Atores Emergentes
9. Free Software Foundation
Outra experiência hacker fundamental é a que gerou o software livre, talvez a mais importante, pois sempre se manteve hacker. A história do software livre começa com Richard Stallman, fundador do movimento e de importantes preceitos que o envolvem. Engenheiro eletrônico, graduado na Universidade de Harvard, em 1971, Stallman ingressou como hacker no Laboratório de Inteligência Artificial do MIT para colaborar numa comunidade que desenvolvia sistemas operativos para computadores PDP-10. Nessa época, os sistemas operativos eram todos abertos e o compartilhamento dos códigos fonte era uma prática comum entre os desenvolvedores que dessa maneira modificavam e otimizavam os programas. Segundo Stallman (2005: 160), “O ato de compartilhar software não estava limitado a nossa comunidade em particular; é tão antigo como os computadores, da mesma maneira que compartilhar receitas é tão antigo como cozinhar.”
Entretanto, as rápidas transformações da informática já nesse período iriam alterar esse estado de coisas. O computador pessoal, apto a se inserir na vida cotidiana das pessoas, já era uma realidade no final da década de 1970. Impulsionadas pelo sucesso comercial do Apple II, a IBM e diversas outras companhias entravam no mercado de computadores pessoais, cada vez mais competitivo. Nesse contexto, os
softwares, principais responsáveis pela interface com os usuários, foram adquirindo uma
importância cada vez maior, tornando-se privativos e difundidos mediante o pagamento de licenças. Para obter uma cópia executável dos programas, aqueles que trabalhavam com softwares precisavam firmar o nondisclosure agreement (acordo de não revelar o código), de tal forma que as comunidades colaborativas tornaram-se praticamente proibidas. Vendo-se despojado de sua liberdade, Stallman se recusou a aderir à nova lógica privatista e em 1984, quando a Apple lançava o Macintosh, e fundou a Free
Software Foundation (FSF) e iniciou o projeto GNU. Este projeto pôde funcionar
somente em 1992, com o desenvolvimento do sistema operacional Linux, por Linus
Torvalds.
O termo software livre, surge e passa a fazer sentido a partir do momento em que se estabelece o software proprietário, protegido por copyright, como padrão universal. O projeto GNU tinha como meta, portanto, restabelecer essa liberdade aos usuários que aumentavam em número pelo advento do computador pessoal. Para ter sucesso, o projeto precisava assegurar que versões derivadas do GNU continuassem livres e, para isso, foi criado um novo conceito de licenciamento denominado copyleft. Vale ressaltar que o termo surgiu numa brincadeira, segundo Stallman (2005: 167): “Em 1984 ou 1985, Don Hopkins (um companheiro muito imaginativo) me enviou uma carta por correio. Sobre ela, escreveu vários ditos divertidos, entre eles este: Copyleft--all rights
reversed [todos os direitos reversados]. Utilizei a palavra copyleft para denominar o
conceito de distribuição que estava desenvolvendo na época”. A ideia central do copyleft é a permissão para qualquer um rodar, copiar, modificar e distribuir versões modificadas do programa, mas sem a permissão de agregar restrições próprias. Dessa maneira, as liberdades cruciais que definiam o software livre tornavam-se direitos inalienáveis. A implementação específica de copyleft usada por Stallman e a FSF para a maioria dos programas GNU é a General Public License (GPL). Há outras classes de copyleft que usam em circunstâncias específicas.
Subjacente ao conceito e a filosofia do software livre desenvolvido por Stallman e pela FSF, encontra-se mais ou menos formulado um projeto político que tentamos decodificar. O tema central apregoado pelo movimento é a ideia de liberdade, mas que tipo de liberdade? A resposta de Stallman seria: a liberdade que cada usuário tem de fazer uso do software. Liberdade de executar o programa com qualquer propósito; liberdade de modificar o programa para adaptá-lo às suas necessidades, o que pressupõe o acesso ao código fonte; liberdade de redistribuir cópias de um programa livre, tanto grátis quanto pelo preço que queira; liberdade de distribuir versões modificadas do programa de tal forma que a comunidade possa se beneficiar das melhorias. Como o software livre se refere à liberdade e não ao preço, não existe contradição na venda de cópias. A liberdade para vender cópias é crucial para a comunidade obter fundos que gerem aperfeiçoamentos no software livre.
Tais liberdades juntas compõem um sistema de ética que pode se estender para além do software livre, o que inevitavelmente acontece e é praticado como pode ser
demonstrado em diferentes experiências. O creative commons, criado por Lawrence Lessig, estende essa lógica para os diferentes bens culturais e artísticos, de caráter imaterial, como filmes, músicas, livros, fotografias. O coletivo SUPERFLEX testou o conceito em uma cerveja, FREE BEER e licenciou-a em creative commons. Da mesma forma, esta lógica pode ser aplicada em diferentes setores da produção, no que se refere à propriedade intelectual de uma maneira mais ampla, incluindo as patentes industriais.
Stallman entende a liberdade como um direito natural e, por isso, qualifica o
copyright de anti-social e não-ético; “o copyright não é um direito natural, mas sim um
monopólio artificial imposto pelo governo que limita o direito natural dos usuários à cópia. […] Segundo a filosofia do software livre, os usuários de computadores devem ter liberdade para modificar os programas, para ajustá-los às suas necessidades, e liberdade para compartilhar o software, porque a base da sociedade está em ajudar outras pessoas.” (2005: 162). Dessa forma, o software livre pôde se tornar uma causa política, inicialmente para os hackers, que foram se tornando mais politizados, mas. em seguida. para uma grande comunidade de usuários e, até mesmo, participando como pauta em movimentos de radicalização democrática.