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CAPÍTULO 2 – O SUCESSO E FRACASSO ESCOLAR

2.1. Fracasso escolar e seu contexto de exclusão

A revolução burguesa ocorrida na França no final do século XVIII, tendo como bandeira a igualdade, liberdade e fraternidade, conduziu a aprendizagem no âmbito escolar a um lugar de destaque no mundo ocidental (MANACORDA, 1997). Os idealistas desta revolução colocam como uma das principais promessas a universalização da educação escolar às camadas sociais dela excluídas durante o feudalismo. A luta pela universalização da cultura, privilégio detido exclusivamente pela classe dominante, e da apropriação da ciência por qualquer indivíduo que por ela se interessasse, proclamam a educação escolar como direito social de todos e como instrumento redutor das desigualdades sociais presentes no antigo regime (LADÉIA, 2002).

A educação naquele período tinha um papel redentor, pois através dela poder-se-ia eliminar as desigualdades sociais, sendo que todos os cidadãos escolarizados teriam, teoricamente, as mesmas condições para participar da vida social e do mundo do trabalho. Entretanto, em muitos países que adotaram o sistema capitalista essa intenção não teve real espaço de desenvolvimento e continuou como uma promessa, não se materializando ou sendo cumprida apenas parcialmente (LADÉIA, 2002). Assim, como aborda Cohen (2006, p.46) “o ideal democrático existente na antiguidade, embasado na noção de igualdade para todos os

cidadãos, transformou-se, sobretudo a partir do século XX, em um tipo de democracia cujo maior representante é o neoliberalismo”.

No Brasil, a educação tem sido marcada pela contradição, onde uma grande parte da população não tem acesso ao estudo, a moradia, a saúde, ao emprego e vive em condições de extrema privação, mas existe uma minoria que detém a maior parte das riquezas do país. Essas desigualdades são produzidas pela economia de mercado baseada na exploração do trabalho e no distanciamento cada vez maior entre proletariado e burguesia (PALMA, 2007). Assim, na sociedade brasileira, a boa educação torna-se também um bem exclusivo da elite do país, um privilégio de classe.

Apenas em meados do século XX, com a pressão do movimento operário, de setores intelectuais e de partidos progressistas, a educação escolar no Brasil passa a ser considerada como um direito formal do cidadão (PATTO, 1990). Segundo a autora, é necessário destacar que após séculos de hegemonia no hemisfério ocidental, o sistema capitalista não conseguiu universalizar a liberdade, igualdade e fraternidade, pois esses são princípios opostos a base do capitalismo (individualismo, competição, concentração de riquezas e polarização das classes). Conseqüentemente, o capitalismo não conseguiu universalizar uma educação básica de qualidade para todos, não possibilitando que o ensino escolar se tornasse realmente um direito efetivo do cidadão. Assim, no Brasil, apesar da educação formal ter virado algo legitimado por diversas leis, essas não são efetivamente cumpridas.

Patto (1990), Collares e Moyses (1996), Palma (2007) apontam que no capitalismo, principalmente nos países mais pobres, a escola não tem desempenhado seu papel de redutor de desigualdades sociais, mas tem realçado cada vez mais essa desigualdade econômica e social vigente. A escola hoje tem como função principal legitimar a ordem econômica e social vigente. É dentro do ambiente escolar que podemos ver o reflexo de uma sociedade excludente, dividida em classes, que traz em suas práticas pedagógicas e relações mecanismos de exclusão e seletividades reforçadores da marginalização. Isso mostra que a escola assume um papel ideológico, não só por promover uma seleção social através da exclusão de grande parte da população dos benefícios culturais e econômicos proporcionados pela mediação da educação escolar de qualidade, mas por disseminar a ideologia dominante através dos conteúdos que transmite (LADÉIA, 2007).

A escola é um espaço político e como tal espelha os confrontos de força, contradições e os contrastes existentes na sociedade (PALMA, 2007). Segundo Cortesão (2005 apud

PALMA, 2007) o sistema de ensino ao domesticar e anular a capacidade de análise crítica de professores e educandos contribui para a manutenção da desigualdade social e política, de dominação e alienação.

Segundo Palma (2007), ao longo da história da educação brasileira, o sistema de ensino não atendeu às demandas educacionais. Os primórdios do surgimento da educação escolar pública no Brasil já são marcados pelo ensino que atendia a minoria. Para a elite era oferecido o ensino secundário, enquanto as classes menos favorecidas a educação era voltada para o trabalho. Pensar na exclusão/inclusão no contexto escolar é refletir sobre o acesso ao sistema de ensino, sendo que nesse contexto o fracasso escolar e a exclusão/inclusão compreendem a possibilidade ou não de permanecer na escola.

O fracasso no ambiente escolar tem servido para legitimar a pouca aprendizagem de alguns alunos, esses não conseguindo uma nota igual ou superior dos alunos aprovados possivelmente serão atingidos por algum rótulo e o seu fracasso generalizado será legitimado pelas práticas escolares (PALMA, 2007). Segundo a autora, as marcas dessa exclusão podem ser notadas através de recalcamentos expressos em todas as esferas da vida.

Durante a trajetória escolar, compreende-se o aluno como o sujeito que obtém o sucesso ou fracassa. Da mesma forma, o ideal do indivíduo bem-sucedido ou fracassado tem nas práticas sociais sua própria lógica, regras e determinações (BARROS ET AL., 1997). Assim, na prática pedagógica este discurso vai constituindo a subjetividade do professor e do aluno, “é uma visibilidade que diferenciando e classificando os indivíduos, define os normais” (FOUCAULT, 1987, p. 170 apud BARROS ET AL., 1997, p. 28).

Diferentes discursos nas últimas décadas são identificados na tentativa de explicar o fracasso escolar. Nas décadas de 1940 e 1950 reinava a idéia de que os indivíduos eram portadores de dons ou aptidões inatas, como a inteligência, que os fazia ter maior ou menor sucesso no meio escolar. Já a psicologia diferencial, tentava explicar as diferenças educacionais baseada nas variáveis de raça e sexo, tendo a psicometria alcançado forte prestígio. Assim, no decorrer do capítulo, as idéias que constituem essas teorias serão explicadas com mais detalhamento.

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