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Eixo III Alternância presença-ausência (PA) Este eixo caracteriza as ações maternas que a tornam alternadamente presente e ausente A ausência materna marcará

OS ESTUDOS CONTEMPORÂNEOS SOBRE O ESTÁDIO DO ESPELHO

7.3. Outros desenvolvimentos teórico-clínicos fundamentados na teoria lacaniana sobre o estádio do espelho.

7.3.1. Françoise Dolto e a imagem inconsciente do corpo

Em primeiro lugar abordarei como, Françoise Dolto (1986, 1987)52, respeitada discípula de Lacan, avança nas formulações sobre o estádio do

espelho. Devemos ter em conta que as contribuições desta autora formam parte dos

fundamentos dos IRDIs e do AP3.

52 Sem se referir a Schilder, Françoise Dolto retomou o termo em 1984, numa perspectiva lacaniana, para designar “a encarnação simbólica inconsciente do sujeito desejante”, ou seja, uma representação inconsciente do corpo, distinta do esquema corporal, que seria sua representação consciente ou pré- consciente (ROUDINESCO; PLON, 1997, p. 370).

174 As contribuições de Dolto (1986, 1987) sobre a imagem inconsciente do corpo foram tratadas na pesquisa realizada como dissertação de mestrado (De Césaris, 2006/2009), considerações recuperadas também neste estudo.

Comprovamos que esta psicanalista, em seu texto A imagem inconsciente do

Corpo (1984/1986), considerado como o mais consistente de sua produção teórica,

avança e contraria em parte o postulado por Lacan. Para Dolto o estádio do espelho é uma confirmação da experiência de individualização narcísica primária, iniciada com o narcisismo fundamental. Para ela o narcisismo primário não vem substituir o narcisismo fundamental, ele é inserido sobre este, no sentido de acrescentar o campo relacional da criança. Afirma que a imagem vista pelo bebê no espelho produz estranhamento frente à

imagem inconsciente do corpo, a imagem mais remota que o bebê pode ter de si mesmo.

Essa experiência do espelho faz emergir uma inadaptação narcísica entre a imagem inconsciente do corpo e o esquema corporal da criança53; conceitos, que não devem ser confundidos, pois o segundo desses termos alude ao individuo como representante da espécie, sendo, em princípio, o mesmo para todos.

O esquema corporal é uma realidade de fato, de certa maneira, é nosso viver carnal em contado com o mundo físico. Nossas experiências da realidade dependem da integridade do organismo, ou de suas lesões transitórias ou permanentes, neurológicas, musculares, ósseas e também de nossas sensações fisiológicas viscerais, circulatórias ou ainda chamadas sinestésicas. (DOLTO, 1984, p. 18)

A imagem corporal inconsciente, pelo contrário, é própria de cada um, ligada ao sujeito e a sua história. Imagem que sustenta o narcisismo e que é eminentemente inconsciente, síntese viva das experiências emocionais, encarnação simbólica do sujeito desejante. Assim, em um mesmo sujeito podem coexistir um esquema corporal inválido e uma imagem do corpo sadia, segundo Dolto (1984).

7.3.1.1. Alguns comentários para a discussão

53 Para o esclarecimento desses termos, Kupfer realiza uma valiosa contribuição quando os diferencia na

síndrome autista. “Se o eu-real é sistema nervoso, pode se dizer que é ele que sustenta o desenvolvimento do esquema corporal. É sabido que o autista, embora não tenha imagem corporal, tem esquema corporal, o que permite que ande, desvie com habilidade dos objetos, etc. O autista conhece bem essa montagem corporal, mas é um esquema real, ao qual não foi enodada essa imagem narcísica, imaginária, ofertada como dom pelo agente materno” (KUPFER, 2002, p. 224).

175 Esta última afirmação traz à tona as crianças do CEI II (creche especial), cujos corpos, severamente marcados por uma paralisia cerebral, e presos a uma cadeira de rodas, não são obstáculo para que estabeleçam com seus cuidadores (mães e professores) afetuosos e ricos intercâmbios de sorrisos e reações frente aos estímulos do meio. Nesse campo de reflexões consideramos particularmente significativa a diferença de atitudes entre as professoras do CEI I (creche comum) e as do CEI II (creche especial). No primeiro caso, observamos que existe um modo de assumir a tarefa segundo os moldes das creches tradicionais, cuidadores de crianças enquanto os pais trabalham colocando ênfase na higiene e na alimentação, com algumas atividades como complemento, muitas vezes as crianças ficam sentadas no chão assistindo vídeos de desenhos animados. Mas, não há um interesse particular em despertar o olhar das crianças com um apelo direcionado para produzir uma resposta diferentemente do que foi constatado na creche especial. Nunca foram observadas nesta creche situações em que seus alunos estivessem assistindo televisão, embora as observações das duas creches tenham sido realizadas em horários bem diferentes e em dias diferentes. A hipótese é a seguinte: as professoras do CEI I (creche comum) têm certeza de que são olhadas, que pertencem ao mundo imaginário e simbólico dos alunos, não precisam ser tão expressivas, nem tentar fisgar o olhar das crianças. Ao contrário, as do CEI II (creche especial) precisam ser olhadas para ter uma resposta e a confirmação de que são espelho, para devolver o olhar. Se elas não fizessem isso, as crianças ficariam isoladas e, pior, elas não teriam uma consistência em sua posição de educadoras/sujeitos, confirmação preciosa do circuito olhar/ser olhado. Estes comportamentos poderiam aludir ao que Dolto (1984) afirma sobre a evolução de um sujeito representada por uma imagem do corpo não inválida: esta depende da relação emocional dos outros com a criança, e de que estes lhe ofereçam as palavras verídicas relativas à sua verdadeira condição:

A imagem do corpo é o traço estrutural da história emocional de um ser humano. Ela é o lugar inconsciente (e presente aonde?) no qual se elabora toda expressão do sujeito; lugar de emissão e recepção das emoções inter- humanas na linguagem (DOLTO, 1984, p. 19).

No caso do CEI I (creche comum), como já mencionamos, não se apresentam problemas de resposta da criança aos outros, ao estar já instalada a imagem

176 embora como vimos, quando a criança entra no circuito do social, demanda maciçamente esse olhar. No outro caso do CEI II (creche especial), são os outros que ativamente despertam o olhar da criança. Isto é compatível com a reflexão de que a constituição da imagem especular dentro do estádio do espelho não é um momento do desenvolvimento, senão uma estrutura constituinte do sujeito psíquico, a que se atualiza em cada laço social que ele estabelecer.

Em A Imagem inconsciente do corpo, Dolto (1986) segue fase a fase (imagem de base, imagem funcional e imagem erógena) a elaboração da imagem inconsciente do corpo e suas patologias, que, para esta psicanalista, revelam, por uma parte, um fracasso da simbolização, e por outra, uma falha na operação da proibição. Ela sustenta que a função simbólica é específica da condição humana, a qual se organiza em uma linguagem portadora de sentido: “Só a linguagem permite o que não é um adestramento: termo que deveria ser desterrado quando se trata de um ser humano, cuja aprendizagem, desde as primeiras horas de sua ‘criação’, é já educação” (DOLTO, 1986, p. 153-166).

Dolto (1986) afirmou que o pior para um ser humano é ficar privado de sentido, daquilo que não foi simbolizado pela linguagem. Quando ela diz que a criança precisa de um intercâmbio conversacional, de rosto a rosto, alude ao rosto como revelador, indicador de sinceridade. Com efeito, é frequente observar na clínica uma espécie de jogo de máscaras que acontece entre os pais e os filhos com dificuldades. Essa autora afirma que a imagem do corpo é estruturante para a identidade do sujeito, que através dela realiza sua identificação primordial. O estado de desamparo do bebê encontra uma solução sozinho, por intermédio de uma precipitação segundo a qual ele antecipa o amadurecimento de seu próprio corpo, graças ao fato de mergulhar na imagem do outro (DOLTO; NASIO, 1987). Essa precipitação (termo eminentemente lacaniano) na imagem do outro é o recurso por meio do qual consegue sair da prematuração neonatal. O bebê fica assim alienado e só se unifica ao preço de ficar fusionado com aquilo a partir do qual consegue se constituir. Se existe um eu, é como resultado do efeito que o outro tem sobre a criança, portanto, não se trata de que o bebê constitui o outro a partir de si, senão que a imagem do corpo, que, constituída no outro e pelo outro, fica primordialmente alienada no campo do outro.

A imagem do corpo é a cada momento memória inconsciente de toda a vivência relacional, e ao mesmo tempo, atual e viva, se acha em situação

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dinâmica, à vez narcísica e interrelacional, disfarçável e atualizável na relação aqui e agora, mediante qualquer expressão fundada na linguagem, desenho, modelado, invenção musical, plástica, mímica e gestual. (Dolto, 1984/1986 p. 21)

Consideramos importante referir-nos às diferenças entre a posição de Lacan (estádio do espelho) e a de Dolto (espelho do narcisismo primário). Para isso recorreremos a Juan David Nasio (DOLTO; NASIO, 1987), que sintetiza essas diferenças segundo três aspetos:

1) O caráter de superfície plana e reflexiva do espelho em Lacan e a superfície psíquica uni-refletora em Dolto, esta última refletindo as formas audível, sensível e intencional, além da visível. Para ela, a função relacional (o espelho do ser do sujeito no outro) seria o mais importante;

2) A relação do corpo real da criança com a imagem reenviada pelo espelho: para Lacan, o corpo fragmentado original da criança é confrontado à imagem especular que “antecipa imaginariamente a unidade tardia do eu [Je] simbólico; esta imagem é uma ilusão de totalidade e maturação frente ao real disperso e imaturo do corpo infantil” (p. 35). Para Dolto, o corpo inicial que sofre o impacto de sua imagem no espelho, não é fragmentado, mas coeso e contínuo, e estará sempre se decidindo entre duas imagens: a imagem inconsciente do corpo e a imagem especular (escópica), que modela e individualiza a primeira, confirmando uma individualização narcísica primária;

3) A natureza afetiva do impacto produzido na criança pela imagem do espelho: para Lacan, esse impacto produziria uma reação “jubilatória”, assinalando a assunção pela criança de sua imagem; já para Dolto, o impacto produziria uma “castração”, ao provocar a constatação da diferença entre o que a criança sente ser e a imagem que o espelho lhe reflete. Assim, para Dolto, o narcisismo primário resulta da passagem pela prova que representa para a criança não ser a imagem que lhe reflete o espelho (DOLTO; NASIO, 1987, p. 51).

Silvia Fendrik (2007), psicanalista argentina, no volume dedicado a Dolto aborda outras questões que consideramos relevantes. Dolto parece ter-se inspirado inicialmente em Freud, fazendo suas as considerações freudianas sobre o corpo

178 significantes das histéricas, mas trazendo-as às primeiras épocas da vida, nas quais se estrutura uma imagem inconsciente do corpo em virtude dos primeiros prazeres e as primeiras dores, estruturalmente diferente ao esquema corporal anatômico.

Fendrik (2007) resgata na aula de 5 de dezembro de 1956 do Seminário As

relações de objeto uma referência explícita de Lacan à teoria construída por Dolto sobre

a imagem inconsciente do corpo (FENDRIK, 2007, p. 36). Lacan afirma que essa imagem inconsciente tem a faculdade de organizar, ordenar, inclusive articular certas vivências; por isso está revestida de eficácia clínica como significante, só assim a imagem “entra em jogo e representa algo” (LACAN, 1956-57, apud FENDRIK, 2007, p. 37). E acrescenta que é sempre em relação a outras imagens que cada uma delas toma seu valor cristalizante e orientador: “Dolto tenta dizer por meio da noção de imagem do corpo, aquilo que o inconsciente ‘deve’ ao corpo. Trata-se, nada a mais e nada menos, que do enodamento entre o inconsciente e o corpo que Freud, através de suas tópicas, e Lacan, de sua topologia, não cessaram de tentar formalizar (FENDRIK, 2007, p. 37).