CAPÍTULO 1 DIRETRIZES TEÓRICAS
1.5. FOUCAULT E O SUJEITO
Diversos autores buscaram compreender este conceito, como Marx e Kant, mas em Foucault identificamos o conceito de sujeito que nos interessa para esta análise. A concepção de sujeito está associada às concepções de ideologia e poder, por isso, não é possível compreendermos o sujeito desassociando-o destes conceitos, o sujeito se constitui por meio de discursos ideológicos e pela sua relação de poder com a sociedade em que vive, por meio do discurso e se faz ouvir e expressar, e o poder define sua posição dentre da sociedade, quem fala, de onde fala, por que fala, são questionamentos que definem o sujeito como um ser social.
Desde a antiguidade clássica, onde encontramos as primeiras grandes análises sobre essa questão, a concepção de sujeito assume diversos contornos. Na Grécia, a concepção de sujeito estava associada ao conceito de cidadania. Durante a Idade Média, o sujeito esteve associado a fatores religiosos. Na era moderna, com os avanços tecnológicos e a revolução industrial, o sujeito tornou-se uma massa a ser manipulado pelos interesses burgueses.
O sujeito contemporâneo, neoliberal, tornou-se individualista e consumista. Faço esta pequena análise no intuito de demonstrar o primeiro dado a ser observado
quando realizamos a análise da concepção de sujeito, o sujeito é um ser histórico. A problemática da constituição do sujeito é analisada por Foucault. Esse autor usa um princípio metodológico que analisa a objetivação do ser humano em sujeito, utilizando-se três modos de objetivação, definidas como: ser-saber, ser-poder e ser- ser.
Esses três modos de subjetivação encontram-se presentes nas três fases de análise e estudo do filósofo que são: fase arqueológica (a arqueologia do saber), fase genealógica (a genealogia do poder) e fase de si (as técnicas de si).
Na primeira fase, Foucault estuda o processo no qual os saberes constituem- se por meio das práticas discursivas e como esses saberes constituem os sujeitos. Nesta primeira fase, Foucault definia seus estudos históricos como arqueológicos, pois pretendia identificar a origem dos discursos e sua efetivação prática, como um discurso surge, como ele se configura, que estruturas e acontecimentos solidificam este discurso ao longo do tempo. Por que determinado discurso permanece presente muito tempo após seu surgimento? Este era o princípio norteador de Foucault neste primeiro momento, tal conceito configura-se no que Foucault definiu como a ordem do discurso, esta primeira fase dos estudos de Foucault, situa-se na década de 1960 e está presente nas obras, História da loucura na Idade Clássica (1961), O nascimento da clínica (1963), As palavras e as coisas (1966) e A arqueologia do saber (1969).
A segunda fase de seu trabalho teve como foco de suas análises a questão das práticas do poder, que entremeiam pelas camadas sociais dividindo os sujeitos e ao mesmo tempo caracterizando-os. O poder surge por meio das práticas discursivas, e é intrínseco a sociedade, o micropoder. Se durante a fase arqueológica, Foucault buscou compreender a origem dos discursos e dos poderes, nesta segunda fase, sua análise compreenderá a institucionalização deste poder, por meio das práticas discursivas, dentro do tecido social. A relação entre discurso e poder é a bases fundamental desta fase, é o poder que legitima, qualifica um discurso ou um saber. Esta fase de estudos ocorreu nos anos 70 e suas obras de maior destaque são: Vigiar e punir (1975) e História da sexualidade, volume 1 (1976).
Na terceira fase, Foucault concentra seus estudos na concepção do sujeito analisa como o sujeito se subjetivam por meio das práticas do cuidar e pensar em si, prática presente na sociedade contemporânea. O sujeito foucaultiano está em
constante construção e ressignificação, as relações de poder não ocorrem de cima para baixo, como em uma estrutura simplista de relações entre dominador e dominado, o poder esta intrínseco em todas as camadas da sociedade, assim como os discursos.
O sujeito se constitui em determinado contexto histórico e social, legitimando determinado discurso ou poder a partir do momento que se submete a este discurso, tomando para si como uma verdade absoluta, do mesmo modo, o sujeito pode se constituir como um sujeito ativo, que enfrenta essa situação, constituindo-se como sujeito de seu próprio discurso.
Ao propor uma concepção de sujeito, Foucault utiliza-se de dois conceitos essenciais: mecanismos de objetivação e mecanismos de subjetivação.
O primeiro conceito diz respeito ao processo de constituição de homem como um objeto, referindo-se os processos disciplinadores que tendem a docilizar o mesmo, no intuito de construir homens submissos e dóceis, úteis a sociedade. Este mecanismo tem relação direta a concepção de poder disciplinador; o segundo conceito, diz respeito a relação do homem em si para si, como este homem se concebe na sociedade, que discursos, verdades e saberes este homem toma para si na busca de sua identidade como sujeito social, é neste momento que podem ocorrer movimentos de sujeitamento ou de resistência.
Atualmente, identificamos o pensamento foucaultiano referente as relações de poder e construção de saberes no momento que se pretende ressignificar os sujeitos envolvidos na prática pedagógica, principalmente o aluno, que de simples objeto passivo desprovido de identidade e pronto para absorver todo o conhecimento possível de seus professores, tal como uma esponja absorve a água, para um sujeito autônomo, senhor do seu processo de aprendizado.
O aluno não é mais um sujeito passivo, o professor não é o senhor absoluto do saber, e o saber em si perde o significado de poder, sendo acessível a todos. O aluno e o professor estão no mesmo patamar de poder, as relações de poder neste sentido são fluidas não existindo mais a relação de subserviência do aluno ao professor e vice-versa.
Ao trabalharmos com estes conceitos, objetivamos a compreensão da identidade destes dois elementos, professor e aluno, como esta relação ocorre e como estes elementos se identificam, partindo das referências descritas nos documentos que analisamos.