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Foucault, o poder e o Estado:

No documento Michel Foucault: filósofo político (páginas 55-63)

Capítulo 1: A especificidade do filósofo político

1.5. Foucault, o poder e o Estado:

Como sabemos, Michel Foucault não possui uma teoria cujo tema central seja o poder. O que encontramos, em sua vasta produção, é um conjunto de reflexões históricas acerca do funcionamento do poder. Esse conjunto de reflexões históricas constituiria um primeiro delineamento da filosofia política foucaultiana. O pensador francês começa a esboçar sua filosofia política já em meados dos anos 1960, período em que se dedicou ao que ele denominou de arqueologia do saber. A constituição do saber exige que sejam levadas em consideração, também, as práticas não discursivas e sua relação com as práticas discursivas, pois saber e poder se apoiam mutuamente. Isto constitui uma das razões que o levaram a refletir acerca da temática do poder. Outra razão que levou Foucault a refletir sobre o poder foi o fato de os fenômenos políticos da modernidade terem nos colocado diante do problema da relação entre o processo de racionalização da modernidade e as formas em que se exerce o poder.

De acordo com Foucault, a história particular dos fenômenos políticos modernos se encontra no fato de neles encontrarmos uma complexa combinação de técnicas de individualização e técnicas e procedimentos totalizantes. Daí a importância de se refletir acerca de racionalidades específicas, tais como a racionalidade das práticas disciplinar e biopolítica. As reflexões de Foucault sobre o poder se inscrevem, portanto, em um gênero específico do que ele denominou de lutas, a saber, as lutas que se opõem a tudo que liga os indivíduos a si mesmos e asseguram a submissão aos outros. Podemos afirmar, portanto, que o tema do poder seria, em Foucault, uma maneira encontrada por ele para enfrentar o tema do sujeito. Em suas pesquisas sobre o poder, ele acaba elaborando alguns instrumentos conceituais. Entretanto, essa elaboração não seria possível sem alguns importantes interlocutores da filosofia política. No curso de 1975-1976, Em defesa da sociedade, Foucault opõe a Hobbes, e a sua concepção do poder em termos de soberania, e a Marx, que concebe o poder em termos de repressão, aquilo que ele denominou de hipótese Nietzsche, ou seja, a concepção de poder em termos de luta e enfrentamento. Isto não significa, porém, que esta concepção seja definitiva em seu pensamento no que diz respeito ao funcionamento do poder.

Para o pensador francês, é preciso abandonar as concepções de Hobbes e Marx, o que implica abandonar o conceito de soberania, isto é, a visão jurídica do poder. O poder não seria um bem, um objeto de posse submetido ao contrato, por exemplo. O poder também não serve apenas para a manutenção de determinadas relações de produção. Tanto na explicação da gênese do Estado quanto na denúncia da exploração, o que se tem é o poder do ponto de vista da lei. A essa visão, Foucault irá opor o poder visto em suas extremidades. O poder é algo que se exerce, e não algo que se possui. Um exemplo para entendermos a maneira como Foucault concebe o poder é perguntarmos sobre quais seriam as técnicas históricas e concretas da efetivação dos castigos, ao invés de simplesmente perguntarmos pela sua legitimidade a partir do ponto de vista jurídico do direito de castigar.

É evidente que, ao se afastar da concepção liberal do poder, o filósofo francês acabar por criticar Hobbes, ou determinada interpretação da obra de Hobbes. Em todo caso, segundo Foucault, o que Hobbes pretende é a não

guerra, é evitar a guerra. A guerra do Leviatã não é autêntica, pois o que Hobbes pretendia era conjurar o discurso da dominação. É nesse sentido que Foucault irá se debruçar, no curso de 1975-1976, sobre o discurso da dominação e da guerra. Ao levar em consideração o discurso histórico da dominação em suas reflexões, ou seja, a análise do poder em termos de luta, Foucault não aceitará, também, a ideia de dominação da burguesia, característica da concepção marxista, que forma parte da crítica foucaultiana à hipótese repressiva do poder.

A repressão, tal como Foucault a concebe, como conceito da tradição marxista, é colocada à prova no primeiro volume da História da sexualidade (1976). Foucault não compreende a repressão como uma evidência histórica. Para ele, a mecânica do poder não se encontra na ordem da repressão. A sua pretensão é saber se o discurso contra a repressão, de fato, libera os indivíduos ou, na verdade, acaba formando parte com o poder por ele denunciado. O objetivo do filósofo, ao refletir sobre o poder, é ressituar todos esses elementos – a mecânica do poder, as evidências históricas, os discursos etc. – em uma economia geral do poder. Uma das conclusões de Foucault, a que se encontra em Vigiar e punir (1975), por exemplo, é a de que o poder deve ser visto, a partir da crítica histórica de sua hipótese repressiva, como uma realidade positiva. Isto é, o poder deve ser visto como produtor de individualidades.

Contudo, Foucault não aceita a ideia de individualidade passiva, sobre a qual o poder se aplica, pois o indivíduo é receptor e, também, emissor de poder. Por isso mesmo o filósofo francês utiliza a imagem de uma rede para descrever o funcionamento do poder. Utilizando essa imagem, a do poder funcionando em rede, Foucault busca refletir a respeito das modalidades de ação que atuam, não direta e imediatamente sobre os outros, mas sobre suas ações. O poder, em linhas gerais, consiste na condução das condutas, na disposição de suas probabilidades, na sua indução ou afastamento, nas suas limitações ou em seus impedimentos. Disso decorre o interesse de Michel Foucault pelos sistemas de diferenciação que permitem que alguns indivíduos atuem sobre outros. Ele se questiona sobre os objetivos que aqueles que atuam sobre as condutas de outros perseguem e quais modalidades instrumentais eles utilizam para alcançar seus objetivos. Na esteira de

Foucault, o filósofo político seria, portanto, aquele que questiona as formas de institucionalização que estão implicadas nas relações de poder e qual tipo de racionalidade essas relações colocam em jogo.

Estas afirmações nos mostram que já nos anos 1980 suas reflexões passam a não mais coincidir com a ideia de luta como especificidade das relações de poder, tal como encontramos no curso Em defesa da sociedade e na História da sexualidade. A partir de então, Foucault passa a utilizar as noções de governamentalidade e governo para substituir o conceito de luta. Em sua conferência de 1982, O sujeito e o poder, Foucault afirma que “o poder, no fundo, é menos da ordem do afrontamento entre dois adversários, ou do vínculo de um com relação ao outro, do que da ordem do governo”68

. Não sabemos ao certo, mas parece que essa substituição feita por Foucault tem alguma relação com o abandono da noção de revolução, entendida como conceito primordial da história da política moderna69.

Para Michel Foucault, a ideia de revolução seria uma consequência de uma noção de poder entendido em sua totalidade. A partir da introdução das noções de governamentalidade e governo, o filósofo passa a opor as lutas e os movimentos de resistência, como práticas de liberdade, à luta contra o poder no formato de revolução. Ao abrir mão das noções de repressão e soberania, isto é, ao não aceitar a representação economicista do poder, Foucault passa a determiná-lo como uma forma de relação, cujas especificidades são determinadas por suas capacidades objetivas e pelas relações de comunicação. Não se trata de determinar o poder pela sua capacidade de se exercer sobre as coisas, pela sua capacidade de modificá-las, usá-las etc. Tampouco pela sua capacidade de transmitir informações por meio de um

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DREYFUS, Hubert L.; RABINOW, Paul. Michel Foucault: uma trajetória filosófica para além do estruturalismo e da hermenêutica. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010. p. 288.

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Para Foucault, a ideia de revolução seria uma consequência de uma noção de poder entendida em sua totalidade. A partir da introdução das noções de governamentalidade e governo, Foucault passa a opor as lutas e os movimentos de resistência como práticas de liberdade à luta contra o poder no formato de revolução. Ao abrir mão das noções de repressão e soberania, isto é, ao não aceitar a representação economicista do poder, Foucault passa, então, a determiná-lo como uma forma de relação, cujas especificidades são determinadas por suas capacidades objetivas e pelas relações de comunicação. Não se trata de determinar o poder pela sua capacidade de se exercer sobre as coisas, pela sua capacidade de modificá- las, usá-las etc. Tampouco pela sua capacidade de transmitir informações por meio de um sistema de signos. O poder, ao contrário, é determinado pelas relações entre sujeitos. Relações estas que se definem como modos de ação que atuam diretamente sobre as ações dos outros.

sistema de signos. O poder, ao contrário, é determinado pelas relações entre sujeitos. Relações estas que se definem como modos de ação que atuam diretamente sobre as ações dos outros. O poder, da maneira como Foucault o compreende, exige que, em suas relações, aquele que sofre com suas ações seja também reconhecido como sujeito de ação. Ou seja, as relações de poder exigem que se abra todo um campo de reações e invenções possíveis. Em outras palavras, o poder induz, separa, facilita, impede, limita etc., pois ele opera sobre um campo de possibilidades diversas. Ele se exerce sobre sujeitos livres, sujeitos que têm à disposição várias condutas possíveis.

Como sabemos, não era a pretensão de Michel Foucault conceber uma teoria do poder – no sentido clássico do termo. Diferentemente da teoria política tradicional, que atribuía ao Estado o monopólio do poder, Foucault nos mostra a existência de uma rede microfísica do poder que, articulada ao Estado, perpassa todo o tecido social. Com isso, Foucault não pretendia minimizar a função do Estado, mas apenas mostrar que as relações de poder se prolongam para além dos limites do Estado. A introdução do tema da biopolítica em suas reflexões é de suma importância para a compreensão do tema do Estado. Como sabemos, a reflexão inicial de Foucault acerca da biopolítica se dá por meio de afirmações sobre as formas características do poder moderno. Isto é, ele examina as correlações em que as tecnologias do poder, as técnicas, a institucionalização das estruturas etc. são configuradas e transformadas. Se, inicialmente, ao analisar o poder disciplinar, Foucault abriu mão da questão acerca do poder de soberania, a partir de 1976 – com o primeiro volume de História da sexualidade e com o curso Em defesa da sociedade –, ele passa a desenvolver uma investigação múltipla acerca da soberania política na sociedade como um todo. Isso faz com que ele retorne ao tema do Estado.

Este retorno à temática do Estado só foi possível porque, a partir de 1976, Foucault nos fornece, utilizando instrumentos conceituais já existentes – como, por exemplo, os instrumentos do esquema poder/saber –, uma genealogia da biopolítica e uma reflexão sobre o governo político. Inicialmente, ao tratar do Estado e do governo político, Foucault ressalta a sistematicidade e a intenção totalizadora das formas de poder. Nesse sentido, não há na obra de Foucault uma conceituação do Estado. Ele não concebe uma teoria do Estado.

Ao retomar esse tema, ele o faz por meio de uma investigação acerca da razão de Estado. Segundo o filósofo, a racionalidade política criou raízes, primeiramente, com a ideia de poder pastoral para, em seguida, firmar-se na ideia de razão de Estado.

A principal característica da racionalidade política, segundo Foucault, não se encontra na formação do Estado. Tampouco se encontra na tentativa de integrar os indivíduos à política em sua totalidade. O avanço do filósofo francês nas reflexões acerca da razão de Estado se dá a partir da perspectiva da racionalidade política no contexto do surgimento da biopolítica. Diante das controvérsias acerca da definição do Estado70, o entendimento que Foucault faz da razão de Estado se aproxima da ideia de que o Estado opera em um território espacial, habitado por uma população. Forma-se, com isso, a noção de política da população. A partir de 1976, portanto, o filósofo francês passa a compreender o poder como sendo algo da ordem do governo, no sentido de condução das condutas.

No resumo do curso de 1977-1978, Segurança, território, população, Foucault afirma que “a razão de Estado não é o imperativo em nome do qual se possa ou se deva rejeitar todas as outras regras; é a nova matriz de racionalidade segundo a qual o príncipe deve exercer sua soberania governando os homens”71

. Foucault parece conceber um novo entendimento histórico, pois, como sabemos, ele acaba por se interessar pela análise das artes de governar que surgiram a partir dos séculos XVI e XVII. Segundo ele, é com essas artes de governar que se estabelece uma nova relação entre a história e a política72. O filósofo político deve estar atento ao fato de que o Estado passa a ser definido não mais como um equilíbrio, ou união, entre seus elementos por meio de uma lei, mas como um conjunto de forças que pode ser potencializado ou diminuído de acordo com as políticas colocadas em prática pelo governo. Ainda no resumo do curso de 1977-1978, o filósofo afirma que a razão de Estado se moldou a partir de duas grandes tecnologias políticas. A primeira ele chamou de saber diplomático-militar, que seria responsável pela

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A esse respeito, Cf. DUNLEAVY, Patrick. The State. In: GOODIN, Robert E.; PETTIT, Philip; POGGE, Thomas. A companion to contemporary political philosophy. Oxford: Wiley- Blackwell, 2012. pp. 793-803.

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FOUCAULT, Michel. Segurança, território, população: Curso dado no Collège de France (1977-1978). São Paulo: Martins Fontes, 2008. p. 491.

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busca de alianças e pelo fortalecimento do Estado. A outra tecnologia seria a polícia. Isto é, os meios necessários para o fortalecimento do Estado a partir de seu interior73.

A preocupação de Foucault era compreender os meios pelos quais os Estados se formam e se fortalecem. Ele conclui que a razão de Estado dever ser compreendida como uma técnica, e que essa técnica decorre da natureza do Estado, rompendo, assim, com a tradição clássica e cristã, que dizia que o exercício do governo deveria se ajustar às leis naturais e divinas. Em um texto publicado em 1988, cujo título é A tecnologia política dos indivíduos, Foucault afirma que “a razão de Estado não remete à sabedoria de Deus, à razão, nem às estratégias do príncipe. Ela se relaciona ao Estado, à sua natureza e à sua racionalidade própria”74

. Com isso, Foucault conclui, ainda, que a literatura analisada por ele no curso de 1977-1978 se opõe também à tradição de Maquiavel, para o qual a razão de ser do governo político era o fortalecimento da relação príncipe/Estado. A razão de Estado, da maneira como o filósofo a analisa, trata de fortalecer o Estado em si mesmo. Mas para que a razão de Estado, entendida como racionalidade governamental, possa fortalecer o Estado em si mesmo, é preciso constituir determinados domínios de saber. Foucault não se refere, aqui, à aplicação dos princípios gerais da razão. Segundo ele, esse saber preciso acerca do fortalecimento do Estado recebeu o nome de estatística.

Em relação à segunda tecnologia política (a polícia) que deu forma à razão de Estado, Foucault dirá se tratar daquilo que define os objetos perseguidos pela atividade racional do Estado. A polícia seria a forma geral dos instrumentos empregados pelo Estado. Segundo Foucault, os autores dos séculos XVI e XVII, por ele analisados no curso de 1977-1978, não compreendiam essa tecnologia como uma instituição ou um mecanismo no interior do Estado, mas como uma técnica governamental própria do Estado. Em outras palavras, a polícia englobaria as relações entre os homens, suas relações com as coisas, a existência dos homens em um dado território, suas

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Cf. FOUCAULT, Michel. Segurança, território, população: Curso dado no Collège de France (1977-1978). São Paulo: Martins Fontes, 2008. p. 492.

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__________. A tecnologia política dos indivíduos. In: __________. Ditos e escritos V: Ética, sexualidade, política. Organização e seleção de textos: Manoel Barros da Motta. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2012. p. 299.

relações de produção etc.75 O objetivo da polícia, enquanto tecnologia política da razão de Estado seria, portanto, o desenvolvimento das relações entre os homens. Daí Foucault afirmar, no texto acima citado – Omnes et singulatim – que “a polícia designa o conjunto do novo domínio no qual o poder político e administrativo centralizado pode intervir”76

. O objeto da polícia é a vida, insiste Foucault, pois a razão de Estado e a polícia se inserem no processo de formação da biopolítica.

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A esse respeito, Cf. Omnes et singulatim: uma crítica da razão política (texto de 1981). In: FOUCAULT, Michel. Ditos e escritos IV: Estratégia, poder-saber. Organização e seleção de textos: Manoel Barros da Motta. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010. pp. 377-379.

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2. Michel Foucault e as questões políticas contemporâneas:

No documento Michel Foucault: filósofo político (páginas 55-63)