Para conceituarmos o papel da FIESP nas disputas que se deram no jogo da política brasileira utilizaremos o cabedal teórico que se serve da ideia de constituições de frações de classes, ou seja, burguesia interna versus burguesia compradora (rentista) coligada ao capital internacional. (BOITO Jr.; GALVÃO, 2000; SAAD-FILHO. 2016; ASSUMPÇÃO. 2014).
Primeiramente, gostaria de sugerir como leitura fundamental o livro ―A burguesia brasileira‖ de Jacob Gorender. Nesse livro fica claro a ideia de que a burguesia industrial brasileira tem uma posição de conflito seletivo com o capital externo, determinada pela sua necessidade de sobrevivência (e concorrência). Ela não é uma simples correia de transmissão dos interesses imperialistas e, tampouco, é nacional. (BERRINGER, 2017, p. 31).
Sobre este debate diversos teóricos discordam da possibilidade de existir qualquer fração burguesa com base nacional tendo em vista a internacionalização da economia capitalista (MIGLIOLI, 1998). Outros defendem a tese de que há uma consolidação de uma burguesia única em nível mundial (PIJL, 1998). Não estamos, também, retomando a ideia da coligação da burguesia nacional aliando-se as classes populares para se contraporem em um processo revolucionário para as sociedades do capitalismo dependente contra o capitalismo imperialista. Teoria esta ligada ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) e a tese da III internacional comunista.
Igor Fuser (2017), por exemplo, discorda da teoria da constituição de frações de classes dentro da burguesia brasileira, pois esta estaria coligada por interesses comuns que transcendem os interesses específicos de grupos, setores, indivíduos e empresas, ou seja, frações de classe.
O fato que diz respeito mais de perto à nossa polêmica é que, no governo, o PT (leia-se: Lula e Dilma e suas respectivas equipes) NÃO se caracterizou por uma defesa sistemática de um empresariado de raízes mais nacionais e maior afinidade com as metas do neodesenvolvimentismo, em detrimento da ―burguesia associada‖ e do capital externo. Acredito que outras explicações são possíveis, fora dos marcos da teoria da ―frente neodesenvolvimentista‖. Uma vertente de interpretação é a aquela que, sem desprezar o fator crise presente em todas as análises, enfatiza os interesses de longo prazo da burguesia como classe. Trata-se da hipótese de uma percepção, por parte de setores influentes da burguesia, de que, com o esgotamento da política de conciliação de classes num cenário econômico crescentemente desfavorável, os governantes petistas tenderiam a aprofundar as iniciativas de caráter social em favor das camadas desfavorecidas, afetando os privilégios da burguesia no seu conjunto. (FUSER, 2017, p.42).
André Singer (2015) debate quanto a problemática das teorias que trazem a contradição entre o papel da burguesia brasileira que se daria pela perspectiva de produtivistas versus rentistas ou grande capital nacional versus grande capital internacional, contudo ele não se
limita a este debate para se aprofundar quanto ao papel destes atores para compreensão do objeto de estudo que define estudar.
Boito reconhece que ―o setor industrial tem conflito com o capital bancário nacional‖ e nós admitimos que empresas de capital nacional possuem interesses que as opõem às de capital internacional. Ambas as contradições cortam tanto a coalizão produtivista quanto a rentista. Equivale dizer que, para iluminar a totalidade, o conjunto de tensões precisa ser levado em conta. (SINGER, 2015, p.62).
Entretanto, para nosso trabalho é fundamental nos posicionarmos quanto ao debate surgido entre os cientistas políticos e sociólogos que o fizeram e o fazem, pois ele se torna importante para nosso trabalho na medida que nos posicionamos sobre ele e consideramos a FIESP uma das representante da burguesia interna e todas as consequências que esta definição teórica tem para compreensão das análises que queremos trazer com esta pesquisa.
Atualmente a burguesia interna poderia ser conceituada como sendo uma burguesia bastante heterogênea, pois é composta por setores como bancos, construção civil, agronegócio, industriais entre outros. O que os mantêm unidos são seus interesses pela fatia do mercado interno e pela disputa do mercado externo quando conseguem disputá-lo. A burguesia interna busca se manter forte e atrelada ao Estado para conseguirem se beneficiar dos mecanismos que ele dispõe para acessar mercados e se protegerem da concorrência internacional. Em outras palavras a burguesia interna possui medo de ser destruída pelos grupos econômicos internacionais.
Os industriais reivindicam preferência para os seus produtos no mercado nacional, isto é, querem protecionismo alfandegário, os banqueiros solicitam a intervenção do Estado para limitar o ingresso de capital estrangeiro no seu setor; os usineiros do interior do Estado de São Paulo reivindicam a associação da Petrobrás com as usinas para a produção de etanol – os usineiros temem, no dizer de um de seus representantes, que o equilíbrio entre o capital nacional e o estrangeiro seja rompido em favor do último, caso a Petrobrás não coloque o seu poder econômico a favor dos usineiros nacionais; a indústria naval reivindica que as compras do Estado dêem preferência para os estaleiros nacionais; as grandes empresas ligadas à exportação e as empresas interessadas em realizar investimentos e obras de construção pesada no exterior exigem a ação política e comercial do governo para a conquista de mercados externos e para favorecer e proteger os seus investimentos no exterior. (BOITO, 2012, p.77).
Em contrapartida encontramos, ainda, no seio das disputas políticas uma fração da burguesia brasileira (compradora) completamente integrada e subordinada aos interesses das burguesias internacionais e que, como elas, almejam a privatização das empresas estatais, diminuição da intervenção do Estado na economia, pois favoreceria os interesses dos grupos
econômicos estrangeiros dos quais fazem parte, pleiteando, assim, uma política neoliberal ortodoxa. Para sermos mais explícitos poderíamos apresentar como alguns bons exemplos os investidores internacionais; bancos estrangeiros; as agências internacionais de risco;
instituições oficiais de controle econômico como Fundo monetário Internacional (FMI) e Banco Mundial; corporações multinacionais e os meios de comunicação nacional e internacionais, produzindo e reforçando a ideia de que era preciso que o mercado tivesse autonomia para funcionar efetivamente sem a intervenção estatal.
Estas duas frações de classe se encontram em disputa pelo poder do Estado no Brasil.
Porém, ainda que a realidade seja mais complexa que os modelos são capazes de apresentar, estes servem para facilitar a compreensão que buscamos detalhar para o desenvolvimento do nosso argumento.
Portanto, nos atendo as ideias apresentadas, podemos começar a compreender os movimentos que os governos do presidente Lula e da presidenta Dilma fizeram e as quais interesses e quais frações de classe foram mais contempladas pelas políticas implementadas por estes governos.