2 FORMULAÇÃO TEÓRICA DO PROBLEMA DE PESQUISA
E- government can transform governments by making them more accessible to their citizens In addition, through e-government,
2.4. Freedom of Information e a e-Democracia
Com a emergência das discussões sobre democracia e do tema da accountability nos últimos vinte anos, surgiram inúmeras comissões governamentais responsáveis pelo debate sobre transparência governamental e a necessidade de liberdade de acesso às informações públicas, assim como se consolidaram, em muitos países, organizações da sociedade civil voltadas à discussão destes temas (CAMPAIGN..., 1997, 2000; COMMITTEE..., 2002). Como exemplo, podemos citar as associações civis nos Estados Unidos da América (EUA) que discutem a implantação destas legislações nas esferas federal e estadual de governo, assim como as especificidades e limites do acesso às informações públicas (CAMPAIGN..., 1997). Apesar de os debates sobre a liberdade de informação terem recebido maior destaque nos últimos anos, em especial pelas suas conexões com a temática da
democracia, tais discussões não são recentes. A primeira Lei relacionando a liberdade de acesso às informações públicas data de 1766 e faz parte do Ato de Liberdade de Imprensa da Suécia. Nos EUA, o Freedom of Information Act federal data de 1966. Atualmente, mais de 70 países possuem legislações que permitem o livre acesso à informação governamental e vários outros discutem a introdução de mecanismos semelhantes.11
Conhecidas nos países de língua inglesa como Freedom of Informations Laws (ou Acts), estas legislações variam muito de país a país e existem em diferentes graus de institucionalização, enfocando questões que vão desde o que pode ser acessado, a forma de acesso (em geral por meio de websites) e a gratuidade do serviço. Em geral, todas contêm cláusulas de exceção, ou seja, uma descrição das informações que não poderão ser disponibilizadas por se referirem a segredos de Estado (SPECK [org], 2002). Nessas legislações, a decisão sobre a liberação e disponibilização das informações é em geral delegada a uma terceira instância, habitualmente aos tribunais (casos dos EUA, Austrália e Nova Zelândia). Vários países europeus já contam com leis de liberdade de informação e a sua aplicação é uma das orientações da Comunidade Européia aos países membros como forma de prover maior transparência administrativa, principalmente na área econômica. Um exemplo marcante de tal disposição é o artigo 255º do tratado que instituiu a Comunidade Européia, estabelecendo que:
Todos os cidadãos da União e todas as pessoas singulares ou coletivas que residam ou tenham a sua sede social em um Estado-Membro têm direito de acesso aos documentos do Parlamento Europeu, do Conselho da União Européia e da Comissão Européia. (COMISSÃO..., 2003a, 2003b).
O Brasil é um dos países que não possui legislação específica a esse respeito, embora haja instrumentos legais que permitem a um cidadão obter informações públicas. No Brasil, o princípio básico da acessibilidade de informações deriva do habeas data, explicitado na Lei Federal nº 9.505/97. Por este princípio, cada cidadão tem o direito de acessar, e eventualmente corrigir, as informações pessoais contidas
nos arquivos governamentais, em especial os remanescentes dos serviços secretos do regime militar. A Constituição Federal de 1988 assegura também amplo acesso à informação pública, não só quanto ao direito de informar, como quanto ao direito coletivo de ser informado (BRASIL, 1999, artigo 5º, incisos XIV e XXXIII). A Constituição Federal explicita também que a publicidade dos atos de governo deve se estender a todas as instâncias de governo, incluindo a administração direta, indireta e fundacional (BRASIL, 1999, artigo 37). A Lei federal nº 8159/91 (BRASIL, 1991) estabelece o direito de pleno acesso a quaisquer documentos públicos, de arquivos públicos e privados, excetuados os considerados sigilosos, cuja divulgação possa por em risco a segurança da sociedade e do Estado (SPECK [org], 2002). Após um período de abertura de informações dos governos, acompanhando a onda de democratização que percorreu vários países nas últimas décadas, houve um nítido retrocesso, sob a justificativa da necessidade de combate ao terrorismo, promovido por vários países depois dos atentados de 11 de setembro de 2001 nos EUA. As restrições de informações governamentais são mais marcantes nos EUA e na Europa, mas afetam outros países não diretamente envolvidos no combate ao terrorismo (POPE, 2002). Embora no caso dos EUA o conflito de interesses entre partidários da liberdade de informação e os setores de inteligência do governo seja cada vez maior, a tendência mundial tem sido voltada a uma abertura e uma transparência sempre mais amplas.
Associando os temas da democracia, accountability, transparência governamental e liberdade de informação, alguns autores indicam a existência de mudanças mais significativas na sociedade. Para Fountain (2001), a sociedade está vivendo sob a influência de novos paradigmas: o da era da informação e o da dominação do setor de serviços sobre outros setores da economia. Para o citado autor, novos paradigmas surgem concomitantemente ao desenvolvimento da Sociedade da Informação. O governo eletrônico seria o resultado da transposição dos novos paradigmas para o ambiente do governo.
Castells (1999, 2000, 2001a) aprofunda este tema, ao analisar a constituição de uma nova sociedade da Era da Informação, na qual os reflexos do desenvolvimento tecnológico seriam responsáveis por enormes transformações na sociedade como
um todo. Neste contexto, o próprio Estado, afetado por tais transformações, teria alterado a sua forma de atuação e interação com a sociedade. Para Castells, as novas TICs, e em especial a Internet, teriam a mesma importância no atual momento que o surgimento das máquinas teve para a era industrial, não só por permitirem um grau de interação jamais visto, mas também por permearem campos diversos, como a economia e a sociedade (CASTELLS, 2001b, p. 1). Em relação à influência da Internet na democracia, Castells afirma que:
The Internet was expected to be an ideal instrument to further democracy – and stills is. Political information can be easily accessed, so citizen can be almost as well informed as their leaders. With government goodwill, all public records, as well as a wide range of non-classified information, could be made available online. Interactivity makes it possible for citizens to request information, voice their opinion, ask for a personalized answer from their representatives. Instead of the government watching people, people could be watching their government –which is actually their right, since the theory people are the master of the place. (CASTELLS, 2001b, p. 155).
A emergência de novas formas de governança na era digital permitiria o surgimento da chamada democracia eletrônica, ou democracia na era eletrônica (OKOT-UMA, 2000, STIGLITZ; ORSZAG; ORSZAG, 2000, ORGANISATION..., 2003). Segundo Okot-Uma:
Broadly, Electronic Democracy (eDemocracy) refers to the processes and structures that encompass all forms of electronic communication between Government and the Citizen. In a narrower perspective, eDemocracy refers principally to the processes and structures that encompass all forms of electronic communication between the Electorate and the Elected. (OKOT- UMA, 2000, p. 6)
De acordo com a ONU, a democracia eletrônica tem no governo eletrônico um dos seus principais constituintes:
E-government, democracy, and e-participation are the foundation of e-