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Fragmentos da escala humana

No documento Sobre o socius e as séries mecânicas (páginas 127-130)

Por Ernst Kapp

Note-se o que fizeram William Harvey (1578-1657) com a demonstração da circulação sanguínea, Lugi Galvani (1737-1798) com a resposta nervosa a estímulos elétricos, Lavoisier (1743-1794) com a doutrina da respiração: recolocaram a Humanidade como problema corporal. Demonstraram que a história do trabalho da Humanidade, de seus esforços penosos e gloriosos, resume-se à história da fisiologia humana (Kapp 2018: 9). A história dos corpos é uma versão radical da história da consciência. Há de se atentar ao passo seguinte a essa história, há de se atentar ao que dela tem se projetado como fato: o mundo material, técnico no qual a Humanidade constitui sua vida coletiva. Como propõe a linguística de Lazarus Geiger (1829-1870), a Humanidade só pode conhecer algo a partir de si; os movimentos centrífugos e centrípetos do conhecimento de si atingem a Humanidade sempre em uma escala. Não há mundo outro para a Humanidade que não aquele onde o conhecimento da natureza se sintetize em alguma medida no conhecimento de si. Como vêm a ciência e a filosofia a conhecer a Humanidade senão como paciente e protagonista dos fenômenos do mundo? Idealismo e realismo se colapsam em uma mesma escala, na escala onde consciência significa presença – e esta, sempre, corporal. Mundo e pensamento são uma dualidade insolúvel não por acaso; é sobre um e outro que a aventura humana se contorce para que os seres humanos desfrutem teórica e empiricamente entre si. As atividades humanas produzem a condição humana tal como ela pode ser: uma experiência corporalmente localizada. Pode este corpo, este conjunto de funções extraordinárias cuja natureza alcunhamos de físicas e biológicas, ser lugar e circunstância de pensamento. A vida interior, reflexiva, não é uma oposição à vida exterior, do corpo. Em verdade, como separá-los? A vida reflexiva, se considerado o pensamento, é uma manifestação da vida corporal; não é a rede neural pura carne? Não está submetida às mesmas leis de ação e reação aos estímulos elétricos? O corpo é uma totalidade composta por camadas; o pensamento é apenas uma parte íntima da ação orgânica dos seres da Humanidade (Kapp 2018:

23).

Qual a ordem de grandeza da percepção dos fenômenos pela Humanidade? Seria a percepção humana fundamentalmente coletiva ou individual? Talvez ambos. A aparente distância entre a ordem coletiva e a ordem individual se trata de mais uma evidência da inescapabilidade da escala antropológica. A biologia de Ernst Haeckel (1834-1919) demonstrou que a história fisiológica de um indivíduo nada mais é do que um resumo da história fisiológica de sua espécie (Kapp 2018: 19). A ontogenia dos seres recapitula a filogenia das espécies. Não é diferente com a Humanidade; a história da Humanidade é a história de cada ser humano – e o contrário é igualmente plausível. Portanto em vez de se perguntar sobre a proeminência entre coletivo e indivíduo, deve-se indagar o que os torna partes de um só processo. O que os torna uma circunstância viva e consciente capaz de se identificar enquanto fenômeno. A Humanidade, esse esparso e numeroso coletivo animal, é a única espécie apta a realizar essa identificação. É a espécie apta a se perguntar: “o que é a Humanidade?”. E é capaz de fazê-lo individualmente. Cada ser humano se ata à espécie pelas medidas de seus corpos; entendem-se, combatem-se, interagem das mais diversas formas pela medida comum que suas existências fundamentais, seus corpos, oferecem como termo de relações. Entre coletivo e indivíduo existe uma questão real: a medida. É com a medida que as ações no mundo serão possíveis; é com a medida que os povos poderão eleger estéticas, modos de comportamento, linguagens. A interação interna e externa à Humanidade é uma literal e imediata relação plástica.

A medida plástica das relações humanas se demonstra à luz da necessidade de produzir implementos. E essa se desdobra em duas circunstâncias: na finalidade exterior dos implementos e na concepção abstrata de suas funções. A primeira, objetiva, tangível, é o que exibe a existência das ferramentas: úteis, eficazes, lançadas sobre a matéria do mundo para moldá-la segundo as intenções de um utilizador. A segunda, abstrata e indireta, está impregnada na consciência humana como exacerbação da existência corporal, de suas medidas no mundo. As ferramentas, visíveis e reconhecíveis na história da Humanidade, são assim um fruto consciente de algo que lhes torna úteis. A concepção da função de uma ferramenta, de um implemento, é um resultado inconsciente do pleno uso consciente das medidas corporais. A raiz desse estímulo é o corpo humano39, esse meio tão bem-sucedido de

mensuração do espaço, do tempo, do mundo. Transformar a matéria significa atuar entre indivíduo e coletivo: com o corpo (Kapp 2018: 24). Do mesmo modo que diferem apenas em grau a finalidade externa de uma ferramenta e a concepção abstrata de sua função, indivíduo e coletivo se dissociam apenas em grau entre atividades conscientes e atividades inconscientes. A ferramenta e o indivíduo, claros como o sol, estão frente a frente com a matéria, com a deliberação de suas ações. Já a concepção da ferramenta e o coletivo, subterrâneos e abstratos, percorrem as motivações não ditas que ora se camuflam como óbvias, ora se escondem entre instinto e atitudes impulsivas. A fisiologia e a morfologia dos sistemas de necessidade da Humanidade manobram os mesmos fenômenos em graus diferentes. Os meios de satisfação dessas necessidades são a um só tempo atividades conscientes e inconscientes que levam os corpos a se movimentarem individual e coletivamente.

Muito do que se pode chamar de “obra da natureza” se trata, no fim, de obra da Humanidade. Aquilo que os corpos humanos tocam se torna parte de um jogo de forças sintetizado entres produtos e matérias-primas. O fenômeno humano é a súmula de transformação das matérias do mundo. A mensuração dessa transformação, a escala antropológica, fez da técnica um nome e uma ideia para ordem de acontecimento desse fenômeno. Mas quem o popula? Quem o governa? Quem o torna exequível em tantas velocidades distintas ao longo da história material da Humanidade? O fenômeno da técnica parece ter encontrado seu futuro não na internalização das habilidades, na otimização das funções orgânicas. Pois sim na excedência das funções eficazes. O que não pudera realizar o organismo, o corpo humano, em algum momento as ferramentas, os aparatos mecânicos o puderam realizar. E o que pudera realizar o organismo, o corpo humano, os aparatos técnicos o realizaram mais rápida e precisamente. Note-se: a técnica é uma nova história da evolução do organismo; uma nova etapa das capacidades materiais que os seres humanos solidificaram no excesso de sua fisiologia. A técnica é um novo capítulo da vigorosa recomendação do conhece a ti mesmo. A escala antropológica se constitui orgânica e mecanicamente como a escala de perspectiva da Humanidade (Kapp

engendrada pelos estóicos, e assim perpetuada, como um “sistema de premissas e conclusões”; sistema cuja natureza se resume ao guia e ao lugar da indagação e do conhecimento do ser. A destituição que interessa a Kapp é de um entendimento imediato entre razão e medida. A medida nada mais é do que uma arte da oscilação entre grandeza e unidade. Não é da natureza da razão, da psychè lidar com a

2018: 25). É preciso compreender que para toda Humanidade, orgânica, há um excesso funcional e eficaz de natureza mecânica.

Contrariando a tese de que é o organismo, por excelência, o sistema do desenvolvimento espontâneo, adianto que os mecanismos, os aparatos técnicos mais ou menos automáticos, possuem desenvolvimento vinculado ao desenvolvimento orgânico. Fato que lhes atribui em alguma medida desenvolvimentos mais dinâmicos e autônomos do que se poderia pensar.

(…)

No documento Sobre o socius e as séries mecânicas (páginas 127-130)