Um dos principais pacientes de Freud foi o Homem dos Lobos, que viveu durante um tempo suficientemente longo para fornecer indicações precisas sobre as conseqüências a longo prazo de sua análise. Freud tratou o Homem dos Lobos durante quatro anos, de 1910 a 1914, e fez uma segunda e breve análise cinco anos depois, a fim de eliminar um resto de “transferência” que não havia sido resolvida ao longo do primeiro tratamento. Nos anos seguin tes, o Homem dos Lobos, que se chamava na realidade Sergius Pankejeff, foi novamente analisado duas vezes por Ruth Mack Brunswick.2 Após a Segunda Guerra Mundial e até a sua morte em 1978, ele foi tratado por um certo número de psicanalistas. O Homem dos Lobos esteve portanto espo radicamente em análise durante mais de sessenta anos. Diferentemente do Homem dos Ratos, ele teve a possibilidade de testemunhar a tal respeito.
A reconstrução freudiana do acontecimento traumático que suposta mente desencadeou a neurose obsessiva do Homem dos Lobos ilustra a natureza problemática do empreendimento psicanalítico. Segundo Freud,3 o paciente, com a idade de um ano e meio, surpreendeu seus pais tendo relações sexuais, o que despertou prematuramente a sua libido e provocou nele uma atitude homossexual passiva em relação aos homens. Freud re construiu esse acontecimento traumático a partir de um sonho que seu pa ciente teve aos quatro anos.
0 L I V R O N E G R O D A P S I C A N Á L I S E
Sonhei que era noite e que estava deitado na cama. (...) De repente, a janela abriu-se sozinha e fiquei aterrorizado ao ver que alguns lobos brancos esta- vam sentados na grande nogueira em frente da janela. (...) Com grande ter ror, evidentemente de ser comido pelos lobos, gritei e acordei.4
A análise desse sonho conduziu Freud à conclusão de que os lobos brancos simbolizavam as roupas de baixo brancas dos pais e que a angústia de castra ção do sonhador provinha do fato de que ele havia assistido a um “coito por trás”, repetido três vezes, “o que permitiu ao Homem dos Lobos constatar que sua mãe não tinha falo”.5 Depois de uma análise de quatro anos breve mente interrompida e seguida de um tratamento mais curto, Freud declarou que seu paciente estava curado. Stratchey disse a respeito desse caso que ele era “o mais minuciosamente trabalhado e indubitavelmente o mais impor tante de todos os casos históricos de Freud”.6 Ele é geralmente considerado pelos psicanalistas um sucesso terapêutico considerável.7
Graças aos esforços de uma jornalista austríaca, Karin Obholzer, que conseguiu encontrar as pistas do Homem dos Lobos em Viena no início dos anos 1970, temos agora acesso às suas próprias impressões a respeito de sua análise com Freud. Depreende-se das entrevistas de Karin Obholzer com o Homem dos Lobos que' ele próprio considerava a interpretação de seu fa moso sonho “terrivelmente forçada” e que se sentiu também traído por Freud, que havia prometido que um dia ele se lembraria verdadeiramente do acontecimento traumático que o fez adoecer. “Toda essa história é im provável”, observou ainda o Homem dos Lobos, “porque na Rússia as crianças dormem no quarto da babá e não no dos pais.”8 Ele indicou, além disso, que os “lobos” de seu famoso sonho não eram absolutamente lobos, mas uma espécie de cães
semelhantes
a lobos — uma contradição curiosa e que se manteve sem explicação.9As entrevistas de Obholzer com o Homem dos Lobos nos informam também que ele não foi de modo algum curado, nem por Freud nem por outro analista. Ele manteve a mesma personalidade, compulsivamente de primida, duvidando permanentemente de si mesmo. Negava, firmemente, aliás, o mito analítico de sua “cura”: “A teoria era”, disse ele a Obholzer, “que Freud havia me curado completamente... e foi por essa razão que
A S F A L S A S C U R A S
[Muriel] Gardiner encorajou-me a escrever minhas memórias.10 Para mos trar ao mundo inteiro como Freud havia curado uma pessoa muito doente... Tudo isso é blablablá.”11 O Homem dos Lobos, próximo então de seus no venta anos, concluiu em tom de queixa: “Na realidade, toda essa história parece uma catástrofe. Estou no mesmo estado em que me encontrava quando vim ver Freud pela primeira vez, e Freud está morto.”12 Conse quentemente, outros analistas se recusaram a deixar o Homem dos Lobos tranqüilo. Eles insistiram em que ele fizesse uma análise gratuita a fim de examinar a evolução de seu caso e as opiniões se contradisseram entre si e o impediram de pensar por si próprio. “Os psicanalistas são um problema, nenhuma dúvida a esse respeito”,13 confiou ele a Karin Obholzer.
Enfim, Karin Obholzer relata que Kurt Eissler, diretor dos Arquivos Freud, enviava regularmente dinheiro ao Homem dos Lobos para ajudá-lo a pagar uma amiga e antiga amante que lhe extorquia dinheiro. Quando o Homem dos Lobos formulou seu desejo de emigrar para a América para fugir dessa situação custosa e desagradável, sua solicitação foi repetidamente desenco rajada, aparentemente porque o movimento psicanalítico preferia lhe pro porcionar um apoio financeiro em Viena, onde ele vivia no anonimato, a correr o risco de que esse paciente célebre — e altamente neurótico — de Freud fosse descoberto na América. (Imaginem o nosso homem revelando tudo no palco de um dos grandes canais de televisão americanos!) Eissler e outros analistas também se esforçaram por dissuadir o Homem dos Lobos de conversar com Karin Obholzer, cujos esforços só foram bem-sucedidos graças à sua perseverança e à promessa que fez a seu temeroso informante de só publicar as entrevistas após a sua morte. Tais entrevistas constituem, se assim podemos dizer, o último protesto do Homem dos Lobos frente às falsas promessas e às decepções da psicanálise. “Ao invés de ter me feito bem, os psicanalistas me fizeram mal”, confiou ele a Karin Obholzer, antes de acrescentar com uma voz queixosa: “Tudo isso é confidencial.”14 Enfim, temos o direito de nos perguntar se esse famoso caso foi, como se preten deu, um sucesso terapêutico e uma prova dos brilhantes poderes analíticos de Freud. Subtraído das reconstruções duvidosas tornadas possíveis pelo anonimato do paciente e pela censura mantida em torno dele, o caso pare
O L I V R O N E G R O D A P S I C A N Á L I S E
ce, ao contrário, ter sido reconhecido tacitamente como um motivo de em baraço cuja verdadeira natureza foi mascarada graças às manobras e aos recursos financeiros dos
Arquivos Freud.
Que o Homem dos Lobos, Anna O. e vários outros pacientes célebres da história da psicanálise não tenham sido curados não constitui em si uma refutação, propriamente falando, das teorias e das pretensões clínicas de Freud. Esses casos podem ter sido fracassos ou êxitos parciais sem que isso coloque
ipso facto
em causa a validade das teorias de Freud. Mas desde os anos 1930 a pesquisa mostrou repetidamente que os pacientes em análise não se curam mais do que aqueles que buscam outras formas de terapia. Ora, Freud sustentou, ao contrário, que a psicanálise era a única forma de psicoterapia capaz de oferecer curas reais e permanentes — todos os outros êxitos terapêuticos seriam devidos à sugestão.15 Como mostrou Eisenck,16 o fracasso da psicanálise em atingir a taxa de curasuperior
que ela havia fixa do para si deveria ser considerado uma prova manifesta de seu fracasso te órico. Freud parece ter sido sensível a essa questão. Em 1906, ele escreveu a Jung: “Eu não deveria nem mesmo dizer que todos os casos de histeria podem ser curados pela psicanálise.” E acrescentou: “Não podemos expli car nada a um público hostil; consequentemente, guardei para mim certos elementos que poderiam ser ditos a respeito dos limites da terapia e de seu funcionamento.”17 Ora, esses “elementos” mantidos em silêncio, Freud sa bia muito bem, eram determinantes para qualquer debate honesto sobre a validade teórica da psicanálise.Notas
1. Extraído de “Reassessing Freud’s case histories”, ISIS, the Journal of the History
of Science Socieiy, vol. 82 (1991), p. 245-75. Texto traduzido do inglês para o francês por Marie-Cécile Politzer.
2. R. M. Brunswick, “A supplement to Freud’s ‘History of an Infantile Neurosis’”,
International Journal of Psychoanalysis, vol. 9 (1928), p. 439-76.
3. S. Freud, “From the history of an infantile neurosis”, Standard Edition, vol. 17,
Londres, Hogarth Press, p. 3-122. 4. Ibidem, p. 29.
5. Ibidem, p. 37.
6. J. Strachey, “Editor’s note”, Standard Edition, 18, Londres, Hogarth Press, 1955,
p. 3.
7. M. Gardiner, “Research methods in psycho-analysis”, International Journal of
Psychoanalysis, 3 3 ,4 0 3 -9 ,1 9 7 1 , p. VII.
8. K. Obholzer, The Wolf-Man Sixty Years Later, tradução de M. Shaw, Londres,
Routledge e P. Kegan, 1982, p. 36.
9. P. Mahony, Cries ofthe WolfMan, Nova York, International University Press Inc.,
1984, p. 139.
10. M. Gardiner (org.), The WolfMan: by the WolfMan, Nova York, Basic Books,
1971.
11. K. Obholzer, op. cit., p. 113. 12. Obholzer, op. cit., p. 172. 13. Obholzer, op. cit., p. 137. 14. Obholzer, op. cit., p. 112.
15. S. Freud, Leçons d‘introduction à la psychanalyse, Oeuvres complètes, PUF, 2000,
p. 465-80.
16. H. Eysenk, Decline and Fali ofthe Freudian Empire, Nova York, Viking Pen-
guin, 1985, p. 44 [Déclin et chute de Vempire freudien, op. cit.].
17. W. McGuire (org.), The French/Jung Letters, tradução de R. Manheim e R.F.C. Hull,
Bollingen Series XCIV, Princeton, Princeton University Press, 1974, p. 12.
O