2 IMPRENSA, IDENTIFICAÇÃO E IDOLATRIA: HERÓIS E VILÕES NO
2.2 França, 1938: A representação e o êxito do futebol mulato
O 3º Mundial teve a França como país sede. Entre os participantes, apenas Brasil,
Cuba e índias Holandesas - hoje Indonésia - eram países de fora da Europa. A Seleção
Brasileira, com o apoio do Governo Getúlio Vargas, surgia entre as favoritas, de acordo com a
imprensa da época. Apesar de ter ficado mais de um ano sem entrar em campo – o último jogo
havia sido contra a Argentina em 1937 -, a equipe do técnico Ademar Pimenta adquire esse
status, pois é a primeira vez que o selecionado consegue levar os melhores jogadores para
uma Copa.
Se em 1930, o país foi representado por um combinado de jogadores, na maioria, do
Rio de Janeiro, e, em 1934, a implantação do profissionalismo impediu que muitos craques
pudessem ser convocados, 1938, com a relação de paz entre dirigentes de São Paulo e CBD,
sob o comando de Luiz Aranha, permitiu a convocação dos principais nomes.
Após preparação em Caxambu-MG, a equipe embarcou para a França. A confiança e o
apoio da torcida eram evidentes na despedida durante o embarque e nas escalas em Salvador e
Recife. O Brasil foi o primeiro país a chegar à sede do torneio, com 20 dias antes da estreia.
Assim, como em 1934, a Copa do Mundo seria realizada em jogos eliminatórios. Nos
principais jornais do país, o clima era de euforia pela estreia do time, diante da Polônia. A
Esperamos deles, senão o triumpho total no certame, ao menos uma passagem destacada pelo IV Campeonato Mundial de Futebol [na verdade, era o III Campeonato], de forma que nosso esporte predileto confirme o bom conceito na qual é tido no estrangeiro, conceito este conquistado através de brilhantes excursões dos nossos quadros pelo Velho Continente e nos cotejos máximos da América do Sul. Devemos basear a nossa confiança ao facto de termos enviado à Europa, com a cooperação de todos, uma representação que de facto é o que de melhor possuímos na matéria. [...] Nossos desejos de sucesso, felizmente, têm fortes bases. Desta vez não houve scisão no esporte nacional. Muito ao contrário, sobrou cooperação de todos. (FOLHA DA MANHÃ, 05/06/1938, p. 26).
O mesmo jornal exalta um suposto estilo de jogo, que seria único dos representantes
nacionais.
O povo elegeu o quadro da Itália para seu favorito, como melhor da Europa, para chegar à final, mas o Brasil, que continua desconhecido para os amantes do futebol europeu, tem excelentes probabilidades de destroçar as esperanças dos italianos, na semi-final. [...] A volta do sol e as perspectivas de bom tempo e de campo secco, representam uma vantagem dos brasileiros, sobre os poloneses, proporcionando a oportunidade para exhibição da malícia e improvisação dos jogadores do Brasil, contra o estylo acadêmico e vigoroso seguido pelos europeus. (FOLHA DA MANHÃ, 05/06/1938, p. 5).
Um estilo, com características da malandragem, e, segundo Muniz Sodré, baseado na
essência que poderia ser resumida pelo ditado: “brasileiro já nasce feito para quebrar galho e
dar um jeito”.
Lida-se aqui com o famoso mito da esperteza do elemento nacional. Este mito faz crer que dificilmente se encontra alguém mais malicioso, mais inventivo que o brasileiro, supostamente capaz de superar qualquer situação difícil. Quanto mais inferiorizado pareça, maior será a sua vitória (SODRÉ, 2010, p. 150).
São imagens construídas do estilo brasileiro de se jogar futebol que interferem na
realidade construída. Não que todo brasileiro tenha “malícia” e “improvisação” em sua forma
de atuar, mas acaba sendo consolidado um estilo pelo discurso da imprensa. Conforme
colocou Goffman (1985, p. 231), a aparência, a representação se tornam importante no
contexto contemporâneo:
Uma cena corretamente representada conduz a platéia a atribuir uma personalidade ao personagem representado, mas esta atribuição – este “eu” – é um “produto” de uma cena que se verificou, e não uma “causa” dela. O “eu”, portanto, como um personagem representado, não é uma coisa orgânica, que tem uma localização definida, cujo destino fundamental é nascer, crescer e morrer; é um efeito dramático, que surge difusamente de uma cena apresentada, e a questão característica, o interesse primordial, está em saber se será acreditado ou desacreditado (GOFFMAN, 1985, p. 231).
Para o autor Serge Moscovici (2013, p.8), essas “representações sustentadas pelas
influências sociais da comunicação constituem as realidades de nossas vidas cotidianas e
servem como o principal meio para estabelecer as associações com as quais nós nos ligamos
uns aos outros”. As representações, então, possuiriam duas funções:
Em primeiro lugar, elas convencionalizam os objetos, pessoas ou acontecimentos que encontram. Elas lhes dão uma forma definitiva, as localizam em uma determinada categoria e gradualmente as colocam como um modelo de determinado tipo, distinto e partilhado por um grupo de pessoas. Todos os novos elementos se juntam a esse modelo e se sintetizam nele. Assim, nós passamos a afirmar que a terra é redonda, associamos comunismo com a cor vermelha, inflação com o decréscimo do valor do dinheiro. Mesmo quando uma pessoa ou objeto não se adequam exatamente ao modelo, nós o forçamos a assumir determinada forma, entrar em determinada categoria, na realidade, a se tornar idêntico aos outros, sob pena de não ser nem compreendido, nem decodificado. [...] Em segundo lugar, representações são prescritivas, isto é, elas se impõem sobre nós com uma força irresistível. Essa força é uma combinação de uma estrutura que está presente antes mesmo que nós comecemos a pensar e de uma tradição que decreta o que deve ser pensado (MOSCOVICI, 2013, p. 34-36).
Ao representar a Seleção Brasileira com um estilo próprio de se jogar futebol,
acabamos por plasmar uma caraterística, como se ela realmente fosse, coextensiva a todos os
membros dessa categoria. Com isso, os meios de comunicação influenciam e contribuem para
estabelecer o que Moscovici chama de “senso comum”.
O senso comum está continuamente sendo criado e re-criado em nossas sociedades, especialmente onde o conhecimento científico e tecnológico está popularizado. Seu conteúdo, as imagens simbólicas derivadas da ciência em que ele está baseado e que, enraizadas no olho da mente, conformam a linguagem e o comportamento usual, estão constantemente sendo retocadas. No processo, a estocagem de representações sociais, sem a qual a sociedade não pode se comunicar ou se relacionar e definir a realidade, é realimentada. (MOSCOVICI, 2013, p.95).
Obviamente que os conteúdos e sentidos representados variam dentro da mesma
sociedade, da mesma cultura, como acontece também com seus meios de expressão
linguística. No conceito levantado por Moscovici,
Representar significa, a uma vez e ao mesmo tempo, trazer presentes as coisas ausentes e apresentar coisas de tal modo que satisfaçam as condições de uma coerência argumentativa, de uma racionalidade e da integridade normativa do grupo. É, portanto, muito importante que isso se dê de forma comunicativa e difusiva, pois não há outros meios, com exceção do discurso e dos sentidos que ele contém, pelos quais as pessoas e os grupos sejam capazes de se orientar e se adaptar a tais coisas. Consequentemente, o status dos fenômenos da representação social é o de um status
simbólico: estabelecendo um vínculo, construindo uma imagem, evocando, dizendo e fazendo com que se fale, partilhando um significado através de algumas proposições transmissíveis e, no melhor dos casos, sintetizando em um clichê que se torna um emblema (MOSCOVICI, 2013, p. 216).
A mídia tem esse poder de mitificação e de transformação de uma personalidade
comum em “herói”. Certas opções textuais nos mostram como são representados os atletas da
Seleção, como no trecho que destaca dois dos jogadores mais importantes do time de 1938:
DOMINGOS – Considerado o melhor zagueiro do continente. Jogador internacional. Porque possui, entre todos os jogadores brasileiros, os mais honrosos títulos do futebol, pois é campeão do Uruguay, Argentina e do Brasil. [...]
LEÔNIDAS – “O diamante negro”. Além de aclamado no estrangeiro, é campeão carioca e brasileiro (FOLHA DA MANHÃ, 05/06/1938, p. 26).
A presença dos dois torna-se crucial para o sucesso da equipe na Copa de 1938.
Domingos da Guia, com uma suspeita de gripe, vira dúvida para a estreia. E O Globo dá
destaque à possível ausência do zagueiro: “Desastrosa para o scratch a ausência de Domingos!
– Adhemar Pimenta considera decisiva para as probabilidades de victoria a actuação do
grande “back” no jogo de amanhã” (O GLOBO, 04/06/1938, capa vespertina). Mas logo na
edição seguinte do impresso, a dúvida é sanada: “Domingos jogará! – ‘O Globo’ fala pelo
telephone internacional com o maior back do mundo” (O GLOBO, 04/06/1938, capa das
17h).
Na mesma edição, em entrevista por telefone, o atacante Leônidas faz uma pergunta ao
repórter: “- Quero saber apenas uma coisa dos brasileiros confiam no ‘scratch’? - Confiam de
forma absoluta. Aqui todos estão certos de que vocês vencerão” (O GLOBO, 04/06/1938, p.
2). O trecho deixa evidente a ideia de favoritismo e apoio da torcida, confiança na vitória
brasileira.
Figura 5: Seleção treina em Strasburgo para a estreia na Copa