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Frei Manuel da Cruz e a nova diocese de Mariana

No documento NEGROS FEITICEIROS DAS GERAES: (páginas 33-139)

A criação do bispado de Mariana em 1745 e a posse de seu primeiro antístite três anos mais tarde são marcos na história eclesiástica de Minas Gerais. A chegada de D. Frei

71 SOUZA, Laura de Mello e. As devassas eclesiásticas da Arquidiocese de Mariana, p. 26-7.

72 FIGUEIREDO, Luciano; SOUSA, Ricardo Martins de. Segredos de Mariana, p. 8; BOSCHI, Caio César. As visitas diocesanas e a Inquisição na Colônia, p. 170.

Manuel da Cruz em Mariana no dia 15 de outubro de 1748, catorze meses e doze dias após sua saída de Maranhão, foi comemorada com grandes festejos que duraram vários dias.74 Festejos, ainda assim, nada comparáveis às cerimônias pomposas que marcaram a entrada solene daquele antístite.75 Depois de recuperar-se de tão longa viagem, uma “odisseia assustadora” nas palavras do cônego Trindade,76 D. Frei Manuel entrou oficialmente na matriz em 28 de novembro daquele ano. Assim foi registrado o momento:

(...) apeou-se S. Excelência à porta da Sé, servido da mesma forma, que quando montou, sustentando-lhe a cauda o Doutor Ouvidor. Logo o Reverendíssimo Doutor Governador lhe administrou o aspersório, e depois a navícula, e o incensou três vezes; e cantando-se o Te

Deum, foi acompanhado debaixo do pálio à Capela do Sacramento, desta ao altar-mor, onde, estando no genuflexório, se lhe entoaram as acostumadas antífonas, e versículos do Pontifical Romano. Subiu ao trono, e nele recebeu geralmente a obediência de todo o Estado, assim eclesiástico, como secular (...).77

Apesar de concretizada apenas em meados do século XVIII, a criação de um bispado na região das Minas já havia sido aventada desde 1719, quando a Coroa, em carta régia de 17 de março do mesmo ano, solicitou ao Governador de São Paulo e Minas informações acerca da conveniência do estabelecimento de uma nova diocese naqueles domínios.78 Uma provisão da Mesa da Consciência e Ordens em 06 de setembro de 1720 informa que a mesma consulta fora feita ao arcebispo da Bahia e ao bispo do Rio de Janeiro. O objetivo da consulta era informar-se acerca da possibilidade de criação de dois episcopados, um em São Paulo e outro em Minas Gerais, para se “evitar a grande dissolução e distraimentos nos Eclesiásticos e outros prejuízos”.79

A presença da Igreja nas Minas remonta, contudo, ao alvorecer dos Setecentos, marcando o ritual religioso e a manifestação da fé desde os primórdios de sua ocupação. As primeiras igrejas mineiras datam de 1716, criadas por ordem régia de D. João V, atendendo

74 Estes festejos foram narrados à época na obra Áureo Trono Episcopal. Sobre as representações de poder do Estado português inscritas nesta obra, ver KANTOR, Íris. Pacto festivo em Minas colonial: a entrada triunfal do primeiro bispo na Sé de Mariana (1748). 1996. Dissertação (Mestrado em História) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo.

75 TRINDADE, Raimundo. Arquidiocese de Mariana, p. 76.

76 TRINDADE, Raimundo. Arquidiocese de Mariana, p. 77. Na visão do cônego não poderia receber outro nome uma viagem de quatorze meses, “através de quatro mil quilômetros de aspérrimos sertões, raro ou nunca trilhados pelo homem civilizado, numa extensa porção dos quais não só imperava o gentio antropófago, como grassavam, endêmicas e arrasadoras, as ‘carneiradas’ do São Francisco”. Ibid., ibid..

77 ÁVILA, Afonso. Resíduos seiscentistas em Minas: textos do século do ouro e as projeções do mundo barroco. Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais, 1967, p. 395.

78 Talvez inserir referência, ver Boschi, Carrato.

79 Apud BOSCHI, Caio César. Os leigos e o poder: irmandades leigas e política colonizadora em Minas Gerais. São Paulo: Ática, 1986, p. 87.

aos pedidos de D. Frei Francisco de São Jerônimo, então bispo do Rio de Janeiro.80 Desse modo, mesmo antes da criação do bispado de Mariana, a região não passou despercebida às tentativas de normatização e controle pela Igreja e pelo Estado português. Pertencente à diocese do Rio de Janeiro, as Minas foram alvo de visitas pastorais e eclesiásticas desde as primeiras décadas do século XVIII e várias cartas pastorais foram enviadas às freguesias mineiras com a intenção de regular as práticas dos clérigos, a doutrinação e a administração dos sacramentos.81

A historiografia sobre a Igreja na capitania do ouro tem apontado a estreita relação entre esta instituição e o Estado português através do regime de padroado, caracterizado pela autoridade real sobre a instituição católica nos domínios do reino. Segundo Riolando Azzi, o padroado pode ser entendido “como uma combinação de direitos, privilégios e deveres concedidos pelo papado à Coroa portuguesa, patrona nas missões e instituições eclesiásticas católico-romanas”.82 Instituído no final da Idade Média, o padroado concedia aos monarcas portugueses o poder de autorizar a construção de capelas e igrejas e nomear arcebispos, bispos e eclesiásticos, desde que os nomes fossem apresentados previamente ao papado, no caso dos cargos mais elevados, e aos bispos, em se tratando das autoridades menores.83

De acordo com Boschi, a presença da Igreja nas Minas deve ser compreendida através de dois elementos: o instituto do Padroado e a tributação eclesiástica. A institucionalização da Igreja na capitania só pode ser compreendida, segundo o autor, “à luz da política colonizadora portuguesa para a região”.84 Os clérigos estavam subordinados à autoridade real, agindo como funcionários régios e tendo restrito espaço de autonomia com relação aos interesses da Coroa. A criação do bispado de Mariana teria atendido, assim, a interesses de natureza geopolítica e “à necessidade de tentar sanar a fragilidade do exercício episcopal na Capitania”.85

As tentativas do Estado de regulamentar e controlar a região mineradora remontam à descoberta dos primeiros veios auríferos. Ordens régias e bandos para normatização e controle

80 CARRATO, José Ferreira. Igreja, Iluminismo e escolas mineiras coloniais: notas sobre a cultura da decadência mineira setecentista. São Paulo: Companhia Editora Nacional, Editora da USP, 1968, p. 27.

81 OLIVEIRA, Alcilene Cavalcante. A ação pastoral dos bispos da diocese de Mariana, p. 39-40.

82 AZZI, Riolando. A Instituição Eclesiástica durante a primeira época. In: HOORNAERT, Eduardo et al..

História da igreja no Brasil: ensaio de interpretação a partir do povo. Petrópolis: Vozes, 1983, t. II, p. 155-242.

83 BOXER, Charles. A Igreja e a Expansão Ibérica, 1440-1770. Lisboa: Edições 70, 1981, p. 99. 84 BOSCHI, Caio César. Os leigos e o poder, p. 79.

85 Ibid., p. 89. Segundo Boschi, os bispos de Mariana, como instrumentos da política metropolitana para as Minas, “exerciam sua ação pastoral menos preocupados com a incorporação de novos adeptos à sua comunidade de fiéis e discípulos do que com a suplementação da administração civil”. Ibid., p. 91.

da região são emitidos desde o início de sua ocupação.86 O desmembramento das Minas da capitania de São Paulo em 1720 deve ser compreendido através da perspectiva do controle fiscal e da regulamentação implementados pela Coroa. Medidas como criação de vilas, instalação de órgãos administrativos, urbanização da região mineradora e a criação da capitania de Minas Gerais “visavam à institucionalização da sociedade mineradora e, por conseguinte, a afirmação do poder do Estado”.87 Este processo não se deu, contudo, sem conflitos. Segundo Marco Antônio Silveira, a implementação dos órgãos administrativos do Estado na região, numa tentativa de institucionalização da sociedade mineradora, ao aumentar a presença fiscalista da Coroa e a repressão militarista dos infratores, acabou por promover, mesmo que indiretamente, um quadro de instabilidade e desintegração.88

Apesar do esforço dos bispos fluminenses em disciplinar os eclesiásticos e difundir os ideais tridentinos nas Minas, principalmente através de visitas e cartas pastorais, a extensão do bispado do Rio de Janeiro, o despreparo dos párocos, o desvio de comportamento e de moral da população, a peculiaridade da religião vivida pelo povo, marcada pela congregação dos fiéis em irmandades leigas e a demora das cartas pastorais para chegarem às regiões mineiras dificultaram a centralização e o controle das Minas, o que prejudicou a adequação efetiva das práticas religiosas do clero e dos fiéis às normas da Igreja católica. De acordo com Alcilene Oliveira, há que se considerar, contudo, a existência de uma relação dinâmica entre a tentativa de implementação das normas e a sua recepção pelos fregueses. A religiosidade em Minas colonial marcava de forma profunda todos os momentos da vida social, sendo a Igreja, portanto, “lócus de várias vozes”, inclusive daquelas propagadas pelas autoridades episcopais.89

Devido à necessidade da Coroa de estabelecer a ordem na região das Minas, tão marcada em seus primeiros anos pelos motins, conflitos e infração às leis metropolitanas e às normas eclesiásticas, foi criado o bispado de Mariana em 1745. Comunicando ao governador de Minas Gerais a criação do bispado, o rei D. João V justificava a medida em razão da “grande necessidade que têm os moradores da cidade de Mariana90 e suas anexas de pasto espiritual”. Na mesma carta, anunciava ao governador Gomes Freire de Andrade a nomeação de D. Frei Manuel da Cruz para presidir a nova diocese, confiando que “pelas suas virtudes e

86 SOUZA, Laura de Mello e. Desclassificados do ouro: a pobreza mineira no século XVIII. 3. ed. Rio de Janeiro: Graal, 1990.

87 OLIVEIRA, Alcilene Cavalcante. A ação pastoral dos bispos da diocese de Mariana, p. 17-8. 88 SILVEIRA, Marco Antônio. O universo do indistinto, p. 26.

89 OLIVEIRA, Alcilene Cavalcante. A ação pastoral dos bispos da diocese de Mariana, p. 45.

90 A então vila de Ribeirão do Carmo se tornou cidade para sediar a nova diocese, passando a se chamar Mariana, em homenagem à rainha D. Maria Ana de Áustria, esposa de D. João V, sendo a primeira e única cidade de Minas no período colonial. TRINDADE, Raimundo. Arquidiocese de Mariana, p. 73-4.

mais circunstâncias que moveram a nomeá-lo, o fará com acerto, zelo e amor de Deus e de suas ovelhas”.91

D. Frei Manuel recebeu com certa reserva a notícia de sua nomeação para o novo bispado. Em carta encaminhada ao rei, solicitando proteção para a empresa da qual fora incumbido, considerava a missão superior às suas qualidades.92 Escrevendo ao frei Gaspar da Encarnação, confessava a sua contrariedade inicial em presidir a diocese de Mariana:

Não posso deixar de dizer a Vossa Reverendíssima com verdade sincera, que me causam grande confusão as grandes, e repetidas honras, que recebo de Sua Majestade, que Deus guarde, confesso porém a Vossa Reverendíssima, que não deixou com as primeiras notícias de sentir alguma repugnância a minha preguiça, frouxidão; porque suposta a quietação e sossego, em que já estava depois de muitos trabalhos, repugnava entrar em outros, e que poderão ser maiores.93

Ao cardeal da Motta, já resignado com a mudança para Minas, prevê as imensas dificuldades da fundação daquele bispado, “a que o Demônio se há de opor com todas as suas forças; porque não quer se levantem estas fortalezas do Céu tão necessárias naquelas distâncias para livrar as almas do seu cativeiro”.94

Com a posse de D. Frei Manuel três anos mais tarde tornou-se possível um maior controle e fiscalização do ritual católico e das práticas religiosas de clérigos e leigos nas Minas, bem como a tentativa de implementação de uma ortodoxia aos moldes tridentinos.95 O prelado preocupou-se essencialmente com a disciplina eclesiástica, a normatização do rito e o combate aos desvios e heterodoxias religiosas. A intenção de adequação do culto às orientações tridentinas está expressa na exigência de como ele deveria ser realizado. Na gestão de D. Frei Manuel os ritos eclesiásticos praticados nas igrejas do bispado deveriam

91 TRINDADE, Raimundo. Arquidiocese de Mariana, p. 75-6. O autor não cita a fonte dos enunciados acima. 92 Escrevendo ao rei, D. Frei Manuel expressava: “Esta empresa é mui superior à pequenez do meu talento, e à fraqueza do meu espírito; mas Deus (que moveu a Vossa Majestade a erigir estes dois bispados, e duas prelazias tão úteis, e necessários para o bem espiritual das almas de seus vassalos) me dará forças espirituais, e corporais para satisfazer a minha obrigação, e executar as ordens de Vossa Majestade”. Carta para el-Rei – 1745. In: COPIADOR de algumas cartas particulares do Excelentíssimo e Reverendíssimo Senhor Dom Frei Manuel da Cruz, bispo do Maranhão e Mariana (1739-1762), p. 132-133. Alcilene Oliveira vê neste trecho um tom de

modéstia afetada, uma figura de retórica usada para convencer o leitor. OLIVEIRA, Alcilene Cavalcante. A

ação pastoral dos bispos da diocese de Mariana, p. 52.

93 Carta para o Reverendíssimo Ilustríssimo frei Gaspar da Encarnação reformador da Sagrada Congregação dos Cônegos Regrantes de Santa Cruz de Coimbra – 1745. In: COPIADOR de algumas cartas particulares do Excelentíssimo e Reverendíssimo Senhor Dom Frei Manuel da Cruz, bispo do Maranhão e Mariana (1739- 1762), p. 144.

94 Carta para o Cardeal da Mota – 1745. In: Ibid., p. 137.

95 OLIVEIRA, Alcilene Cavalcante. A ação pastoral dos bispos da diocese de Mariana, p. 56-60. De acordo com Adalgisa Campos, apesar dos limites impostos pelo Padroado, este não chegou a constituir uma barreira para o desenvolvimento do ideal reformista nas Minas. As visitas pastorais e as devassas funcionaram como instrumentos da atuação tridentina na região. Desse modo, “os visitadores lutavam de um lado contra a religiosidade popular e do outro, com os clérigos relapsos. Tentavam imprimir mais austeridade aos costumes e aos ritos”. CAMPOS, Adalgisa Arantes. A mentalidade religiosa do Setecentos, p. 15.

seguir as normas estipuladas de acordo com as orientações tridentinas. O antístite chegou a fixar uma multa de três mil réis a cada um dos capitulares que faltassem ao Coro nos dias

clássicos sem atenção aos doentes por mais notória que fosse a sua enfermidade.96 Esta e outras medidas visavam, assim, à padronização do cerimonial religioso e ao combate às improvisações e aos gravíssimos danos que poderiam trazer ao sagrado.

À frente do bispado, D. Frei Manuel procurou afirmar o princípio da autoridade episcopal, bem como da hierarquia eclesiástica, estabelecer a ordem através da moralização e disciplinarização do clero e reconhecer a autoridade do rei na resolução de problemas da esfera eclesiástica, reforçando, assim, a tutela da Igreja nas Minas ao regime de padroado.97 De modo geral, sua gestão é retratada como um grande esforço em moralizar o clero e implementar os ideais tridentinos de evangelização, visitando várias freguesias e expedindo dezenas de cartas pastorais.98 Entre outras realizações, D. Frei Manuel foi responsável pela criação do cabido diocesano, fundação do Seminário de Mariana, introdução da devoção do Coração de Jesus, elaboração de regimento para as comarcas eclesiásticas, criação de várias paróquias, término da matriz e construção de várias igrejas mineiras.99 Para Alcilene Oliveira, a gestão desse antístite pode ser descrita como “um grande empreendimento católico que visou consolidar a Igreja nas Minas: formando o clero, implementando a doutrina e os sacramentos, enquadrando a população e afirmando o poder da Metrópole”.100

Não estranha, assim, que D. Frei Manuel tenha dedicado especial atenção às práticas religiosas da população e ao combate dos desvios e heterodoxias. Na visita pastoral à freguesia de Cachoeira do Campo, em 13 de junho de 1753, o antístite advertiu contra o perigo dos batuques:

Por nos constar que algumas pessoas de um e outro sexo, pouco tementes a Deus, fazem umas danças que chamam de batuques extraordinariamente muito desonestas e provocantes da sensualidade, mandamos com pena de Excomunhão maior e de vinte oitavas que nenhuma pessoa de qualquer qualidade que seja faça as ditas danças nem as admita em suas casas, roças ou fazendas e menos a elas assista (...).101

96 Apud CAMPOS, Adalgisa Arantes. A mentalidade religiosa do Setecentos, p. 23.

97 OLIVEIRA, Alcilene Cavalcante. A ação pastoral dos bispos da diocese de Mariana, p. 50.

98 Em seu estudo, Alcilene Oliveira localizou sessenta e seis cartas pastorais emitidas por D. Frei Manuel da Cruz e dezoito visitas pastorais a freguesias distintas realizadas pelo prelado. OLIVEIRA, Alcilene Cavalcante.

A ação pastoral dos bispos da diocese de Mariana, p. 59.

99 TRINDADE, Raimundo. Arquidiocese de Mariana, p. 102-9.

100 OLIVEIRA, Alcilene Cavalcante. A ação pastoral dos bispos da diocese de Mariana, p. 60.

101 Apud RODRIGUES, Flávio Carneiro. Cadernos Históricos do Arquivo Eclesiástico da Arquidiocese de

Dois meses depois repetiu a mesma admoestação na visita à freguesia de Itatiaia.102 Além disso, o período da gestão de D. Frei Manuel coincide com o aumento e ápice das visitas, demonstrando, assim, a preocupação daquele prelado com a repressão às práticas desviantes da ortodoxia proposta pela Igreja. Dos 50 livros de devassas do AEAM, pelo menos 14 são de visitas iniciadas ou concluídas durante a jurisdição do primeiro antístite marianense. Assim, a instalação da diocese de Mariana em 1748 marca o início de uma política mais efetiva no combate aos inúmeros desvios da população, entre os quais, as variadas práticas mágicas, os batuques, os cultos à divindades não católicas e os pactos com o demônio. Como os negros eram os maiores denunciados por estas práticas, é principalmente sobre eles que incidirá a repressão do bispado.

Misericordia et Justitia: o Santo Ofício nas Minas Gerais

Fundado no ano de 1536, durante o reinado de D. João III, o Santo Ofício português centrou seus esforços principalmente na perseguição aos cristãos-novos, judeus convertidos ao cristianismo, acusados de praticarem sua antiga religião em segredo.103 A perseguição aos cristãos-novos teria sido mesmo o principal motivo de criação do tribunal na península ibérica, responsável pela produção da maior parte dos códices processuais encontrados no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa. Segundo a historiadora Anita Novinsky, o Santo Ofício em Portugal “foi introduzido exclusivamente para fiscalizar e punir os descendentes de judeus que haviam sido convertidos à força ao catolicismo, e sob suspeita de praticar a religião judaica”.104

Não obstante serem os principais alvos da Inquisição lusa, os suspeitos de judaísmo não foram os únicos perseguidos pelo tribunal. Aqueles cuja conduta se identificava à heresia e aos sortilégios estavam sujeitos a caírem nas malhas do Santo Ofício. A bula papal Cum ad

nihil magis de 23 de maio de 1536, que estabelecia a Inquisição em Portugal, e o monitório publicado pelo inquisidor-geral D. Diogo da Silva seis meses mais tarde descreviam e especificavam, respectivamente, os delitos sob jurisdição inquisitorial. Eram condenados o

102 Ibid., p. 164.

103 BETHENCOURT, Francisco. História das Inquisições: Portugal, Espanha e Itália – séculos XV-XIX. São Paulo: Companhia das Letras, 2000, p. 24; CALAINHO, Daniela Buono. Agentes da fé, p. 22.

104 NOVINSKY, Anita. O tribunal da Inquisição em Portugal. Revista da Universidade de São Paulo, São Paulo, n. 5, p. 91-99, jun. 1987, p. 92. Ver ainda NOVINSKY, Anita. Cristãos novos na Bahia: A Inquisição no Brasil. 2. ed. São Paulo: Perspectiva, 1992, p. 34; BETHENCOURT, Francisco. História das Inquisições, p. 338-9.

judaísmo, o luteranismo, o islamismo, as proposições heréticas, a feitiçaria e a bigamia. No monitório de D. Diogo orientava-se a denúncia contra a magia ilícita do modo como segue:

(...) item se sabeis, vistes ou ouvistes, que algumas pessoas, ou pessoa fizeram, ou fazem certas invocações dos diabos, andando como bruxas de noite em companhia do demônio como os maléficos, feiticeiros, maléficas, feiticeiras acostumam de fazer, e fazem, encomendando-se a Belzebu, e a Satanás e a Barrabás, e arrenegando a nossa santa Fé Católica, oferecendo ao diabo a alma, ou algum membro, ou membros do seu corpo, e crendo em ele, e adorando-o, e chamando-o, para que lhes diga cousas que estão por vir cujo saber a só Deus todo poderoso pertence.105

A heresia, entendida na época tanto como um pecado como um delito,106 desvio da fé católica e infração da lei social, pertencia também ao fórum da justiça civil. O delito da feitiçaria, ainda que objeto de dúvida quanto a sua classificação como heresia,107 aparece tipificado mais detalhadamente nas ordenações manuelinas. Segundo Francisco Bethencourt,

o comércio de objetos sagrados para fins ilícitos, a invocação de espíritos diabólicos em círculos ou encruzilhadas, bem como a administração de feitiços de benquerença e de malquerença, são crimes punidos com a pena de morte (ressalvada, é claro, a “qualidade” das pessoas). A adivinhação por sortes, varas, água, cristal, espelho, espada, espádua de carneiro, figuras ou imagens de metal, cabeça de homem morto ou de alimária, baraço de enforcado, membro de homem morto ou qualquer outra espécie de feitiçaria para ligar, benquerer ou malquerer, são crimes punidos com o pagamento de 3 mil reais e açoites públicos, sendo ainda as faces do culpado marcada a ferro com um F. Existe um terceiro conjunto de crimes classificados como “abusões”, tais como: passar doentes por silvão, macheiro ou lameiro, benzer com espada que matou homem ou que passou o Douro e o Minho três vezes, cortar solas em figueira baforeira, ter cabeças de saludadores encastoadas em ouro ou prata, ameaçar afogar imagens de santos, lançar joeira, possuir mandrágoras em casa, passar água por cabeça de cão ou fingir visões, crimes que implicam açoites públicos

No documento NEGROS FEITICEIROS DAS GERAES: (páginas 33-139)

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