CAPÍTULO 2 – PRINCÍPIOS REFORMADOS NO PENSAMENTO DE
2.3 FRANCIS SCHAEFFER E A VISÃO REFORMADA DA BÍBLIA
conciliar o uso da razão no estudo e exercício da fé, e que o homem contemporâneo irá sair da crise de paradigmas somente quando houver o resgate da razão na base revelacional – e não na estrutura de pensamento humanista-racionalista-iluminista – se faz necessário, portanto, que a visão que Schaeffer tem sobre a Bíblia seja melhor observada.
Quando o autor fala em pressuposição revelacional, na verdade ele está falando da autoridade das Escrituras49 como única fonte de conhecimento final, infalível e auto-suficiente do homem, capaz de trazer a unidade de pensamento e, em contrapartida, o fim da fragmentação do pensamento e do conceito de verdade fragmentado. Essa perspectiva exclusivista da fonte de conhecimento posta nas Escrituras faz ecoar o legado da Reforma quanto ao entendimento da Revelação de Deus na Bíblia, cuja égide fora vinculada na expressão Sola Scriptura (somente as Escrituras).
Para os reformadores, os credos50 (Apostólico, de Nicéia, de Calcedônia) eram considerados; e sua acuidade e relevância eram admiradas e ponderadas no labor teológico.
A isto Schaeffer também anuía, pois afirmava que “devemos nos apegar aos grandes conceitos e credos da Reforma e aos ortodoxos que os procederam,
49 Vale ressaltar que Calvino entendia que a autoridade das Escrituras está relacionada à ação do Espírito Santo no homem, ou seja, a autoridade da Bíblia como vox Dei, Palavra de Deus, é atestada pelo testemunho interno do Espírito, conforme ele mesmo pontua: “se, pois, quisermos firmar a nossa consciência de modo que não permaneça agitada e em perpétua dúvida, é preciso que coloquemos a autoridade da Escritura muito acima das razões ou das circunstâncias ou das conjecturas humanas; quer dizer, é preciso que estabeleçamos com base no testemunho do Espírito Santo. Porque, ainda que, por sua própria majestade, a Escritura nos leve a respeitá-la, não obstante, verdadeiramente só começa a tocar-nos quando é selada em nosso coração pelo Espírito Santos. Iluminados, pois, pelo poder do Espírito Santo, não é mais baseado em nossa avaliação e na de outros que nós cremos que a Escritura é a Palavra de Deus. É graças à certeza dada por uma autoridade superior que concluímos que, sem dúvida nenhuma, a Escritura nos foi outorgada diretamente por Deus – a tal ponto, que é como se nela contemplássemos a sublimidade de Deus em seu Ser essencial” (CALVINO, 2006, p.72).
50 Comentando sobre o padrão adotado pelos reformadores acerca da autoridade das Escrituras em relação aos credos e às confissões, Alister McGrath contribui ao dizer que “o padrão básico adotado pelos grupos integrantes da Reforma era o de reconhecimento das Escrituras como autoridade de caráter primário e universal; dos credos como autoridade de caráter secundário e universal; e das confissões de fé como autoridade de caráter terciário e local” (McGRATH, 2005b, p.110).
reportando-nos àqueles que frequentemente recitamos juntos – o Credo dos Apóstolos, em seguida ao Credo Niceno, ou ao conceito calcedônio de cristologia” (SCHAEFFER, 1995, p.54). Todavia, os credos, confissões e pronunciamentos da igreja são obras humanas. Como comenta R. C. Sproul, “essas obras menores podem ser corretas e brilhantemente concebidas, captando os melhores discernimentos de estudiosos, mas não são a inspirada Palavra de Deus” (SPROUL, 2009, p.36).
Reformadores como Lutero e Calvino elaboraram catecismos para a igreja. Contudo, somente as Escrituras são incondicionalmente autoritativas (COSTA, 2007, p.42).
Assim, Alister McGrath ressalta que os primeiros proponentes do princípio Sola Scriptura, como, por exemplo, Wycliffe (1320-1384) e Huss (1369-1415), empregaram-no “de modo mais radical do que jamais se havia imaginado” (McGRATH, 2007, p.148), a fim de enfatizar a autoridade suprema da Bíblia perante as consciências dos crentes, como destaca novamente R.C. Sproul (2009, p.35):
O termo Sola Scriptura simplesmente quer dizer “somente pela Escritura”. Essa frase declarava a ideia de que só a Bíblia tem autoridade de obrigar as consciências dos crentes. Os protestantes reconheciam outras formas de autoridade, como cargos da igreja, magistrados civis, credos e confissões eclesiásticas. Mas viam essas autoridades como sendo derivadas e subordinadas à autoridade de Deus. Nenhuma dessas autoridades menores era considerada absoluta, porque todas elas eram capazes de erro. Somente Deus é infalível. Autoridades falíveis não podem constranger a consciência de modo absoluto; esse direito é reservado somente a Deus e à sua Palavra.
Logo, para Schaeffer, a fonte epistemológica também se dá somente nas Escrituras. Não se trata, por exemplo, da exclusiva revelação de Deus em Cristo, como se o conhecimento de Cristo – como entende a teologia moderna – pudesse ser alienado das Escrituras ou ser somado a ela através de outra fonte externa. A Reforma dizia que somente ou exclusivamente as Escrituras podem transmitir conhecimento unificado e verdadeiro sobre Cristo51, sobre o homem e sobre a natureza. Para Schaeffer, “se você não tem a visão das Escrituras que os
51 Ainda sobre o conhecimento exclusivo que a Bíblia traz sobre Cristo, vinculando seu conteúdo àquilo que é revelado nas Escrituras somente, Schaeffer acrescenta: “não é suficiente dizer somente que Deus revela a si mesmo em Jesus Cristo, porque não há conteúdo suficiente nisto, quando separado das Escrituras. Isso não passará de mais uma bandeira sem conteúdo. Tudo o que sabemos da revelação do que Cristo é, vem das Escrituras. Jesus mesmo não fazia distinção entre a sua autoridade e a autoridade das Escrituras. Ele agia com base na unidade de sua autoridade e o conteúdo das Escrituras” (SCHAEFFER, 2001, p. 94).
reformadores tinham, a palavra Cristo não terá conteúdo algum – e esse é o significado na teologia moderna” (SCHAEFFER, 2001, p. 32).
Observa-se, portanto, que o autor afirma que “os reformadores seguiam os ensinamentos do Jesus real, articulando a revelação que Cristo representou de Deus à revelação escrita contida na Bíblia” (SCHAEFFER, 2001, p.32).
A perspectiva de Schaeffer de que o conceito da Reforma sobre a revelação de Deus na Bíblia traz ao homem o conhecimento válido acerca de Deus, do homem e da criação, e que tal revelação é relevante, expressiva e importante para Deus e para o homem, pode ser vista nas seguintes palavras do autor (2001, pp.32-33):
As Escrituras representam a chave para dois tipos de conhecimento – o conhecimento de Deus e o conhecimento do homem e da natureza. As grandes confissões da Reforma enfatizam que Deus revelou seus atributos ao homem nas Escrituras e que essa revelação foi significativa para Deus, da mesma forma como para o homem. Não poderia haver Reforma e nenhuma cultura da Reforma no norte da Europa sem a consciência de que Deus havia falado ao homem através das Escrituras e que, por isso mesmo, conhecemos algo de verdadeiro sobre Deus, porque Deus revelou esse algo ao homem.
De fato, a Reforma ressaltou que aprouve a Deus revelar-se aos homens nas Escrituras dando-lhes a manifestação da sua vontade e a revelação do seu caráter, não obstante a própria criação revelar alguns dos seus atributos, como aponta a Confissão de Fé de Westminster, de 1647 (2006, p.9):
Embora a luz da natureza e as obras da criação e da providência manifestem de tal modo a deixar os homens inescusáveis, contudo elas não são suficientes para dar aquele conhecimento de Deus e de sua vontade que é necessária à salvação. Portanto, aprouve ao Senhor, em diversos tempos e de diferentes modos, revelar-se e declarar à sua igreja a sua vontade; e depois, para melhor preservação e propagação da verdade, para o mais seguro estabelecimento e conforto da igreja contra a corrupção da carne e malícia de Satanás e do mundo, foi igualmente servido fazê-la escrever toda, o que torna as Escrituras Sagradas indispensáveis, uma vez que cessaram os antigos modos de Deus revelar a sua vontade ao seu povo.
Sem dúvida Schaeffer não abdicou da Bíblia como a fonte para as respostas racionais que o homem carece. Assim, na Reforma a visão “era sola Scriptura, a Bíblia e somente a Bíblia. Isso fez toda a diferença para os reformadores, tanto em compreender o acesso a Deus quanto em ter respostas intelectuais e práticas necessárias nesta vida presente” (SCHAEFFER, 2003, p. 54).
Schaeffer entende que a visão da Reforma sobre a Bíblia atuando como o único absoluto confere unidade ao universal e aos particulares (SCHAEFFER, 2003, p. 51). Isso faz com que as Escrituras “apresentem a si mesma como revelação divina de verdades proposicionais, escritas em forma verbal, para todos aqueles que foram criados à imagem de Deus (SCHAEFFER, 2001, p.100). Em outras palavras, no pensamento do autor a Bíblia é a fonte do conhecimento que o homem precisa – é a fonte epistemológica infalível e não-contraditória.
Isso se coaduna com o pensamento reformado, pois, como R.C. Sproul (2009, p.36) comenta ao citar Calvino, “os reformadores mantinham uma visão alta da inspiração da Bíblia. A Bíblia é a Palavra de Deus, o verbum Dei, ou a voz de Deus, a vox Dei. Por exemplo, João Calvino escreve”:
Quando aquilo que professa ser a Palavra de Deus é reconhecido ser isso, nenhuma pessoa, a não ser que seja desprovida de juízo comum e sentimento de homem, terá a audácia desesperada de recusar dar crédito a quem fala. Mas visto que respostas diárias não são dadas do céu, e as Escrituras são os únicos registros em que Deus se agradou consignar sua verdade para lembrança perpétua, a plena autoridade que deveriam possuir com os fiéis não é reconhecida, a não ser que se creia que vieram do céu, tão diretamente como se Deus tivesse sido ouvido pronunciando-as para eles.
Diferentemente da nova teologia, em que os teólogos abdicaram da esperança de encontrar um campo unificado do conhecimento por achar que a Bíblia contém erros – e por isso, para Schaeffer (2002a, p.87), ela se tornou uma “antiteologia” –, no pensamento reformado a Bíblia é a Palavra inspirada de Deus, passível ao exame intelectual de sua historicidade. Assim, a teologia moderna (tanto o liberalismo como a neo-ortodoxia) não consegue compor uma estrutura adequada que permita relacionar os fatos reais aos acontecimentos. “Ela não dá conta disso, porque não admite a possibilidade de comunicação nos únicos dois pontos discutíveis e passíveis de investigação, que são a história e o Universo” (SCHAEFFER, 2002a, p.147).
Para Schaeffer, a Bíblia tem raízes na história. Ela diz sobre a criação do mundo e do homem, ou seja, sobre a realidade daquilo que existe. A Bíblia, segundo o autor, não deve ser vista apenas como um livro religioso, mas como uma revelação de Deus sobre ele próprio, sobre o homem, sobre o cosmos e sobre a história, pois ela se encontra radicada na própria história espaço-temporal e fala da totalidade da realidade (SCHAEFFER, 2002a, p.251).
Deus inseriu a revelação da Bíblia na história; ele não a forneceu (como poderia ter feito) em forma de livro-texto teológico. Localizando a revelação na história, que sentido teria para Deus ter-nos fornecido uma revelação cuja história fosse falsa? Também o homem foi inserido neste Universo que, como as Escrituras mesmo dizem, fala de Deus. Que sentido, então, teria para Deus ter-nos oferecido sua revelação em um livro cheio de falsidades acerca do Universo? A resposta para ambas as questões deve ser “nada disso faria qualquer sentido!”. Está claro, portanto, que, do ponto de vista das Escrituras em si, podemos observar uma unidade por todo o campo do conhecimento. Deus falou, numa forma linguística e proposicional, verdades sobre si mesmo e verdades sobre o homem, a sua história e o Universo (SCHAEFFER, 2002a, p. 146).
Sem essa visão da Bíblia, o homem contemporâneo sempre dissociará a fé da racionalidade, pois a fé não terá um objeto de estudo verificável e que corresponda ao que existe – à realidade. O homem poderá até falar sobre a sua fé. Ele poderá discutir a existência da sua fé, sua intensidade e abrangência, mais isso de maneira existencial e contra a razão. Nesse sentido, a fé do homem moderno se torna interna, uma experiência religiosa incomunicável e sem objetividade intelectual.
No cristianismo apresentado pela Reforma, o valor e a validade da fé dependem do objeto ao qual a fé é dirigida, e, nesse aspecto, o cristianismo aponta para a realidade externa e para a história, ambas narradas nas Escrituras. Desse modo, a Bíblia, de acordo com a visão reformada de Schaeffer sobre a mesma, parte da criação de Deus, tanto do homem como do Universo, e chega, pela metanarrativa histórica, à redenção da criação, a qual está sedimentada na base histórica da encarnação, morte e ressurreição de Cristo, registradas na realidade objetiva espaço- temporal.
2.4 – FRANCIS SCHAEFFER E A VISÃO REFORMADA DO HOMEM E