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fundamentos para a análise da cartografia

2. Fragmento da “Forma Urbis Romae”: mapa entalhado no mármore datado

do século ii a.c. e que representa a urbe romana, era usado como registro e cadastro das propriedades dos cidadãos romanos. Trata-se de um painel de aproximadamente 12 metros de altura que ficava em uma sala do “Fórum da paz” romano, representando a cidade com alto grau de precisão e proporção. david Reynolds provou em estudo de 1997 que a Forma Urbis Romae, juntamente com uma planta em folhas de papiro, era usada exclusivamente como um mapa cadastral.

nadas relações de comunidade. existem a troca e o lucro, mas essa não é a forma dominante.

Espaço simbólico: espaço da cidade medieval. espaço da dissolução da

relação entre o trabalho e os meios objetivos de sua existência, onde o trabalhador aparece como proprietário apenas do instrumento de tra- balho. espaço das corporações no qual o capitalista é o mestre-artesão. espaço da disputa entre a burguesia emergente e os senhores feudais, proprietários da terra. a área rural, e não a cidade, é o ponto de parti- da da organização social e sua base é a propriedade comunal coletiva dos senhores feudais. a divisão social do trabalho estava relativamente pouco desenvolvida, mas expressava-se principalmente na rígida sepa- ração dos vários estamentos.

segundo a argumentação de marx a transição do modo de produção feudal para o capitalista pode ser considerada um produto da evolução do sistema feudal, pois começa com a separação funcional entre cidade e campo, entre comércio e produção, elemento fundamental na divisão social do trabalho (3 e 4).

Espaço perspectivo: espaço das cidades renascentistas, do capital ban-

cário associado à empresa comercial. “o campo se transforma, passa do domínio feudal às meações; alamedas de ciprestes conduzem das terras dos meeiros ao casarão do senhor, onde fica um capataz; por- que o proprietário mora na cidade, onde ele é banqueiro ou grande co- merciante. a cidade se transforma, com as implicações arquiteturais; a fachada, o alinhamento, o horizonte. esta produção de um espaço novo, o perspectivo, não se separa de uma transformação econômica: crescimento da produção econômica e das trocas, ascensão de uma classe nova”9.

este momento é importante para a compreensão dos fundamen- tos da cartografia contemporânea, pois é durante a idade média que a cidade, centro comercial, passa a ser o centro dos acontecimentos sociais e econômicos, limitando o papel do campo à produção. esse período coincide com o surgimento do instrumental básico das re- presentações cartográficas contemporâneas e com o desenvolvimento de regras fundamentais da perspectiva por brunelleschi e alberti. os mapas, que passaram a representar o espaço com um ponto de vista fixo, permitiam que o globo fosse percebido como uma totalidade. eles permitiram que toda a humanidade, pela primeira vez, fosse localizada numa estrutura espacial única. essa objetividade totalizante dos ma- pas renascentistas superava em muito as representações medievais do

9 lefebvre, henri. a produção do espaço. prefácio da edição francesa de 1974. cit., p.5.

3. “plan des dimes de champeaux”, século XV: Representação que expressa muito bem a tradição cartográfica medieval ao acentuar as qualidades sensuais, e não racionais e objetivas do espaço. “o artista medieval acreditava poder traduzir convincentemente o que tinha diante dos olhos ao representar as sensações que tinha ao caminhar, experimentando estruturas, quase de maneira tátil, a partir de muitas perspectivas distintas, e não de um ponto de vista geral único” (cf. edGeRToN, The Renaissence Re-discovery of Linear perspective apud HaRVeY, david. a condição pós- moderna. São paulo, Loyola, 1992. cit. p. 220.)

espaço. a objetividade na representação espacial veio a ser um atributo muito valorizado, porque a precisão da navegação, a determinação dos direitos de propriedade da terra e as fronteiras políticas passaram a ser um imperativo econômico e político10 (5).

analogamente aos mapas, a utilização sistemática do calendário e do relógio foi igualmente totalizante. criou-se um tempo universal, homogêneo e mensurável, diferente do tempo interior vivido. isso permitiu a quantificação do trabalho pelo tempo e a concepção, por exemplo, da taxa de juros e da taxa de lucro. dessa forma, fica claro que espaço e tempo, engendrados pelo modo de produção, oferecem um suporte objetivo para a atividade humana.

Espaço capitalista: espaço homogêneo, fragmentado e hierarquizado,

“através e pela urbanização, sob a pressão do mercado mundial, sob a lei do repetitivo e do reprodutível, anulando as diferenças no espaço e no tempo, destruindo a natureza e os tempos naturais” (oseKi, 1996, p. 115). separação funcional do espaço em função da produtividade, hie- rarquizado dos centros às periferias. espaço geométrico quantificável, consumido em lotes (6). surgimento do proletariado. rompimento total do trabalhador com a propriedade dos meios objetivos de produ- ção. “dissociação e descompasso brutal entre forma e conteúdo, com superfetação e delírio da forma e do visual” (oseKi, 1996, p. 115).

a argumentação segue o aprofundamento da análise da produção do espaço no modo capitalista, em que grande parte dos mapas de são paulo, senão todos, foram realizados.

assim como descreve oseki, o espaço capitalista-estatista tem como característica ser:

– homogêneo – ser o mesmo, se partir. o que permite a intercam- bialidade dos tempos e dos lugares e conforma no espaço as frações da cotidianidade (trabalho, família e lazer). a homogeneidade, entretanto, não significa democratização no (do) espaço: esse espaço é fortemente centralizado e segregado;

–quebrado – isto é, um espaço homogêneo, ótico, geométrico e quantificável mas construído, vendido e consumido aos pedaços, em lotes, de maneira a permitir a obtenção de rendas pelos proprietários da terra;

–hierarquizado – os lugares não são iguais porque o valor de uso não desaparece e se constitui em um emprego do tempo, já que os es- paços não se situam igualmente diante dos centros (de decisão, de co- municação). os espaços se hierarquizam dos centros às periferias. o

10 harveY, david. a condição pós-moderna. são paulo: loyola, 1992.. cit., p.223.

4. portolano genovês de 1457: esse

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