3 REVISÃO BIBLIOGRÁFICA
3.2 Fragmentação da Mata Atlântica e Redução da Biodiversidade
Além da elevada biodiversidade, as florestas tropicais apresentam importância para a conservação por estarem em intenso processo de eliminação e fragmentação. LAURANCE (1999) estimou uma destruição das florestas tropicais no mundo da ordem de 21 milhões de espécies por ano. Este processo de eliminação de ecossistemas naturais e fragmentação dos ecossistemas remanescentes tem acarretado a extinção de milhares de espécies (EHRLICH & EHRLICH, 1992; WORLD RESOURCES INSTITUTE, 1986; WILSON, 1997; MYERS, 1997; LUGO, 1997; HAMILTON, et. al, 2010).
Por estas características, MYERS et. al. (2000) consideraram a Mata Atlântica um dos vinte e cinco “hotspots”3 de biodiversidade mundial e o quinto bioma ou ecossistema mais importante para a conservação, tendo em vista sua elevada biodiversidade, o alto nível de endemismo e o grau elevado de ameaça a que está submetida.
Diversos outros estudos, a partir de parâmetros semelhantes aos utilizados por esses autores, também apontam a Mata Atlântica como ecossistema de grande importância para a conservação (WILSON, 1997; MITTERMEYER et.al., 2005).
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Florestas onde as plantas apresentam adaptação à seca 3
Ecossistemas ou biomas que apresentam pelo menos 1.500 espécies de plantas endêmicas, tendo perdido mais de ¾ de sua vegetação original
A Mata Atlântica é formada por um conjunto de ecossistemas que originalmente ocupava uma área de 1.360.000 Km2, ou cerca de 15% do território brasileiro (MMA/SBF, 2002). Deste total, resta uma parcela que representa entre 6,8% (SOS MATA ATLÂNTICA, 2006) e 22,4% (PROBIO, 2007) da área original (esta variação no resultado entre dois estudos é derivada da inclusão ou exclusão de formações florestas em estágios iniciais de sucessão ecológica e de outros aspectos das metodologias de mapeamento).
A pressão humana torna a Mata Atlântica o bioma mais relevante para a conservação no Brasil. GALINDO-LEAL & CÂMARA (2005) utilizaram as listas oficiais de espécies ameaçadas de extinção adotadas pelo Governo Federal e listas internacionais de espécies ameaçadas de extinção e apontam:
“(...) pelo menos 367 espécies de árvores e arbustos, 104 espécies de
aves, 35 de mamíferos, 3 de répteis e 1 de anfíbio da Mata Atlântica brasileira estão ameaçadas. No caso das aves, mamíferos, répteis e anfíbios, tais números representam 10,5% de todas as espécies desses grupos existentes na Mata Atlântica e mais de 50% da fauna ameaçada na lista oficial brasileira.” (GALINDO-LEAL & CÂMARA,
2005, p. 87).
Oficialmente, estão nesse bioma 383 das 633 espécies de animais ameaçados de extinção no país e 276 do total de 496 espécies de flora ameaçadas de extinção (www.mma.gov.br, acessado em 18 de junho de 2012).
Esse processo de extinção e redução da biodiversidade está diretamente relacionado à remoção e fragmentação da Mata Atlântica. A maior parte das formações desse bioma foi eliminada e os ecossistemas remanescentes são formados por conjuntos de fragmentos de tamanho e características ecológicas variáveis.
No estado do Rio de Janeiro, por exemplo, as formações florestais em todas as Regiões Hidrográficas do estado (mesmo aquelas com vasta cobertura florestal) são formadas por um número significativo de fragmentos de tamanhos variados, mas raramente superiores a 10.000 hectares. Em muitas áreas esses fragmentos raramente são maiores que 3.000 hectares (SEA & COPPETEC, 2009).
Os principais remanescentes de ecossistemas naturais da Mata Atlântica concentram-se no litoral sul da Bahia e norte do Espírito Santo e nos estados das regiões Sul e Sudeste. É justamente nessas áreas que estão as maiores ameaças à conservação da biodiversidade, uma vez que nas matas de baixada dos estados da Bahia e Espírito Santo e nos ecossistemas de montanha dos estados do Rio de Janeiro e São Paulo estão o maior
número de espécies ameaçadas da Mata Atlântica e, consequentemente, do Brasil (GALINDO-LEAL & CÂMARA, 2005).
No caso das serras do Mar e da Mantiqueira (no sul e sudeste do Brasil), os remanescentes dos ecossistemas naturais concentram-se nas vertentes da escarpa de falha, onde as encostas são íngremes, e nas porções superiores, onde os picos atingem, freqüentemente, mais de 2000 metros de altitude. Recobrem, portanto, as partes menos acessíveis do ambiente, onde o processo de ocupação foi dificultado, sobretudo, pelo relevo acidentado e pela infra-estrutura de transporte exígua.
Onde o acesso é mais simples (especialmente onde há vias de acesso), a ocupação humana levou à remoção e fragmentação da Mata Atlântica, transformando os contínuos florestais (ainda vistos na Amazônia) em mosaicos de paisagem.
Na maior parte dessas paisagens a matriz é formada por espécies variadas de gramíneas, a maior parte sendo pastagens, embora em muitas áreas sejam compostas por formações agrícolas ou áreas urbanas. As áreas de floresta são fragmentos com tamanho, forma, conectividade, isolamento e características ecológicas variáveis, geralmente restritas às áreas de menor facilidade de acesso. Esta distribuição espacial fragmentada dos remanescentes de ecossistema gera consequências diversas para a conservação da biodiversidade.
Os primeiros estudos que discutiram o problema da fragmentação da paisagem para a conservação da biodiversidade trouxeram o arcabouço da teoria da biogeografia de Ilhas, considerando cada fragmento de forma insular e associando à riqueza de espécies ao tamanho da área do fragmento (Mc ARTHUR e WILSON, 1967; DIAMOND e MAY, 1976).
Porém, o processo de redução da biodiversidade a partir da fragmentação é complexo e dependente de diversas variáveis, não podendo ser entendido como uma relação direta entre área do fragmento e diversidade biológica (WILSON, 1997). O tamanho do fragmento é uma variável relevante para garantir a biodiversidade, havendo uma tendência de reduzir a diversidade biológica com a redução da área dos fragmentos, mas esta relação não é direta e depende de variados fatores.
A fragmentação pressupõe a supressão de parte de ecossistemas, formando áreas de habitats desfavoráveis à grande parte das espécies silvestres. Quando o processo se acentua como na Mata Atlântica, onde a matriz não são os ecossistemas remanescentes, mas áreas de pastagem, de agricultura ou urbanas, além da perda de diversidade pela eliminação de ecossistemas, há a formação de vastos habitats desfavoráveis, que também tendem a reduzir a biodiversidade, como bem define COUTINHO (2011):
“Para cada espécie o ambiente é um mosaico de habitats. Neste
determinados grupos populacionais. Entre as manchas, os habitats são desfavoráveis e negativos; o resultado da fragmentação é a criação em larga escala de habitats ruins ou negativos para grande número de espécies. O aumento da área negativa dificulta o movimento migratório das metapopulações que tendem a sofrer declínio populacional. A fragmentação, ao provocar ao longo do tempo a perda de espécies pode comprometer o funcionamento do equilíbrio dinâmico das comunidades biológicas.” (COUTINHO, 2011,
p. 9).
Além da eliminação de habitats e da formação de habitats mais ou menos desfavoráveis, outra conseqüência direta da fragmentação é a redução da qualidade dos ecossistemas remanescentes, especialmente em função dos efeitos de borda4 sobre os mesmos.
As alterações provocadas pela perda de qualidade dos habitats podem gerar mudanças nas taxas de natalidade, mortalidade e migração das populações silvestres, aumentando a probabilidade de extinção local e alterando a estrutura de comunidades que habitam esses fragmentos (GASCON et. al., 2001).
Mas as espécies existentes nos fragmentos de ecossistema não estão isoladas como em uma ilha. Possuem níveis de conectividade diferenciados em função de distância de outras áreas de ecossistemas naturais, da matriz que compõe a paisagem, das características das espécies que habitam o fragmento, etc. (FORMAN e GORDON, 1986).
Assim, a matriz da paisagem em áreas de fragmentação dos ecossistemas naturais possui importância na conservação das espécies na medida em que as populações (dependendo da plasticidade adaptativa de cada espécie e das características dessa matriz) utilizam estas áreas para dispersar entre fragmentos de ecossistemas remanescentes e como área de vida.
Além disso, a fragmentação pode ser favorável para a variabilidade genética e permanência de determinadas populações silvestres, quando a matriz da paisagem não é formada por áreas urbanas, mas por agricultura ou pastos. FREITAS & COUTINHO (2006), por exemplo, argumentam que a conservação de uma das espécies de ave extremamente ameaçadas de extinção na Mata Atlântica, o Formicida erytronothos (papa-formiga-de-cabeça-negra), depende da manutenção de áreas de capoeira de cerca de 5 anos de formação. Assim, é essencial para a conservação dessa ave a fragmentação da paisagem nas baixadas dos municípios de Angra dos Reis e Paraty, no estado do Rio de Janeiro, da
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Efeito de borda pode ser definido como a influência que o meio externo exerce sobre a área da floresta em sua parte marginal, causando alterações físicas e estruturais que, frequentemente, acarretam (alteração na composição e/ou na abundância relativa das espécies (FORMAN e GORDON, 1986; TABANEZ et al, 1997).
onde a mesma é endêmica. DIEGUES et. al. (2001) apresentam alguns exemplos da relação entre ampliação de diversidade biológica e manejo de paisagens por grupos tradicionais.
Assim, a conservação da biodiversidade em áreas muito fragmentadas como a Mata Atlântica passa também pela conservação dos fragmentos de menor porte, uma vez que a diversidade biológica não está apenas nas áreas maiores e mais bem conservadas (geralmente inseridas nas Unidades de Conservação de Proteção Integral e situadas nas áreas de acesso mais difícil), mas no conjunto de fragmentos inserido na paisagem (CASTRO JR. et. al., 2009). Isto significa dizer que a conservação da biodiversidade em áreas como a Mata Atlântica depende da conservação das paisagens.
Ademais, os fragmentos que encerram grande parte da biodiversidade existente na Mata Atlântica estão inseridos em paisagens com diferentes graus de interferência humana, muitas das quais com elevados graus de antropização, uma vez que os principais remanescentes situados nas serras do Mar e da Mantiqueira estão na região de maior concentração populacional, mais urbanizada e mais industrializada do Brasil.
Dessa forma, torna-se relevante compreender não apenas a dinâmica dos fragmentos remanescentes, mas também a dinâmica de alteração das paisagens onde estes fragmentos estão inseridos, pois a fragmentação florestal está associada à fragmentação das paisagens e, consequentemente, a conservação dos fragmentos de ecossistemas remanescentes está diretamente associada à conservação das paisagens.
As características sociais de uma área tornam-se relevantes para a conservação, uma vez que as comunidades estabelecem relações específicas com a biodiversidade, mediadas pelas suas características culturais e pelas características dos ecossistemas remanescentes (BECKER, 2001).
A simples criação de UCs de proteção integral torna-se insuficiente para garantir a conservação, sendo necessária uma articulação entre estas UCs (que protegem os maiores e mais conservados ecossistemas) com UCs de Desenvolvimento Sustentável e com outras estratégias de conservação da natureza, como constituição de Mosaico de UCs, corredores ecológicos, projetos de desenvolvimento sustentável, etc. que possam garantir a conservação da paisagem (CASTRO JR. et. al., 2009).
Enfim, a constatação de que os remanescentes de ecossistemas formam mosaicos de paisagem com as áreas de ação humana amplia a discussão sobre a conservação da biodiversidade, trazendo a questão da gestão da paisagem para o cerne da discussão.