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De acordo com Van Dijk, frames seriam conceitos genéricos criados

socialmente que fariam parte de nossa memória semântica:

(...) Entretanto, os atos de fala podem estar associados aos frames. Antes de

tudo, nós temos sequências típicas de atos de fala, cujas estruturas têm um

caráter mais ou menos convencional ou ‘ritual’, tais como proferir

conferências, fazer pregações, ralizar conversações cotidianas ou escrever cartas de amor. Em tais casos, temos claramente diferentes atos (de fala), podendo cada um ter uma função característica na atualização do episódio: abertura, apresentação, cumprimento, argumentação, defesa, fechamento, etc. nesses casos podemos ter diferentes estratégias para realizar de forma completa nossos objetivos. Além disso, ao contrário (da maioria) dos atos de fala, elas podem ser culturalmente dependentes. Em segundo lugar, os atos de fala são interpretados com base nos conhecimentos de mundo do tipo

frame. (VAN DIJK, 2011, p. 79).

O conceito posto pelo autor acima foi por nós identificado no exemplo do

julgamento ora analisado. Pois bem, a fim de justificar a estratégia linguística e

interpretativa que conduziu a racionalidade desse julgador em específico, concluímos

que ele preferiu ficar com suas convicções e suas representações mentais prévias, as

quais compunham um frame adquirido e armazenado anteriormente, sem se importar

em modificar ou adequar essa “moldura” para o caso em tela. Analisemos, por meio

da regra modus ponens conjuntiva, as possibilidades e o custo-benefício do

processamento deste raciocínio abaixo:

Se os praticantes de cultos afro-brasileiros temem incitação à violência no

Youtube contra si por prática religiosa (p1)

Se os cultos afro-brasileiros não podem ser considerados religião porque

não possuem texto, nem hierarquia nem Deus (p2)

Então, não há necessidade de remover os vídeos da Igreja Universal do

Youtube porque não incita violência contra nenhuma religião (q)

De acordo com o que depreendemos da TR e da TA, a conclusão anterior

custaria menos (em termos de gasto de energia mental), ou seria a mais econômica

para o aparato mental daquele magistrado elaborar a conclusão que causou polêmica,

do que elaborar uma conclusão como sugerimos abaixo:

Se os praticantes de cultos afro-brasileiros temem incitação à violência no

Youtube contra si por prática religiosa (p1)

Se os praticantes de culto brasileiros são, em sua maioria,

afro-descendentes que sofrem com racismo e discriminação (p2)

Se os membros da Igreja Universal postam vídeos no Youtube que

discriminam prática religiosa de matriz africana, infringindo dispositivo

constitucional que garante liberdade de culto no território brasileiro (p3)

Se os cultos de matriz africana não têm como referência os cultos cristãos

que baseiam sua fé num texto escrito, organizam seus templos

obedecendo uma hierarquia, e veneram um único Deus (p4)

Se os praticantes de cultos afro-brasileiros temem a incitação à violência

contra si porque há inúmeros casos de ataques a terreiros e centros

afroespiritualistas ocorridos em diversos estados do Brasil nos últimos

anos (p5)

Então, considerando a “fumaça do bom Direito” e o “perigo na demora”

concedo liminar para que sejam imediatamente retirados do Youtube tais

vídeos, evitando-se possível violência contra parte da população

nacional que pratica tais cultos (q)

Mercier & Sperber (2011) apontam que este tipo de dilema, que não só os

operadores do Direito vivem, entre escolher ficar com suas crenças prévias –frames

ou assimilar novas informações e reprocessá-las, elaborando novas inferências e

chegar a uma conclusão nova, quando resolvido poderia evitar os indesejados

mal-entendidos, ou, no caso do juiz do exemplo em análise, evitar que sua decisão tivesse

sido reformada pelos seus superiores, causando-lhe constrangimento. Tais autores

sugerem que para evitar problemas, o ideal é que fizéssemos um procedimento de

checagem da nova informação e de calibragem desse novo input com o conteúdo das

representações mentais prévias. E o mecanismo capaz de nos dar alguma orientação

a respeito de como realizar nesse procedimento foi apresentado por Sperber et al.

Os dois mecanismos mais importantes são a verificação de confiança e a verificação de coerência. As pessoas comumente calibram a confiança que dão a diferentes interlocutores com base na sua competência e na sua benevolência (Petty & Wegener, 1998). Vestígios de calibração da confiança com base na competência foram notadas em crianças de 3 anos (para revisões, veja Clèment 2010; Harris 2007). A capacidade de desconfiar de informantes mal intencionados apareceu em estágios entre as idades de 3 e 6 (Mascaro & Sperber 2009). A interpretação das informações comunicadas envolve a ativação de um contexto de crenças previamente mantidas e a tentativa de integrar as novas com as informações antigas. Este processo pode trazer as incoerências anteriores entre informações antigas e recém-comunicadas. Alguma verificação de coerência inicial ocorre assim no

processo de compreensão. (SPERBER et al., 2010, p. 60. Tradução nossa).

No caso de um julgamento como este que estamos analisando, devemos levar

em conta que o magistrado está em uma posição diferenciada em relação às

interações, digamos, “convencionais”.

Nos tribunais, a própria posição física do juiz naquele espaço já denota isto.

Geralmente eles ficam sobre uma plataforma ou usam uma cadeira com assento mais

alto e encosto mais largo em relação aos demais participantes de uma audiência. Tal

display indica que o juiz paira sobre as partes e, portanto, ambos litigantes, que

sentam-se à sua direita e à sua esquerda, serão, ou pelo menos deveriam ser, alvos

de sua observação ou vigilância

28

.

Portanto, a eleição da estratégia que conduzirá à elaboração do raciocínio que

produzirá a conclusão – ou a decisão – deveria necessariamente passar por esse

procedimento de vigilância epistêmica, calibrando-se o contexto das representações

mentais comas novas informações (provas) e testando o grau de confiabilidade dos

provedores das novas informações (inputs).

Os riscos que advêm da “queima” dessas etapas, de forma deliberada ou não,

podem gerar o que os operadores do Direito chamam de prejulgamentos.

O prejulgamento basicamente se dá quando um juiz se filia a uma

determinada corrente filosófica e a segue com muita fidedignidade, externando

lealdade a essa corrente em todas as suas decisões. É uma postura bastante evitada

pelos magistrados, até porque, após alguns anos de trabalho apreciando questões

similares e decidindo-as sempre da mesma forma,sendo fiel a seus frames, um juiz

pode ficar marcado, para o bem ou para o mal, nos meios forenses com a(s) pecha(s)

de “liberal”, “conservador”, “radical”, “caneta-pesada”, “Maria vai-com-as-outras” etc.

28 Isto também é um frame, que deve fazer parte do conhecimento dos envolvidos na realização do ato.

E os operadores do Direito quando têm seus processos distribuídos para determinado

julgador já presumem, por antecedência, que a decisão será num determinado

sentido.

Exemplificando. Por fidelidade a princípio religioso, um magistrado firma

convicção contra a adoção de crianças órfãs por pares homoafetivos e nega todos os

pedidos nesse sentido que lhe foram designados. Os advogados que militam naquela

comunidade logo percebem que é extremamente provável que todos os processos

que lhe forem sorteados para julgamento, envolvendo pedidos de adoção por

homoafetivos, deverão ser indeferidos. Assim, ao saberem que o pedido de seus

clientes em tal situação foi encaminhado a esse magistrado já pode dar, de antemão,

como uma batalha perdida em desfavor de seus representados.

O penalista Christiano Fragoso (2010) discorrendo sobre o prejulgamento

leciona:

11. Embora não haja previsão legal explícita, deve ser possível, ao meu sentir, a arguição da suspeição na hipótese em que o Magistrado prejulga a causa, ou seja, manifesta açodadamente seu convencimento acerca da demanda que lhe é submetida.

12. O prejulgamento em que incorra um Magistrado transforma o processo em um jogo de cartas marcadas, conspurcando a obra de realização da Justiça, de que somos todos operários. O Juiz deve presidir a instrução do processo com absoluta isenção e imparcialidade, formando paulatinamente ao longo do devido processo legal seu convencimento, o qual só deve ser ultimado e manifestado no instante final do pronunciamento da sentença. 13. Um dos atributos elementares para a atividade judicante é,

indubitavelmente, a imparcialidade. É conditio sine qua non para o legítimo

exercício da função jurisdicional. Deve o juiz manter-se equidistante entre as partes ao longo de todo o processo.

14. Desde os impedimentos constitucionais dos juízes, previstos no art. 95, parág. Único, da CF, até as hipóteses legais de suspeição e impedimento, tudo visa à preservação da imparcialidade dos magistrados.

(...)

17. O juiz que demonstrou certeza prévia quanto ao objeto do processo, está psicologicamente condicionado a não apreciar bem as teses opostas e a

ratificar seus pré-conceitos. Como leciona José Antônio Pimenta Bueno: ‘O

amor próprio de sua previdência convidará a que não aprecie bem as contradições ou razões oppostas, a que faça triunphar sua penetração: elle julgará antes de ser tempo de julgar [sic]. (FRAGOSO, 2010, p. 2-3).

Do tanto quanto expusemos nesta análise, queremos remarcar que o debate

referente à “imparcialidade” e “neutralidade” dos magistrados é extremamente

necessário, haja vista termos observado, ao longo da elaboração desta tese, que a

racionalidade na formação da convicção está umbilicalmente ligada à capacidade de

quem traz os inputs (provas, argumentos etc.) de persuadir o julgador, gerando

anterior). Sem esquecermo-nos de mencionar a capacidade persuasiva dos

profissionais do Direito que devem ser desenvolvidas para instigar os julgadores a

irem além de seus contextos mentais sedimentados, e, assim, buscar novos aportes

e referências atualizadas a fim de guiar as inferências sobre os fatos, provas e

argumentos ali apresentados. Registre-se, de passagem, que tal tarefa não é, de

maneira alguma, fácil de cumprir.

Considere-se, ainda, que o Judiciário brasileiro, atualmente, está abarrotado

de casos pendentes de solução como jamais esteve antes. Adicionalmente, as vagas

para a magistratura e serviços de apoio aos tribunais estão sempre incompletas. A

administração judiciária não consegue repor seus membros com a mesma velocidade

com que as vagas ficam ociosas, seja por aposentadoria, mudança de órgão ou setor

etc. Nesse cenário, a probabilidade de prolação de decisões por atacado, sem a

devida apreciação “caso a caso”, é bastante alta. E é justamente aí, cremos, que

reside a atual tendência de os julgadores optarem pelo raciocínio mais rápido e menos

elaborado, pela solução inferencial mais econômica, conforme apontado por Mercier

& Sperber (2011), gerando distorções tal como a discutida neste capítulo. Aliás,

visando agilizar o trabalho das instâncias inferiores, criou-se a figura das Súmulas

Vinculantes, que, ao fim e ao cabo, são decisões pré-estabelecidas pelo Tribunal

Superior que devem ser seguidas, conforme já mencionamos.

9 A INÉRCIA DO LEGISLATIVO E O JUDICIÁRIO LEGISLADOR

Desde 2013 há um debate entre os membros do Congresso Nacional quanto

ao emprego do termo família no ordenamento jurídico brasileiro, haja vista que, em

2011, o Supremo Tribunal Federal (STF) levou a termo o julgamento da Ação Direta

de Inconstitucionalidade

29

(ADIn) n

o

4.277-DF e a Arguição de Descumprimento de

Preceito Fundamental

30

(ADPF) n

o

132-RJ, nas quais se denunciava a inércia do

Poder Legislativo para regular, por meio de leis infraconstitucionais, situações de fato

recorrentes na sociedade brasileira que desde há muito tempo restavam pendentes

de solução; dentre tais situações mencionava-se o Direito ao reconhecimento da

união civil entre pessoas do mesmo sexo e sua equiparação a entidade familiar: o

Direito à herança e à partilha de bens entre parceiros homoafetivos, em caso de morte

ou de separação; a dissolução de sociedades comerciais, e até a possibilidade de

adoção de filhos por esta parcela da população.

A morosidade do Legislativo na elaboração dessa legislação ordinária vinha

acarretando transtornos e prejuízos aos membros da sociedade que vivenciavam tais

situações e, ao procurar o Poder Judiciário para solucionar tais conflitos, não recebiam

uma resposta satisfatória. A inércia do Legislativo e as “mãos amarradas” dos

magistrados, por não contarem com uma legislação específica, além de violar

princípios e regras estabelecidas na Constituição Federal de 1988, especialmente

aqueles referentes à liberdade, igualdade, dignidade da pessoa humana, abalavam a

segurança jurídica do Estado.