CAPÍTULO III: Ser Mulher, Ser Bruxa
6. Frei Juan de la Cerda
No Libro intitulado vida politica de todos los estados de mugeres: en el qual se dan
muy prouechosos y Christianos documentos y auisos, para criarse y conseruarse deuidamente las Mugeres en sus estados, o Frei Juan de la Cerda termina sua obra com
um quinto e último tratado intitulado ―De Diversos Capitulos de Mugeres‖ (em contraposição aos outros tipos de mulheres já relacionados nos tratados anteriores, a saber, ―Tratado del estado de las donzellas‖, ―Tratado del estado de las Religiosas consagradas a Dios‖, ―Tratado de las Casadas‖, e por fim o ―Tratado de la Biudas‖). É interessante apontar que todos os tratados ou começam ou terminam com alguma imagem ilustrativa. Não creio que seja ao acaso que a Iluminura que abre este quinto e último livro, seja justamente a imagem de uma bruxa (é possível afirmar, quase sem medo de errar, que se trata de uma bruxa por sua imagem estereotipada: uma mulher já mais velha, quase desnuda, abrindo um jarro contendo vapores mágicos). Tenho essa opinião pelo fato de que, até o momento, o autor vinha tratando dos bons exemplos de mulheres na sociedade, e qual seria o papel esperado de cada uma delas dependendo do
297 MÉNDEZ, María Agueda. ―Ilusas y alumbradas: ¿discurso místico o erótico?‖. Caravelle, No. 52
estágio em que se encontravam em suas vidas. Porém, a partir do quinto, o autor passa a discorrer acerca dos comportamentos desviantes que uma mulher poderia ter: e nada era mais desviante para as comunidades cristãs do que a figura da bruxa.
Dentro deste Tratado, há um capítulo todo dedicado à questão das feiticeiras, bruxas e adivinhas, intitulado ―Capitulo XXVI – De como son muy desdichadas las personas que se dan a las adevinanzas y hechizerias‖. Aqui o autor explicita, ainda que de forma mais resumida, como tais mulheres vão aos encontros demoníacos (La Cerda é um defensor da tese da ida corpórea da bruxa ao Sabá, apesar de concordar com Ciruelo e com Castañega de haver também a possibilidade da ilusão) e de qual espécie são as maldades que elas cometem. Curioso também é como aqui podemos ver que as definições das nomenclaturas não eram duras e fixas, pois o autor parece mesclar em alguns momentos os conceitos já estereotipados de quem seria a ―bruxa‖ e quem seria a ―feiticeira‖:
Figura 6. Página de abertura do Capítulo I do Quinto Tratado da obra do Frei Juan de la Cerda Libro intitulado vida politica de todos los estados de mugeres.
―O nome de feitiçarias se estende a muitas maneiras de mulheres más, e elas são as bruxas, algumas das quais fizeram um pacto com o demônio, e este trato é muito perigoso, e muito mais se vai com revogação de algum artigos de fé, e estas são as malditas feiticeiras. Outras bruxas não fazem pacto algum com o demônio, mas por seu contento andam naquele ofício, e umas destas são levadas pelos demônios vivas em corpo e alma, onde se juntam todas para os seus excessos. E outras são as que dizem não ir, mas que em espírito, que é não ir em corpo nem em alma, mas somente perdem o seu juízo por arte diabólica e lhes representa o diabo muitas coisas, que elas, quando voltam a si, creem terem-nas feito elas mesmas (...). Esta doutrina conclui assim S. Agostinho. As bruxas de verdade vão em corpo e alma, e folgam e se embebedam, e cometem luxúrias, e se diz que chupam o sangue de crianças, e de pessoas de mediana idade, e as matam se a elas desprezam, ou se elas fizeram pacto com o demônio de cometer tal maldade. Procura o demônio revogar a honra divina, tratando mal a sua imagem que é o homem: e por isso, e de inveja que tem de ver o homem ganhar a glória que ele perdeu, procura derrotá-lo em pecados, levando-o ao inferno: e já que não pode se apoderar das almas neste mundo, atormenta os corpos com muitos assédios, entrando neles, e lhes causando enfermidades, ajudando aos feiticeiros e bruxas, como de ministros seus para cometer maldades.‖298
Mas de qualquer forma, a bruxa sempre será pintada como aquela mulher que não soube controlar os seus impulsos luxuriosos naturais. Como já dito no capítulo II, a mulher seria detentora de muito mais sentimentos luxuriosos do que o homem, fazendo com que fosse uma presa mais fácil para as garras do Demônio: afinal, a forma que este mais comumente adotava era a de bode, animal que simbolizava a luxúria.
298 ―El nombre de hechizerias se estende a muchas maneras de malas mugeres, y las unas son las bruxas,
algunas las quales tienen hecho pacto con el demonio, y este trato es muy peligroso, y mucho mas se va con derogacion de algún articulo de fe, y estas son malditas hechizerias. Otras bruxas no hacen pacto alguno con el demonio, sino que por su contento andan en aquel oficio, y unas destas son llevadas por los demonios vivas en cuerpo y alma, a donde se juntan todas para sus holguras. Y otras son las que dizen no yr, mas que en espíritu, que es no ir en cuerpo ni en alma, sino quedando fuera de su juyzio por arte diabólica, les representa el demonio muchas cosas, que ellas quando tornan en si creen que han hecho por sus personas (…). Esta doctrina concluye assi S. Agostin. Las bruxas de veras van en cuerpo y alma, y huelgan y borrachean, y luxurian, y se dize que chupan a los ninnos, y aun a personas de mediana edad, y las matan si las tienen enojadas, o si ellas tienen hecho pacto con el demonio de cometer tal maldad. Procura el demonio derogar la honra divina, tratándole mal su imagen que es el hombre: y por eso, y de envidia que tiene de ver al hombre ganar la gloria que el perdió, le procura derrotar en pecados, por le llevar al infierno: y ya que no se puede apoderar de las almas en este mundo, atormenta los cuerpos con muchas vexaciones, entrando en ellos, y dándoles enfermedades, ayudándose de los hechizeros y bruxas, como de ministros suyos para cometer maldades.‖. CERDA, Juan de la. Libro intitulado vida politica de
todos los estados de mugeres: en el qual se dan muy prouechosos y Christianos documentos y auisos, para criarse y conseruarse deuidamente las Mugeres en sus estados, Alcalá de Henares: Biuda de Juan