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1 CRÍTICA DE PROCESSO: CAMINHO TEÓRICO-METODOLÓGICO

2.2 DOCUMENTOS COMO TESTEMUNHA DE UMA DINÂMICA CRIADORA

2.2.2 Fotografias e arquivos digitais

A fotografia é uma maneira de capturar – por meio da ação da luz – uma imagem em um momento específico, uma fração do mundo no tempo e no espaço. As imagens fotográficas registram o modo de viver, de pensar, sentir e agir do homem, sob o olhar de quem as produziu. Como elemento comunicativo, essas imagens têm o poder de revelar fatos, acontecimentos e obras. Os Registros de Obras de Arte, por meio de fotografia, são recursos que o profissional de artes plásticas tem à sua disposição para guardar e gerenciar suas criações. Como documento visual, a fotografia tem um amplo valor indicial, à medida que permite investigar acerca da natureza, não só da obra, mas também da própria imagem como representação dos modos como vemos e mostramos o mundo. Para compreendermos o lugar e as especificidades das imagens fotográficas no processo de criação de Rodrigues, analisaremos as fotografias que compõem este dossiê.

Sendo a fotografia uma imagem produzida por dispositivo tecnológico, faz-se necessário observar os avanços ocorridos nesse campo nas últimas décadas. Referimo-nos aqui à evolução dos equipamentos fotográficos e a substituição das câmeras analógicas pelas câmeras digitais. As imagens que antes eram capturadas

pelas máquinas analógicas, precisavam ser reveladas e ampliadas para se obter a fotografia materializada sobre o papel. Somente após esses procedimentos é que o fotografo saberia se: ângulo, enquadramento e iluminação revelariam a imagem como ele desejou capturar. Um processo demorado que dependia de profissionais especializados na revelação e ampliação. Os filmes tinham um número limitado de poses e os resultados, passíveis de falhas, só seriam descobertas dias depois. A partir da década de 1980, aos poucos, as câmeras analógicas foram sendo substituídas pelas máquinas digitais que revelam imediatamente o resultado da imagem capturada. Nos dias de hoje, com esses novos equipamentos, o número de fotografias que pode ser tirada não se limita mais às trinta e seis poses do filme analógico, sendo possível tirar, dependendo da resolução das imagens, uma grande quantidade de poses de uma só vez. No entanto, na maioria das vezes, somente as imagens selecionadas para um fim específico são impressas, ficando a maioria das fotos armazenadas em computadores, disquetes, CD ou cartões de memórias, permanecendo, portanto, como arquivos digitais.

Observamos que as imagens fotográficas que compõem esse dossiê, de certa forma, acompanham essas mudanças tecnológicas. Podemos, com facilidade, separar esses registros em dois grupos distintos de documentos. O primeiro composto pelas imagens que foram ampliadas ou impressas sobre papel e slides, utilizados nos antigos projetores de imagem. No segundo grupo, colocamos os registros que se mantiveram em forma de arquivos digitais.

O primeiro grupo, é formado por: uma caixa de madeira – que chamaremos de Caixa Portfólio (Figura 26) – contendo 27 fotos coladas sobre paspatur de trabalho da década de 1980 (Figuras 27a, 27b, 27c, 28a, 28b e 28c); 25 fotografias avulsas, uma no tamanho 10x15 e as demais em tamanhos maiores de obras da década de 1990, algumas coladas em paspatur outras não; 15 slides de obras da década de 1990; dois catálogos, um produzido por Rodrigues com apoio da UFES contendo imagens fotográficas de obras de 1993 até 2007, e outro produzido para a exposição Transumância (2015), realizada em Portugal; um convite da exposição e um cartão postal. Com exceção do catálogo da exposição Transumância, todos os documentos são anteriores a 2007.

Figura 26: Caixa portfólio 1991. Fonte: Documentos de processos da artista. Foto Tatiana Campagnaro.

Figura 27 a, b e c: Trabalhos na caixa portfólio, cerâmica esmaltada, 1986-87. Na sequência da esquerda para a direita: Fêmea, 39X37 12 cm; Ki Tesão, 35X38X10 cm; Dentro de um homem existe sempre um lado mulher, 34x40x13 cm.

Fonte: Documentos de processo da artista.

Figura 28 a, b e c: Série pratos, cerâmica esmaltada, 19 cm de diâmetro cada, 1989. Na sequência da esquerda para a direita: Prato I, Prato III e Prato VIII.

O segundo grupo é composto por arquivos de imagens digitais encontrados em pastas e subpastas no HD do notebook de Rodrigues e incluem desde: imagens de obras do início de sua carreira, que foram digitalizadas; fotos de trabalhos em execução; fotografias de obras e de exposições da artista, assim como imagens digitais encontradas em outros tipos de arquivo como: arquivos de texto, e PowerPoint. Incluímos também nesse grupo todas as imagens referentes à artista disponíveis na internet.

Voltamos nossa atenção para as fotografias, sem nos preocuparmos nesse primeiro momento com as obras ali registradas. Nosso objetivo foi entender como essas fotografias, que foram encontradas em locais e momentos distintos da pesquisa, se relacionavam umas com as outras.

Observamos que todas as fotos do primeiro grupo de alguma forma haviam passado por um critério de seleção. Chegamos a essa conclusão partindo do princípio que apenas uma seguia o formato padrão das lojas fotográficas da época (10x15), portanto, havia sido retirada do restante do grupo revelado. As demais, foram ampliadas em proporções maiores ou coladas sobre paspatur, indício de que serviriam para algum tipo de apresentação. Além disso, todas apresentam uma excelente qualidade fotográfica, sem problemas de foco, enquadramento ou contraste e em sua maioria foram enquadradas em plano fechado. Essas tomadas em close capturaram as nuances de cor e textura dos materiais utilizados nas obras. Ao que parece, Rodrigues, ao selecionar as imagens para ilustrar seus trabalhos, privilegiou os detalhes em detrimento da forma como um todo. A nosso ver, uma forte evidência da importância, para a artista, dos elementos relacionados à materialidade dos objetos.

Já no segundo grupo, onde os arquivos digitais não foram selecionados, encontramos imagens de situações e obras que fogem ao padrão de qualidade das fotos do primeiro grupo. Em sua maioria, essas imagens registram o processo de construção das obras e, em especial, o momento no qual a artista trabalhou a cerâmica em diálogo com o vidro. Possivelmente uma necessidade que surgiu da exigência de relatórios periódicos, a serem entregues à SECULT.

Assim, concluímos que as fotografias do primeiro grupo são imagens filtradas, que só nos permitiram ver o que foi selecionado pelo olhar de Rodrigues. Tais imagens nos revelam as preferências da artista em relação ao seu próprio trabalho. No segundo grupo, os arquivos digitais nos permitem ter uma visão, de certa forma,

mais imparcial de seus trabalhos. São registros que documentam as obras em contínua transformação e que nos permitiram ver os procedimentos utilizados pela artista sem nenhum tipo de censura. Esses arquivos nos possibilitaram visualizar o processo em uma perspectiva mais ampla, por exemplo, como a artista vai manuseando e moldando os materiais de acordo com seus desejos, revelando as tendências desse movimento.