da fotografia não pode ser confundida com a descoberta das placas sensíveis à luz e por isso a data de 1826 (quando Niépce registra ou fixa a imagem na chapa fotográfica pela primeira vez) é arbitrária para designar o nascimento do processo. A fixação fotoquímica dos sinais de luz é apenas uma das técnicas constitutivas da fotografia; a câmera fotográfica, porém, já estava inventada desde o Renascimento, quando proliferou sob a forma de aparelhos construídos sob o princípio da camera obscura (MACHADO, 1984, p. 25).
Em síntese, parece que no discurso desses dois autores, a soma dos fatores camera obscura mais os processos químicos das placas fotosenssíveis, teria sido a chave para o nascimento da fotografia. Sem o uso do conhecimento da camera obscura não haveria, possivelmente, a evolução dos dispositivos. Por outro lado, para Barthes, sem os químicos, não haveria a evolução dos suportes para fixação da imagem.
Já se pressentia a chegada da fotografia, com vários pesquisadores trabalhando de forma independente, em países diferentes, visando o mesmo objetivo: “fixar as imagens da câmera obscura” (BENJAMIN, 1987, p. 91). Passado certo tempo, já no século XVIII, a Revolução Industrial introduziu a lógica do trabalho em série. As mudanças econômicas, sociais e políticas não foram as únicas a traduzir e influenciar
nos rumos da história moderna. No século XIX, em 1839, na cidade de Paris, Louis Daguerre inventava um dispositivo capaz de registrar, já não mais artesanalmente como na pintura, as imagens do mundo exterior – o daguerreótipo (JR., 2009, s/p). Por ser um objeto único de apreço, o daguerreótipo foi muitas vezes guardado em requintadas caixas de veludo, “como uma verdadeira jóia” (BENJAMIN, 1994, p. 93).
O daguerreótipo, na definição de Benjamin,
eram placas de prata, iodadas e expostas na câmera obscura; elas precisavam ser manipuladas em vários sentidos, até que se pudesse reconhecer, sob uma luz favorável, uma imagem cinza-pálida. Eram peças únicas; em média, o preço de uma placa, em 1839, era de 25 francos-ouro” (BENJAMIN, 1987, p. 93).
A “invenção do ‘notável e maravilhoso’ daguerreótipo” (DYER, 2008, p. 193), porém não foi o primeiro a ser registrado na história da fotografia. Alguns anos antes, em 1816, Joseph Nicéphore Niépce já havia experimentado outros suportes, como o papel, o vidro e a pedra, usando-os como materiais fotossensíveis expostos à luz inseridos numa caixa escura, velada. “Assim foi inventada a fotografia, em 1826, por Nicéphore Niépce” (FREUND, 1989, p. 37). Com o surgimento da fotografia, “pela primeira vez no processo de reprodução da imagem, a mão foi liberada das responsabilidades artísticas mais importantes, que agora cabiam ao olho” (BENJAMIN, 1987, p. 167), dando forma assim a um dispositivo sutil e elaborado, com o qual o registro da realidade passou a ser visível a um simples toque de botão (SANTAELLA, 2008, p. 39). Em princípio, quando surgiu, a fotografia não exigia habilidade ou sensibilidade para ser executada, era uma função prioritariamente tecnológica. Não era necessário a seu operador ser dotado de excelência nas mãos para produzir imagens, mas possuir conhecimento sobre de que forma operar o novo instrumento (SOUZA E SILVA, 2012, s/p).
Segundo os dados históricos, Daguerre e Niépce trabalharam juntos nas pesquisas por um processo fotográfico eficiente, firmando sociedade em 1829 (SALLES, 2008, s/p). A sociedade entre os dois tinha por objetivo o aprimoramento das técnicas até então desenvolvidas, mas ambos trabalhavam em sentidos contrários,
visto que Nièpce procurava uma forma da imagem ser copiada, reproduzida, e Daguerre, como era pintor, tinha ideologias por uma imagem satisfatória e única. Não conseguiram sucesso juntos, e quatro anos após a sociedade, com a morte de Niépce em 1833 (SALLES, 2008, s/p), Daguerre se apossa da invenção do falecido (BARTHES, 1984, p. 53) e a aperfeiçoa.
Os métodos de Niépce eram lentos em relação aos de Daguerre, que desenvolveu placas de nitrato de prata com maior sensibilidade à luz, acelerando, para a época, a corrida pela “produção de “efeitos realistas”, ou seja, imagens mecânicas, autônomas, sem a intervenção da mão do pintor” (JR., 2009, s/p). O problema dos compostos de sais de prata era que, mesmo com a rapidez na fixação da imagem, esta era por demais rudimentar, e não permanecia por muito tempo. Daguerre conseguiu resolver este impasse, segundo ele próprio, por acaso (SALLES, 2008, s/p). Depois de um dia exaustivo de trabalho e decepcionado por não conseguir obter resultados satisfatórios, Daguerre guarda uma das chapas num armário, esquecendo dela por alguns dias. Certo dia, ao abrir o armário depara-se com uma imagem impressa nela, que antes não estava lá. Procurando a razão do fato desconfiou que havia sido o mercúrio de um termômetro que havia se quebrado. Fez alguns testes e o resultado foi o daguerreótipo (SALLES, 2008, s/p). Finalmente, havia sido contornado o problema da nitidez e da fixação. É ao pintor Daguerre que se deve o mérito de ter aperfeiçoado o processo sugerido por Niépce, tornando-o disponível a todos (FREUND, 1989, p.
38). É muito provável que essa descoberta casual da “imagem latente” , por Daguerre, 34 em 1835, tenha colaborado para associar a fotografia a uma técnica de “tornar visível” (LISSOVSKY, 2008, p. 23).“De modo geral, a presença da imagem latente como mediação entre a experiência e a imagem consumada nos fala de esperança e desejo: das esperanças e desejos que depositamos em um ato de expressão cujo
A “imagem latente” (latens, em latim, “escondido”) é, para Fontcuberta um dos fundamentos mais
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poéticos da fotografia. Ao impressionar o filme ou o papel fotográfico, a luz que incide nas substâncias fotossensíveis deixa um leve rastro, que é a imagem em potência, mas que permanece ainda invisível ao olho. Falando de forma mais precisa: a luz afeta os sais de prata suspensos na emulsão fotossensível oxidando um certo número de moléculas, as quais se decompõem e produzem por sua vez moléculas de gás halogênio e átomos de prata (FONTCUBERTA, 2012, p. 38). Ao entrar em contato com banhos químicos, essa imagem “escondida” é “revelada” e se mostra.
resultado permanece no terreno da incerteza” (FONTCUBERTA, 2012, p. 39-40).
Incerteza que só aliviará a ansiedade da espera depois de revelado o filme, por isso, para Fontcuberta, “a imagem latente não é somente o esboço de um registro, é uma promessa de felicidade” (FONTCUBERTA, 2012, p. 41).
No momento em que a fotografia ingressa no domínio público surgem inventores em outras partes para reclamar o mérito da invenção. No Brasil com Hércules Florence, na França com o funcionário Bayard e na Inglaterra com Talbot, os dois últimos conseguindo um processo fotográfico sobre papel, por intermédio do iodeto de prata e do cloreto de prata, respectivamente. O que demonstra que a fotografia corresponde às necessidades do seu tempo. A nova invenção acaba despertando a atenção e o interesse dos meios da sociedade; todavia, as suas limitações técnicas e os custos elevados representados no início para o processo apenas a tornavam acessível, provisoriamente, à burguesia (FREUND, 1989, p. 40).
Um último capítulo relevante desse desenvolvimento e aperfeiçoamento dos processos fotográficos foi feito através de George Eastman, que imaginou como poderia tornar a prática da fotografia mais eficiente se encontrasse uma maneira de abreviar o processo todo (SALLES, 2008, s/p). Eastman teve a ideia de substituir a chapa de vidro por uma base flexível de nitrocelulose, e emulsionou o primeiro filme 35 em rolo da história, disponibilizando aos fotógrafos a chance de obter várias chapas em um único rolo. Construiu para isso uma pequena câmara que ele chamou de Kodak, lançada comercialmente em 1888 (SALLES, 2008, s/p). Depois de feitas as fotos com a Kodak, terminado o rolo, o fotógrafo só precisaria mandar a câmara para o laboratório de Eastman, que receberia seu negativo, cópias positivas em papel e a câmara com um novo rolo de 100 poses (SALLES, 2008, s/p). Seu slogan era: Você aperta o botão, nós fazemos o resto. A primeira câmera popular barata foi disponibilizada um pouco depois, no mesmo ano de lançamento da Kodak. A rapidez
A emulsão nada mais é do que um colóide sensível à luz, aplicado a um substrato, que, no caso dos
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filmes modernos, trata-se de cristais de haleto de prata, que é um grupo de compostos de prata com bromo, cloro e iodo (ADAMS, 2001, p. 31), suspensos em uma substância gelatinosa que por sua vez está aplicada a uma película de material plástico, vidro ou tecido (hoje em dia pode-se encontrar emulsões líquidas que podem ser aplicadas a qualquer superfície porosa) (BATISTA, 2011, p. 3).
com que os usos possíveis da fotografia foram descobertos é seguramente “indicação da aplicabilidade central e profunda da fotografia ao capitalismo industrial” (BERGER, 2003, p. 53).
Um dos grandes inconvenientes dos primeiros equipamentos fotográficos nos seus primórdios era, sem dúvida, o peso. Os primeiros aparelhos, vendidos por fabricantes de instrumentos e que tinham sido construídos por Daguerre, eram grandes,
“pesando, com todos os acessórios, precisamente cinquenta quilos” (FREUND, 1989, p. 41). Já pelo fim do ano de 1839 o barão Séguier construía um aparelho cujo volume e peso eram um terço dos aparelhos de Daguerre. O peso desses aparelhos, que não superavam a marca dos catorze quilogramas eram, a bom rigor, portáteis (FREUND, 1989, p. 41). As máquinas fotográficas eram ainda extremamente pesadas nessa época.
Os fotógrafos eram escolhidos mais pela força física do que pelo seu talento (FREUND, 1989, p. 109).
Ao descrever resumidamente um pouco da história da invenção e desenvolvimento da fotografia - necessária para que o leitor se familiarize com alguns termos e conceitos da evolução tecnológica ocorrida nesse meio -, aborda-se, a seguir, na continuidade das mudanças dos processos fotográficos, a busca pelos pesquisadores pela melhora dos tempos de exposição à luz dos suportes, implicando em tempos mais curtos e, a partir de então, tornando a fotografia instantânea.