• Nenhum resultado encontrado

Foucault, o discurso atemporal e as relações de poder

No documento ARIEL CRISTINA GATTI VERGNA (páginas 34-37)

2 OS INSTRUMENTOS METODOLÓGICOS DA PESQUISA

2.3 Foucault, o discurso atemporal e as relações de poder

Como dito anteriormente, a análise dos discursos produzidos por diferentes sujeitos em diferentes espaços tem se tornado muito comum entre pesquisadores

acadêmicos pela possibilidade de não apenas atentar-se às estruturas dos enunciados em si, mas principalmente o que cada interlocutor traz de si mesmo e de suas interpretações acerca do que está a sua volta, ressaltando-se a suas particularidades. Além do referencial bakhtiniano, que endossa a análise a partir dos enunciados e de situações dialógicas entre dois sujeitos, optamos por também utilizar as reflexões realizadas por Foucault como referencial teórico a respeito do discurso atemporal e das relações de poder que se manifestam a partir da linguagem.

Segundo Fischer (2001), Foucault entende o discurso como uma prática social e, portanto, está sublinhado nas relações de poder e saber de seus interlocutores, sejam suas ações expressas na fala, ou em outros sentidos, como gestos, visão e compreensão. Assim sendo, discurso é uma trama de enunciados que pertencem a um mesmo conjunto de condições de existência, e o enunciado é para este autor sempre um acontecimento, que nem a língua nem o sentido podem esgotar inteiramente.

Conforme já foi apontado, um discurso nem sempre é linear. Às vezes, há um espaço para dissensões e oposições, não resultando em todo tempo em superfícies lisas e homogêneas. O campo enunciativo, a partir do momento que é se reconhece sua vivacidade, no qual os enunciados são constantemente reformulados, garante que nele todas as informações se cruzem, estabelecendo novas relações, promovendo interdependências. Esta ação de “povoar” os enunciados com outros significados já atribuídos pelo sujeito caracteriza não apenas o interdiscurso, mas a luta, segundo o autor, dos diferentes campos de poder-saber. Portanto, ao considerar a interdiscursividade de uma dada situação, significa deixar que se aflore as contradições, as diferenças; enfim, significa deixar aflorar a heterogeneidade que subjaz a todo discurso (FISCHER, 2001).

Foucault (1986) afirma que o enunciado é uma função do domínio de conteúdos expostos no tempo e no espaço. Para o autor, mais relevante que avaliar um enunciado é a disposição da relação entre os interlocutores dentro deste tempo e espaço: aquele que produz um enunciado, aquele que receberá a mensagem, o papel que ambos desempenham nesta relação e o contexto de produção desse diálogo. Foucault (1986) entende que os enunciados se renovam constantemente, sendo um produto de outros já utilizados, e a forma como eles são produzidos revelará qual é a participação do sujeito no contexto de produção adotado.

De acordo com Foucault (1998), o modo de vida de um sujeito está pautado na contraposição de realizar aquilo que lhe convém, sem que fira os limites e a liberdade

do outro em fazer o mesmo. Ou seja, o autor descreve em suas análises que os sujeitos vivem constantemente em uma liberdade limitada pelas ações e liberdade de outros sujeitos. Ele acrescenta que essas relações são permeadas pela moral e pela ética, isto é, um conjunto de regras e procedimentos socialmente aceitos, bem como valores particulares que dão significados às práticas diárias de um sujeito.

Ainda, segundo com Foucault (1977), estas relações entre sujeitos e os significados que eles atribuem determinam as relações de poder entre eles, isto é, uma relação de forças distribuídas e atuantes em toda a sociedade, nos contextos vividos pelos sujeitos e em suas relações interpessoais. Esse mecanismo de forças, de acordo com o autor, é capaz de disciplinar e coagir os sujeitos, de modo que suas ações, concepções e transmissões de ideias e significados são moldadas a partir dessas relações de poder, como uma espécie de controle.

Assim, compreendemos que o modo como Foucault (1977) trata a questão do poder é inédito, pois ele procura analisar como esse poder está subjacente às práticas que os homens desenvolvem em sua vivência social e na produção de seus discursos. A partir de suas análises, o autor entende que o poder domestica o comportamento social e o modo de ser de cada sujeito, assim como seus discursos, sendo tudo isso dentro de um momento histórico. Ele ainda acrescenta que as relações de poder, apesar de serem hierárquicas em sua maioria, são dinâmicas e por isso, os sujeitos podem inverter seus papeis de poder e disciplina dentro dos contextos sociais.

Dentro do universo escolar, palco de nossas análises, as relações de poder são contínuas e determinam as ações, discursos e procedimentos realizados nesse contexto. As propostas da linha teórica de Foucault vêm ao encontro desta pesquisa, pois acreditamos que os discursos produzidos pelos educadores são carregados não apenas de suas particularidades, porém também das relações de poder que desenvolvem dentro daquele espaço. Assim, nas análises dos dados que faremos a seguir, notamos que muito dos enunciados produzidos pelos educadores vêm de suas concepções construídas historicamente, do papel que desempenham também enquanto educadores e das expectativas que criam a partir desses dois contextos.

Com isto, colocamos aqui, que tanto Bakhtin, como Foucault, são autores que têm a linguagem como o objeto de estudo, porém cada um a sua perspectiva. Enquanto Bakhtin se atentará especificamente ao discurso e o quanto do sujeito está nessa produção de enunciados, Foucault buscará compreender as condições de produção do discurso, o contexto histórico e social no qual se insere e as relações de poder que estão

por detrás dos enunciados. As palavras de Foucault (1970), complementam esta reflexão sobre o que é o discurso, colocando-o como um elemento sem a noção de começo, meio ou fim, mas como aquilo que está em constante rotatividade, podendo ser tomado em qualquer instância pelo interlocutor, mas não devolvido por este da mesma forma que antes, isto é, sem que esteja já com uma nova carga daquilo que o sujeito que se apropriou dele acredita ser verdadeiro. Portanto, Foucault (1970) também se preocupa com a temporariedade dos contextos de produção, e o que estes refletem do que é passado destes sujeitos e como suas ações e interlocuções refletirão novas esferas de comunicação e cognição futuras.

No documento ARIEL CRISTINA GATTI VERGNA (páginas 34-37)