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Foucault e o discurso: processos de subjetivação

No documento nayararioscunhasalvador (páginas 37-43)

1.2 Identidades em fluxo: A força da linguagem (e da língua)

1.2.1 Foucault e o discurso: processos de subjetivação

Foucault (2008) propõe a descrição dos acontecimentos discursivos para compreender as unidades que dele se formam. Com isso, interessa ao autor demarcar as regras que permitem a existência de novos enunciados, de enunciados possíveis. Ou ainda:

[...] trata-se de compreender o enunciado na estreiteza e singularidade de sua situação; de determinar as condições de sua existência, de fixar seus limites da forma mais justa, de estabelecer suas correlações com os outros enunciados a que pode estar ligado, de mostrar que outras formas de enunciação exclui. Não se busca, sob o que está manifesto, a conversa semi-silenciosa de um outro discurso: deve-se mostrar por que não poderia ser outro, como exclui qualquer outro, como ocupa, no meio dos outros e relacionado a eles, um lugar que nenhum outro poderia ocupar. A questão pertinente a uma tal análise poderia ser assim formulada: que singular existência é esta que vem à tona no que se diz e em nenhuma outra parte? (FOUCAULT, 2008, p. 24-25).

Considera-se, dessa maneira, que a análise do campo discursivo proposta por Foucault (2008) não busca compreender o que se quis dizer com certo discurso

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Compreende-se como atividades semióticas aquelas que envolvem todas as linguagens possíveis, ou seja, os modos de constituição de todo e qualquer signo como fenômeno de produção de significação e de sentido (MELO; MELO, 2015).

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O autor usa a palavra Discursos com D maiúsculo para referir-se à práticas que não são apenas linguísticas, mas que unem a linguagem posta em ação em contextos de interação, atravessados por valores, crenças, pensamentos etc. Ele reserva a palavra discurso, com d minúsculo para referir-se ao uso da língua, puro e simples.

e sim determinar as condições de existência deste discurso e suas relações com outros discursos. Assim, a formação discursiva seria "regida" por um conjunto de "[...] relações estabelecidas entre instâncias de emergência, de delimitação e de especificação." (FOUCAULT, 2008, p. 38); de forma que existem condições históricas e culturais que possibilitam certos discursos em determinadas épocas e são tais regras de existência que permitirão que sujeitos e objetos, e o sujeito como seu próprio objeto em seu processo de subjetivação, possa "[...] definir sua diferença, sua irredutibilidade e, eventualmente, sua heterogeneidade; enfim, ser colocado em um campo de exterioridade.” (FOUCAULT, 2008, p. 39).

Pode-se dizer que, para além de nomear coisas, através de signos, como sugeriu Saussure, os discursos lhes garantem exterioridade, lhes fazem existir. Assim, segundo Foucault (2008, p. 42), não nos cabe tratar os discursos apenas como emaranhados de signos linguísticos, mas como práticas que vão além de designar coisas; elas formam os objetos que designam. .

Vale ressaltar que esses discursos possíveis, tomados como regimes de verdade em determinados contextos históricos, são efeito de relações de poder e, a partir delas, produzem os objetos sobre os quais falam. Seguindo o rastro de Foucault (1988, 1999b) e de Austin (1962), Butler (2004), conforme já elucidado, afirma que existem atos de fala que trazem ações e/ou pessoas à existência. Segundo ela, a língua que um falante faz uso não é apenas um meio de expressão, mas um modo de dar existências às coisas e às pessoas, que excede o sujeito, está ali, antes e depois de sua existência e é sua condição de existência. No mesmo sentido, Foucault (1988, p. 88) relata:

Sem dúvida, devemos ser nominalistas: o poder não é uma instituição e nem uma estrutura, não é uma certa potência de que alguns sejam dotados: é o nome dado a uma situação estratégica complexa numa sociedade determinada.

De acordo com Gee (2007), é através dos Discursos que as identidades passam a ser visíveis, socialmente reconhecidas. Assim, o autor, em sua comparação dos Discursos com kits que englobam palavras, coisas, valores, atitudes, etc, faz uso de um exemplo que nos ajuda a pensar sobre como os Discursos trazem à tona as identidades: o autor pergunta como é possível reconhecer uma boneca Barbie ou um boneco Ken, sem o logo da marca. Ele explica, então, que existem algumas características, tipos de roupas e acessórios

que pertencem ao universo "Barbie/Ken". Há alguns valores e atitudes específicos que podem ser reconhecidos e, dessa maneira, constroem os significados sobre o que é uma Barbie/um Ken; significados que todos partilham por serem sociais e históricos.

No mesmo sentido apontado por Gee (2007), Louro (2000) afirma que os sujeitos são constituídos por múltiplas e distintas identidades (raça, nacionalidade, classe, etc), formadas a partir de diversas situações, instituições e agrupamentos sociais, de modo que somos sujeitos de identidades transitórias, de caráter fragmentado e instável. Tais identidades, permeadas por questões como etnia, nacionalidade e classe são reconhecidas como identidades sociais.

Ainda neste sentido, Butler (2004) aponta que as identidades passam a ser reconhecíveis e passíveis de sobrevivência, através dos efeitos e instrumentos de um ritual social que decide, muitas vezes não sem violência, as condições linguísticas dos sujeitos aptos à vida.

A autora aponta que o poder construtivo dos atos performativos de fala está em sua habilidade de estabelecer um sentido prático para os corpos e não apenas de definir o que são esses corpos. Os performativos definem os espaços que esses corpos podem ou não ocupar, sua "localização" mediante as coordenadas culturais vigentes naquele momento.

Retomando Foucault (1999b; 2008), no que diz respeito ao discurso, as regras de poder se dão de forma que cada sociedade elege, a partir sua "política geral" de verdade, aqueles tipos de discursos que serão ouvidos e considerados verdadeiros ou falsos. Estes discursos e regimes de verdade aceitos por determinadas sociedades, em determinadas épocas, produzirão saberes e identidades; produzirão sujeitos.

[...] suponho que em toda a sociedade a produção do discurso é simultaneamente controlada, selecionada, organizada e redistribuída por um certo número de procedimentos que têm por papel exorcizar- lhe os poderes e os perigos, refrear-lhe o acontecimento aleatório, disfarçar a sua pesada, temível materialidade (FOUCAULT, 1999b, p.9).

Percebe-se que o discurso não é um fenômeno neutro, mas aquele em que os poderes são exercidos, portanto ele não é apenas algo que traduz as lutas, mas sim algo em disputa, do qual os sujeitos desejam apropriar-se.

Eni Orlandi (2003) afirma, no mesmo sentido de Foucault (1999b), que há um conjunto de formações discursivas que se fazem dominantes e que essas formações discursivas se dão através das relações. Assim, o sujeito compreende o sentido das coisas por meio de sua relação com a língua e com a história, sem, no entanto, que suas interpretações sejam neutras. Todas elas estão permeadas por possibilidades e condições de ocorrência dos discursos de modo que o sujeito só se torna o que é através de sua construção e interpretação dos sentidos em um contexto linguístico e histórico. "Se ele não se submeter à língua e à história, ele não se constitui. Ele não fala, não produz sentidos." (ORLANDI, 2003, p. 49). Hall (2016) ressalta esse aspecto ao afirmar, ancorado em Foucault, que nada tem sentido fora do discurso, trazendo a ideia de que as coisas materiais, as pessoas e as ações físicas existem, porém, só se tornam inteligíveis dentro do discurso, pois é ele, e não as coisas em si mesmas, que produzem o sentido.

Pode-se dizer, entretanto, que há algumas instâncias ou condições que permitem a existência dos discursos. Assim, há uma série de regras para que as pessoas tenham acesso aos discursos ou possam fazer uso deles, ocasionando uma "rarefação" dos sujeitos que falam e de certos tipos de discurso (FOUCAULT, 1999b). Nesse sentido, se estamos de acordo com a proposição de Orlandi (2003) e Hall (2016) que relatam que o sujeito se constitui através da história e da linguagem, podemos inferir que uma vez que alguns sujeitos e alguns discursos são rarefeitos, assim são também suas constituições identitárias. Foucault (1999b), que ofereceu subsídios reflexivos para essa/e autor/a, afirma que os discursos dão origem a papéis pré-estabelecidos, que só podem ser ocupados por sujeitos com algumas propriedades singulares.

Nesse contexto, situa-se no trabalho de Foucault (1978), por exemplo, o surgimento da identidade do "louco", cujo discurso não é válido, é nulo e não acolhido e cuja existência é pronunciada e exteriorizada justamente através de um discurso tido como verdadeiro: o discurso da medicina.

Para além da identidade do louco, existente apenas a partir de regimes de verdade e práticas discursivas consideradas possíveis, Foucault (1988) debruça-se, ainda, sobre os regimes de verdade com relação ao sexo e demonstra a existência de um intenso sistema de regulação do que é possível, não só nos discursos, mas nas vivências da sexualidade, que permitem, como possíveis, apenas os casais

heterossexuais com condutas sexuais discretas. Por outro lado, algumas formas de ser e estar; algumas identidades sexuais8, não são possíveis nesses regimes de verdade, conforme aponta:

Em compensação o que se interroga é a sexualidade das crianças, a dos loucos e dos criminosos; é o prazer dos que não amam o outro sexo; os devaneios, as obsessões, as pequenas manias ou as grandes raivas. Todas estas figuras, outrora apenas entrevistas, têm agora de avançar para tomar a palavra e fazer a difícil confissão daquilo que são. Sem dúvida não são menos condenadas [...] (FOUCAULT, 1988, p. 38-39).

Conforme o filósofo, as sociedades do ocidente, através das instituições de poder formadas na Idade Média - a Monarquia, o Estado e seus aparelhos - lançaram sobre os sujeitos uma demanda de verdade com relação ao sexo. Não ao sexo-natureza, como uma demanda biológica, como se refere o autor, mas ao sexo- história, ao sexo-discurso. Assim, o poder, fixado através de práticas discursivas adotadas como regimes de verdade, naquele momento histórico, passou a instituir sobre os sujeitos e sobre o sexo, uma força, dotada de algumas características:

- A relação negativa: Segundo Foucault (1988), a relação do poder com o sexo é sempre de negação, recusa ou ocultação, de forma que busca separar o que está junto, produzir descontinuidades e delimitar fronteiras.

- A instância da regra: Por meio da linguagem, através do discurso jurídico, o poder faz-se regra. Assim, o que pode ou não pode ser dito ou feito em relação ao sexo passa a estar especificado através de um discurso jurídico binário: lícito/ilícito.

- O ciclo da interdição: O "não". Não toque, não seja, não tenha prazer, não viva. Caso exista, faça-o escondido, em segredo. Para Foucault (1988), o poder se impõe sobre o sexo por meio da ameaça de sua supressão. Não exercer a sexualidade e, portanto, não existir como pessoa. Esse é o castigo: para que existas, não pode exercer sua sexualidade. Mas isso não é por si só, uma forma de não existir? Sobre isso nos diz Foucault: "O poder oprime o sexo exclusivamente através de uma

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Segundo o livro "Gênero e Diversidade na Escola", produzido pelo MEC (BRASIL, 2009), a identidade sexual refere-se a duas questões: o modo como a pessoa se percebe em termos de sua orientação sexual, às pessoas que elege como objetos de desejo e afeto; e, também, a forma como ela torna pública, ou não, essa percepção de si em determinados ambientes e situações.

interdição que joga com a alternativa entre duas inexistências (FOUCAULT, 1988, p. 81).

- A lógica da censura: mais uma vez, as práticas discursivas como forma de trazer à existência ou silenciar certos tipos de vivências. Segundo o autor, essa interdição tende a tomar três formas: "[...] afirmar que não é permitido, impedir que se diga, negar que exista." (FOUCAULT, 1988, p. 81). Ou seja, não se deve agir, não se deve falar, até que sua existência seja banida do real, torne-se inexistência.

- A Unidade do dispositivo: O dispositivo de poder é homogêneo. Dessa forma, havendo a lei que o mantém, todos os sujeitos são por ela "sujeitados" e, devem, assim, obedecer. "[...] quer se trate do súdito ante o monarca, do cidadão ante o Estado, da criança ante os pais, do discípulo ante o mestre — a forma geral da submissão. Poder legislador, de um lado, e sujeito obediente do outro." (FOUCAULT, 1988, p. 81)

A partir do século XIX, surge uma intensa crítica contra os sistemas de regulação baseados nas regras do direito, com o argumento de que tais sistemas não passavam de formas de fazer funcionar, a partir do texto da lei, dissimetrias e injustiças. Ocorre que, a figura do poder manteve-se, a partir de novos mecanismos, que substituíram a lei pela normalização e o castigo pelo controle, ainda sobre a égide do poder do discurso; da linguagem.

O que se percebe, então, é que todas as formas de constituição das identidades e de diferentes tipos de representação e vivências, são atravessadas, quando não "reguladas", "legisladas" por práticas discursivas. Desde nossa compreensão como nós mesmos/as, nosso olhar obre o/a outro/a, as formas de ser e estar no mundo visíveis ou invisíveis (como o louco, o deficiente), as formas de viver a sexualidade permitidas ou proibidas, tidas como possíveis ou impossíveis (o hétero/ o homo), as questões relacionadas à raça e etnia, enfim, todas essas questões serão existentes através de práticas discursivas, através de Discursos que podem ou não surgir dependendo do momento histórico e do contexto cultural, que também se constitui a partir da linguagem.

Neste sentido, Orlandi (2003) traz um pensamento baseado em Foucault (1988, 1999b), ao afirmar que o sujeito é produto da história e do discurso; ele sofre

as determinações de modos de assujeitamento na sua historicidade e em relação às variadas formas de poder. É na relação do sujeito com a língua, com a cultura e a história que surgem os sentidos e as condições de produção do discurso.

No documento nayararioscunhasalvador (páginas 37-43)