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4. MULHERES EM DEVIR – EM BUSCA DO SOL, AO ENCONTRO DA LEOA

4.1. Frances Mayes em Sob o Sol da Toscana

Em Sob o Sol da Toscana, encontramos a história de Frances, que parte dos Estados Unidos da América para a Itália. É a perspetiva da protagonista que norteia o desenvolvimento dos acontecimentos. O filme é contado na primeira pessoa, em formato de autobiografia, a partir do livro de Frances Mayes. O filme é uma produção norte-americana, do género comédia romântica, e foi lançado em 2003. Foi produzido e dirigido por Audrey Wells e a atriz Diane Lane interpreta a protagonista.

Frances é uma escritora que se dedica profissionalmente à crítica literária. É casada e tem uma vida estável, bastante alinhada com os padrões sociais do lugar onde

Figura 3 – Frances Mayes e Diane Lane Fonte: Moviestore collection Ltd/Alamy, 2010

vive. Sob esse enquadramento começa o filme. Contudo, já nas primeiras cenas vemos essa realidade sofrer alterações.

A insinuação maldosa de que o seu marido tem um relacionamento extraconjugal e se desdobra em contactos com o seu advogado para tratar dos termos do divórcio configura um primeiro encontro intensivo.Provoca uma forte alteração no estado físico e emocional de Frances, com reflexos nas suas atitudes e escolhas. A intensidade da situação é melhor descrita através das palavras de Frances:

Sabe o que é mais surpreendente num divórcio? É que não nos mata como uma bala no coração ou um acidente de carro. Devia fazê-lo. Quando alguém a que prometemos amar “até que a morte nos separe” nos diz: "eu nunca te amei", deveríamos morrer instantaneamente. (Frances)

As emoções e sentimentos que daí emergem geram um processo de reavaliação e um rearranjo da autobiografia de Frances, já que se imaginava num casamento onde houvesse reciprocidade afetiva. Será que aqueles anos de casamento foram uma ilusão? Sob este impacto, Frances é levada a abrir mão de pontos aparentemente estáveis e seguros da sua vida: casamento, casa, lar, projeto de vida em comum. Deixa a casa, os móveis, levando somente uma caixa com alguns objetos.

Precisa de recomeçar. A saída da sua zona de conforto, do território conhecido, acontece não por escolha, mas por força das circunstâncias.

A partir desse momento, a protagonista começa a percorrer novos territórios.

Durante alguns meses mergulha numa espécie de hiato entre o que era e o que pode vir a ser, possibilitando o nascimento de uma nova forma de viver e de se perceber como pessoa e como mulher. No entanto, esses primeiros meses após o divórcio são uma tentativa de não se render à deceção, com movimentos que a impeçam de submergir na dor. Na cena em que, cansada e emocionalmente esgotada, se deita no chão do apartamento arrendado, a única palavra que pronuncia é “lar”. É a vivência do término e da perda que comanda o primeiro ano.

Tal como um andarilho, sem um ponto de chegada definido, Frances surpreende-se com uma proposta das suas amigas para fazer uma viagem à Toscana.

Num primeiro momento Frances recusa, pois imagina tratar-se de uma viagem com fins românticos. No entanto, é tranquilizada por uma das amigas, que a informa de que

é uma excursão destinada a casais gays. As amigas reforçam a ideia de que esta será uma oportunidade para Frances refletir, pensar na sua vida e, quem sabe, escrever os seus próprios livros, ao invés de fazer apenas a crítica dos livros escritos por outros.

Diante desses argumentos e reconhecendo que a vida que leva não lhe traz satisfação, Frances aceita a proposta.

Ao chegar ao território italiano, depara-se com um campo de girassóis. A cena possibilita pensarmos no movimento dessas flores e estabelecer uma relação com a busca de Frances da sua autoestima, a redescoberta das suas capacidades, a possibilidade de se voltar (girar) para o seu próprio brilho.

A chegada à Itália, e o que chamamos de encontro com a “mulher-coelho-branco”1, Katherine, revela-se como um novo encontro com efeitos de linha de fuga.

Detenhamo-nos agora nesse momento: Frances está no centro de uma cidade medieval da Toscana – Cortona. Contempla com curiosidade uma mulher que interage com as pessoas com desenvoltura e toques de dramaticidade cénica, e que realmente chama a atenção de Frances.

Nesse momento a protagonista é afetada pelo que vê. Este é também um “encontro”, já que não é necessário que sejam duas pessoas a encontrarem-se fisicamente; basta, como vimos nos capítulos anteriores, que algo nos capte a atenção, nos afete em termos de perceção, sensações ou sensorialidade, tirando-nos do movimento linear e contínuo que fazemos. Reconhecemos este momento do toque, que nos altera, nos perturba ou nos causa um efeito de desvio, como um encontro.

A cena que observa dá ares de uma cena fantástica, algo que em literatura poderia equivaler a um realismo maravilhoso – a mulher, vestida com glamour, num

1Expressão que visa relacionar a personagem Katherine com o Coelho Branco da história de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll. Assim como o Coelho Branco desperta a atenção e a curiosidade de Alice, fazendo com que a menina decida seguir atrás dele e mergulhe numa nova realidade, muito além do seu lugar conhecido, também Katherine provoca a curiosidade em Frances.

Figura 4 – Katherine

Imagem: Touchstone / Everett, 2003

mercado de rua, segura um pássaro e acaricia-o com o rosto, demonstrando uma intensa satisfação ao fazê-lo. Frances é atraída pelo insólito. Este encontro abre-se para o Devir, um Devir que move a protagonista a seguir a mulher na sua rápida marcha por entre as ruas da pequena cidade. Neste instante tudo o que estava a fazer fica para trás; novas ramificações nascem a partir desse movimento, desse impulso, escolha e ação.

Frances perde de vista Katherine e fica alguns minutos a olhar o novo lugar a que chegou ao seguir os passos da mulher desconhecida. Um dos rapazes que viaja na mesma excursão começa a falar sobre as belezas da cidade e a dificuldade em expressar por palavras aquilo que vê. Como Frances é escritora, oferece-se, solícita, para o auxiliar na escrita dos postais. Um pouco duvidoso, o rapaz pergunta-lhe:

“Escreve bem?”; e Frances responde: “Eu costumava escrever”. Perante esta resposta, a ajuda é aceite: “Está bem. Faça isso”. Inspirada pelo que vê, Frances coloca em fluxo a sua criatividade e em poucos minutos o postal está escrito. No entanto, ao ler o texto, o rapaz verbaliza a sua deceção, fazendo uma contundente crítica à inspiração de Frances. Mais uma desconstrução para a protagonista, mais uma camada que constituía a sua identidade abalada.

Há um vazio que se amplia, e nem o lugar consolidado de alguém que sabe escrever e é profissionalmente reconhecido como tal está seguro. A situação evidencia o não lugar em que Frances se encontra neste momento da sua trajetória, configurando um processo de desterritorialização em movimento.

Uns passos à frente, depara-se com a montra de uma imobiliária com anúncios de imóveis à venda na região. Um deles chama a sua atenção; será um novo encontro intensivo? Confirma-se que sim, pois é a Villa Bramasole, que será a sua escolha de moradia no filme. Bramaresignifica ansiar por algo e sole, sol. Ansiar pelo sol revela-se a busca de Frances.

É neste momento que a mulher enigmática ressurge e agora é ela quem se mostra interessada em Frances; percebe o seu interesse pelo imóvel e incentiva-a a comprá-lo. Frances fica surpreendida, mas não pensa em comprar uma casa num outro país. No entanto mostra-se intrigada com a situação e com o diálogo sobre a compra:

algo despertou nela.

O que acontece a seguir – a chegada à Villa Bramasole, a disputa com os outros interessados na propriedade, a negociação de compra e a declaração ao agente imobiliário e à proprietária (e possivelmente a si mesma) de que deseja comprar aquele imóvel porque não pode regressar aos Estados Unidos – é o continuumda linha de fuga acionada por aquele encontro com Katherine.

São ramificações que vão conduzindo Frances, a cada instante, a lançar-se em Devir, num movimento rizomático que a leva a situações não planeadas em solo desconhecido. É importante lembrar que, quando Frances decide aceitar embarcar nesta viagem rumo à Toscana, não há a intencionalidade manifesta ou aparente de mudar de residência, ou mesmo de investir na aquisição de um imóvel. São os acontecimentos e as novas respostas, os novos comportamentos e a abertura para fazer diferente que resultam neste impulso e na concretização da compra da moradia.

Foi um ato inovador para a protagonista e para as pessoas que a conhecem, como se constata no diálogo em que Frances surpreende as amigas dizendo-lhes que se tornou proprietária de uma villana Toscana e que se envolverá também com as obras na casa:

Amiga: - Como é a casa?

Frances: - Precisa de um pouco de trabalho.

Amiga: - Quem vai fazer isso?

Frances: - Eu.

Amiga: - Não sabia que eras uma habilidosa.

Frances: – Eu sei fazer coisas. Lembras-te que arranjei o ralo?

Amiga: – Não, fui eu.

Frances: – Eu consigo.

Frances desafia-se e deixa a amiga apreensiva com a postura tão fora do seu comportamento convencional. Diante desse desafio, ela contrata uma equipa de empreiteiros polacos. Começa então a aprender a comunicar em polaco, facto que se revela como mais uma novidade: “Falar polaco na Itália é uma das surpresas da minha vida” (Frances).

Figura 5 – Chegada à Bramasole Foto: Touchstone / Everett, 2003

Várias passagens do filme mostram o monólogo interno da protagonista refletindo sobre as novas experiências por que tem vindo a passar. As interações com Katherine provocam uma revisão do seu modo de pensar e ver a vida. “Deves viver de forma esférica, em várias direções” (Katherine). De facto, vemos que a protagonista vai pouco a pouco reterritorializando-se, num processo que avança através de movimentos em várias direções: o envolvimento com o restauro da casa, as relações que estabelece com os vizinhos, a participação na colheita da azeitona, os jantares e a confraternizações com a comunidade próxima. E também nas interações com o agente imobiliário, que com as suas perguntas faz com que Frances reflita acerca das suas escolhas e motivações, conforme é possível perceber na sequência de falas abaixo:

Frances: – O que é eu estou a fazer aqui sozinha?

Agente imobiliário: – A senhora comprou uma casa para uma vida que não tem? Porquê?

Frances: – Porque estou cansada de estar sempre com medo e porque quero as coisas. Eu quero um casamento nesta casa e uma família nesta casa.

Em resposta às questões de Frances, o agente conta a história da construção de uma linha de comboio na região dos Alpes, ligando Viena a Veneza. “Eles construíram a linha antes de existir um comboio para a percorrer. Construíram porque sabiam que um dia o comboio viria.” E Frances responde: “Quer que eu tenha fé. Algo em que nunca fui boa e que desde o ano passado sou ainda pior.” No entanto, em instantes, dá-se conta de que isso também se modificou: “Para minha surpresa tornei-me amiga de Maria”, diz Frances ao olhar a imagem da Virgem Maria na cabeceira da cama.

Na sequência das situações em que se mostra saindo da sua zona de conforto e aventurando-se em respostas que também a surpreendem, vamos acompanhá-la até Roma. Nesta passagem do filme realçamos mais um encontro, que oferece uma nova linha de fuga: a dado momento, para se desvencilhar do assédio de alguns homens na rua, Frances interpela intempestivamente um homem desconhecido que sai de um estabelecimento, simulando ser um reencontro do casal. Depois de se livrar com sucesso dos assediadores, despede-se do desconhecido (Marcello), que não demora a

fazer-lhe uma proposta. Frances recusa, mas repensa rapidamente e aceita o convite.

Juntos partem em viagem para o Sul da Itália.

Ao final do dia Marcello mostra-se mais sedutor, e Frances responde, rindo, que o comportamento dele é justamente o que se espera dos homens italianos. Ele demonstra constrangimento e desconforto com essa atitude, até à contraoferta de Frances, com menos sedução e mais assertividade, para dormirem juntos. Marcello responde que esse é exatamente o comportamento que se espera das mulheres americanas, sendo agora Frances que se mostra desconfortável com o comentário. No entanto, Marcello recupera a situação e aceita, dizendo-se honrado com o convite.

Observa-se nessa sequência, a confrontação de estereótipos, que colocam em ênfase as questões culturais de género, homens da Itália e mulheres da América. Evidenciar esses comportamentos constituiu um ponto de encontro entre as culturas de cada um e a tomada de decisão mais consciente de ambos.

No caso de Frances, vale ressaltar que as figurações de subjetividade se revelam móveis e complexas, não limitadas a um padrão fixo de respostas. Em especial essa atitude diante de Marcello, seria possivelmente impensável para Frances alguns anos antes, mesmo sendo ela uma “mulher americana”. É uma mulher americana, sim, mas com outra bagagem social e experiências de vida que produzem novas figurações, transitórias e sujeitas a futuras revisões.

Após os dias que passaram juntos, Frances retorna à Toscana exultante, sentindo-se novamente viva. O entusiasmo fá-la mudar a aparência – cabelo e roupa nova –, recupera a vaidade e já não demonstra querer esconder-se. O grande motivador parece ser o envolvimento romântico e a possibilidade de continuar a relação. No entanto, ao receber a visita da amiga americana, grávida e a enfrentar o luto de uma separação recente, as prioridades de Frances mudam novamente. A protagonista passa a investir cada vez mais tempo com a amiga e com os homens que estão a fazer o restauro da sua casa, proporcionando-lhes agradáveis momentos, incluindo verdadeiros banquetes confecionados por ela.

A relação com Marcello não avança, pois, sem condições de estar presente, a distância entre os dois enfraquece a possibilidade de manter a relação; quando finalmente Frances decide ir ao ter com ele, chega a Positano – casa de Marcello – e

encontra-o já envolvido com outra mulher. Ao retornar a casa, magoada e frustrada, Frances quebra um dos únicos objetos que havia trazido da sua casa nos EUA, um pequeno vaso azul de vidro que guardava junto à cama. Esse movimento de quebra pode ser entendido como um gesto de corte com o passado e com as repetições que se poderiam seguir – repetições no sentido das mesmas respostas a situações semelhantes, tais como confiar num homem, sofrer com a traição e o abandono e voltar perder o entusiasmo pela vida. Através da quebra, vemos que a reação de Frances não é de negação do que está a sentir, mas expressa raiva e desejo de pôr um ponto final em padrões anteriores, o que nos leva a pensar que o processo de reterritorialização se reafirma neste momento. A protagonista rompe com um padrão, delibera uma nova forma de superar situações e de se posicionar diante dos acontecimentos.

Frances forja-se através das experiências sucessivas, sem um planeamento definido a priori, mas com alguns desejos por realizar. E mesmo a realização desses desejos dá-se de forma imprevisível, diferente do que Frances poderia ter imaginado;

por exemplo, queria um casamento na casa, o que, num primeiro momento, nos levava obviamente a pensar no seu próprio casamento. No entanto, o que as tramas do Devir concretizam é, sim, uma cerimónia de enlace de dois jovens – uma vizinha e um dos trabalhadores envolvidos na obra de restauro da casa –, a quem Frances acolhe como sendo da sua família. A realização dos desejos também percorre canais sem que tenhamos controle deles e, por vezes, efetiva-se de forma quase impercetível para um olhar desatento.

O término do filme apresenta Frances reinventando-se como escritora, no seu novo lar, com uma nova família e novos vínculos coexistindo com antigos, habitando e povoando um novo território físico e subjetivo. As últimas cenas dão sinais de novas expansões com a chegada do escritor Ed, um encontro inusitado que a levará a viver novas situações na sua vida. A trajetória de Frances evidencia que os encontros não param de produz linhas de fuga, uma cartografia que se faz do fluxo dessas ramificações.