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O relato de um ex-aluno Toninho Vieira (Sitonho), como é citado por Moura (2008, p. 82), mostra a grandiosidade desse desfile e a influência que tinha o Colégio para o brilhantismo do evento, que ficou gravado na memória desses ex-alunos, chegando a ser visto por alguns como a apoteose do período letivo do Colégio, deixando em segundo plano as funções educativas e religiosas:

A apoteose do período letivo do Colégio Salesiano de Juazeiro do Norte era de longe o desfile da Escola na parada de 7 de Setembro, sendo inúmeros os preparativos que cedo preenchiam as nossas ocupações e conforme se aproximava o “dia D”, a ansiedade tomava conta de diretores, professores, alunos e tantos outros envolvidos nas festividades da Semana da Pátria.

A apresentação do Salesiano tinha tal magnitude que superava em muito os desfiles militares da época, tendo a configuração do desfile, com suas surpresas guardadas a sete chaves, caráter verdadeiramente artístico na arrumação de carros alegóricos, alas temáticas, cavalaria, encenações, o que pode ser comparado, guardado as devidas proporções de grandeza e de enfoque, aos desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro.

O leigo Robério Morais Ramos fez parte da casa salesiana em Juazeiro do Norte, desde o ano de 1978, quando o padre José Pereira Lima era o diretor do Colégio e foi até o ano de 1982, sob a administração do diretor, padre Antonio Elias Sedraz. Falando sobre os desfiles de 7 de Setembro, ele diz:

No primeiro ano que cheguei, às vésperas do desfile pátrio, participei de uma reunião com, prefeito e seu secretariado, representantes dos colégios e escolas das redes particular e pública para a programação do dia 7 de setembro. O Colégio Salesiano sempre era o último a desfilar sob o sol causticante e bem brasileiro do

meio dia. [...] fiz uma observação ao senhor prefeito para que, em virtude de ser o último a desfilar, que naquele ano abrisse o desfile. O prefeito graciosamente me respondeu que no caso seria a abertura e, ao mesmo tempo, a ‘fechadura’ do evento porque os expectadores se dispersariam logo que passasse o colégio porque nada mais teria graça [...] sem dúvida um santo exagero do prefeito. (RAMOS apud MOURA, 2008, p. 75).

Durante toda a história dos salesianos em Juazeiro do Norte, o desfile do dia 7 de Setembro sempre foi a sua marca, entre outras que o situam como o melhor Colégio da cidade. O desfile era uma apoteose, transformado em sonho de consumo por toda a juventude local. Todos sonhavam em descer a rua São Pedro vestindo a farda do “Salesiano”. Quem tinha esse privilégio ficava para sempre com essa marca impressa, que o distinguia dos demais jovens da cidade. Em entrevista, Renato Dantas, um ex-professor do Colégio, disse que

Uma grande parte da população juazeirense, gostaria de estar naquele desfile porque ele era muito organizado e bonito, uma marca, uma construção das historias do município, uma riqueza cultural, em fim, pra gente era uma aula de História, de Geografia.Eaquieugostariadepor em destaque, antes da revolução de 1964, faziam uma pesquisa para compor o desfile, a partir da revolução já foi visto com outros olhos por que tinha toda uma concepção da ideologia dominante, mas antes que não tinha era muito instrutivo. No momento que entraram todas essas historias dentro das escolas o serviço foi visto com outro viés, não era como antes, então era mais ou menos isso. (Entrevista: RENATO DANTAS, Juazeiro do Norte, 2009).

Era com muito orgulho, cabeça erguida, expressão facial séria, que os alunos salesianos impunham a sua marca diante das autoridades e de toda a população da cidade, que se enfileiravam ao longo da rua São Pedro, finalizando com um palanque composto de autoridades armado em frente à praça Padre Cícero, bem no centro da cidade. Vejamos o que dizem e o que sentem esses alunos:

Um setor do cortejo era motivo de muitos comentários e querelas: a fanfarra, conhecida por nós como banda, cujos ensaios faziam vir gente de toda a cidade para ouvir os acordes; eu não conto as numerosas vezes que saí de casa com o intuito único de presenciar o desempenho dos comandados de Marcilio e Rolinha, dois abnegados que com muito amor e denodo lideravam os anos azuis: no dia da parada, embora no Salesiano dominassem o vermelho e branco das fardas de gala, os componentes da banda usavam uma jaqueta cuja cor predominante era azul.

Eu lembro que houve um tempo em que Marcilio e Rolinha moravam em Recife, mas, vinham a Juazeiro no momento crucial de preparação da fanfarra para o dia 7 de setembro. Eles pesquisavam e ensaiavam os toques, o que muitas das vezes tornava imperativa a realização de ensaios secretos, já que além da execução correta, a exclusividade era um trunfo que contava muito no julgamento da apresentação (CARLOS CLAUDIO e TONINHO VIEIRA apud MOURA, 2008, p. 82).

Todos os colégios desfilavam, mas nenhum emocionava tanto quanto o fazia o som das cornetas quando entoavam, por exemplo, o Hino à Bandeira, seguido de tambores potentes que ressoavam como verdadeiros rituais poderosos, mostrando que a Pátria era maior

do que todos nós, num misto de religiosidade e poder pátrio que levava o povo às lágrimas. E, assim, se desenvolvia o espírito nacionalista naquela juventude, no contexto de um sertão considerado por alguns como atrasado e ridicularizado.

Os desfiles faziam parte de outras datas do calendário comemorativo da cidade, não só o dia 7 de Setembro. Era o refinamento da sociedade juazeirense e acontecia pela circularidade entre culturas necessárias, para que a região pudesse participar de modo mais efetivo dos avanços que aconteciam em contexto nacional, como observa Della Cava. Entre essas ocasiões que enfatiza a união Igreja e poder pública, temos:

Comemoração do Estado Novo. Os nossos alunos no hasteamento do Pavilhão nacional na prefeitura Municipal. Depois do hasteamento da Bandeira os nossos alunos desfilaram pela rua S. Pedro a fim de assistirem a inauguração (jardim?) Getúlio Vargas. Na tarde deste mesmo dia os nossos alunos se reencontraram na praça para cantarem o Hino Nacional. (CRÔNICADA CASA, nov. 1941).

No evento de encerramento do ano letivo de 1941, além do crescente número de alunos, estavam presentes ao evento autoridades como: monsenhor Joviniano Barreto, o prefeito Antonio Pita e o padre José Carlos Macedo, representando o bispo Dom Francisco Pires. Tudo aconteceu em clima de comemoração. Por isso é que o encerramento se realizou com Missa de Ação de Graças, cânticos, comunhão, explicação do Evangelho, Na parte recreativa, houve diversos tipos de corrida, de obstáculos, cabo de guerra, corrida de caranguejo. Os alunos cantaram hino para os pais. Francisco Acioli Maia (aluno) fez uma saudação aos pais. O diretor apresentou o resultado dos exames dos alunos da 1ª a 4ª séries. Houve distribuição de prêmios para os alunos (CRÔNICA DA CASA, nov. 1941).

Era esse um dos recursos utilizado pelos padres para incentivar a aprendizagem. Observa-se participação dos pais e benfeitores da Casa, dando um ar de solenidade à festa de encerramento do ano letivo. O ambiente era ornamentado para ostentar o espírito da festa; os alunos uniformizados ocupavam todo o salão. O diretor, as autoridades e alguns convidados compuseram a mesa.

Os exames e provas são sempre lembrados, com os alunos enfrentando-os com muita seriedade e compenetração. Padre João recomendou o estudo do catecismo, apresentando como modelo São João Bosco e Domingos Sávio.

O encerramento do ano letivo em dezembro de 1941 tornou-se algo a ser comemorado ao estilo salesiano: as 6h30min, Missa de Ação de Graças – Cânticos – Comunhão Geral; às 8h00min, Missa Festiva – explicação do Evangelho; às 15h30min, Corrida de Obstáculos [...], Cabo de Guerra, Corrida de Caranguejo, Corrida de Estafetos e

Corrida de Carrinhos.

1ª PARTE – E segue a programação com: Hino aos pais (coral) Saudação aos pais – Francisco Aciole Maia

Minha Mágoa – toada sertaneja Resultado dos exames do 4º ano Garoto vadio – canção

Resultado dos exames do 3º ano. 2ª PARTE

Minha palhoça – orfeônico O (jorival) – temas típicos Resultado do exame do 2º ano Alma de Tupi – canção Resultado do exame do 1º ano La jota (Araguesa) – fantasia.

Notava-se a presença constante da nação romeira e de outras autoridades, algo que revelava o poder desses padres na sociedade, visto que ali estavam a pedido do padre Cícero. Além disso, representava o Colégio uma esperança nítida de fazer evoluir a história educacional da cidade.

Algo chamou a atenção, no dia 15 de maio, na festa dos operários. É que comemoraram, também, o Cinquentenário da Encíclica “Rerum Novarum”. Houve missa campal celebrada pelo monsenhor Joviniano Barreto. “Nossos alunos compareceram ao ato sagrado”. (CRONICA DA CASA, maio 1941). Considerada como documento fundamental sobre a “Doutrina Social da Igreja”, a encíclica critica fortemente a falta de princípios éticos e valores morais na sociedade de seu tempo e laica, considerada como uma das grandes causas dos problemas sociais. O documento papal se refere a alguns princípios que deveriam ser usados na procura de justiça na vida industrial e socioeconômica, como, por exemplo, a melhor distribuição de riqueza, a intervenção do Estado na economia a favor dos mais pobres e desprotegidos, a caridade do patronato aos trabalhadores.

Mesmo condenando o socialismo, a Igreja incentivou a união dos trabalhadores por meio da formação de corporações, e mais, também apoiou a integração destes com os seus patrões por meio de todas as obras capazes de aliviar eficazmente a indigência e de operar uma aproximação entre as duas classes. Defende também a ideia de que o Estado deve permitir que as sociedades particulares coexistam com a sociedade civil e que se abstenha de interferir na administração das organizações católicas. As corporações deveriam ser organizadas para atingir, pelo meio mais cômodo e mais curto, o seu fim, sem se desviarem do objeto principal, o aperfeiçoamento moral e religioso. E, acima disso tudo, se encontrava a caridade, que foi ou deveria ter sido praticada pela Igreja desde sua criação.

sabiam do que se tratava, mas, para os educadores e outras pessoas mais informadas, esta era uma demonstração da sua marca e do objetivo que queriam alcançar em relação à educação da juventude, mesmo que a realidade do Colégio apontasse para o desvio dessas funções, em alguns itens já apresentados até o momento.

A presença salesiana apareceu como um elemento modernizante que se instaurou na “terra da mãe de Deus”, como seria mais tarde batizada pelo padre Murilo de Sá Barreto. Tornou-se visível com origem nas práticas educacionais católicas, refletindo uma união de tradição e inovação que chegou à cidade como uma das ações mais eloquentes e estratégicas nos anos iniciais pós-morte do padre Cícero.

Embora o relato do professor Luiz Magalhães revele que o mons. Joviniano não gostava muito de Juazeiro do Norte em razão da guerra de 1914,

No início não existia romaria, raramente iam à Juazeiro, ele veio para acabar com a lembrança do Padre Cícero. Não permitia uso da medalha. Ele me obrigou a tirar a medalha do Padre Cícero do pescoço. Não gostava dos salesianos porque era obra do P. Cícero. Ele era muito ruim para o romeiro. Amália Xavier que era sua amiga o aconselhava, dizendo que ele deveria ser cauteloso porque o romeiro representava, também, dinheiro para a igreja. Na época do Mons. Lima [3º vigário, 1927 a1933] tinha muito romeiro era uma aglomeração tremenda. Quando o padre Murilo tomou conta [da paróquia em 1967], Amália Xavier abriu o olho dele para aceitar os romeiros. Houve muita confusão porque o padre Murilo tinha que obedecer a igreja. (Entrevista: LUIZ MAGALHÃES, Juazeiro do Norte, 2009).

O trabalho dos padres seguiu bastante acelerado. Eles precisavam entrar em uma casa que fosse, realmente, deles para que pudessem realizar as tarefas necessárias à implantação da marca salesiana na vida religiosa e educacional local. Este era o ponto essencial da sua presença aqui. Desta forma, estariam cumprindo a missão da sua congregação, bem como atendendo as necessidades de educação e de profissionalização para resolver problemas locais no que se refere a serviços que ajudariam, também, na constituição social e econômica da cidade.

4.4 Construção e inauguração do Colégio Salesiano São João Bosco

Estavam preocupados em encontrar um lugar para a construção do Colégio e decidiram que será na praça São Francisco. Esta escolha, porém, não deu certo, e somente no mês de novembro de 1939 encontraram, finalmente, o lugar adequado, desta vez na praça Pio X.

A princípio pensou-se em a Prefeitura fazer doação da Praça aos salesianos. Conforme Crônica da Casa (nov. 1939), achou-se que os trâmites a seguir seriam difíceis, complicados e duvidosos. Resolveu-se, então, apelar para os pretendentes donos da terra, José Geraldo e José Dias, que passaram escritura pública. Desta forma, em comum acordo com a Prefeitura, foi escolhida a praça Pio X para a construção do Colégio. O terreno foi adquirido por transferência mediante escritura pública.

O padre diretor foi ao Recife à procura da planta. Neste intervalo, começou a construção do muro. O padre Agra retornou após quinze dias, iniciando-se a construção dos alicerces do prédio de acordo com a planta. Esta construção foi interrompida, no ano seguinte, por falta de tijolos e pela chuva excessiva.

Fotos 18 e 19 – Construções da Capela de Nossa Senhora Auxiliadora e do Colégio Salesiano ao lado (1940).