4.2 Seção 2 O processo de alta de crianças e adolescentes no CAPSij
4.2.4 O processo da alta no CAPSij
4.2.4.1 Frequência com que a alta acontece
As (os) participantes discorreram sobre a frequência com que acontecem altas nos CAPSij. A partir dos seus relatos, foram desenvolvidos seis DSCs que abarcam as seguintes percepções: a frequência de alta é média-baixa; as altas por abandono são mais frequentes; a frequência da alta é relativa e irregular, dependendo do período anual e da disponibilidade de tempo da equipe para se dedicar às articulações necessárias; a alta está acontecendo com uma maior frequência, comparando-se a períodos anteriores, devido uma maior atenção às mesmas por parte das equipes. Além disso, as (os) participantes também ressaltaram em suas falas necessidades e dificuldades quanto ao tema em questão e abordaram sobre as estratégias da equipe frente a isso. Seguem os DSCs:
“É pouco, é uma frequência média-baixa, se a gente pontuasse critérios formais num documento eu acho que ela aconteceria com maior intensidade. Eu acho que damos poucas altas” (IC: a frequência de alta é média-baixa).
“Altas por abandono, por desistência por mudança de endereço, por transferência tem mais frequência… Agora a alta do serviço mesmo, que é construída, essa é mais raro” (IC: altas por abandono são mais frequentes).
“Depende muito do mês e tem muito a ver com o tempo que a gente tem pra se debruçar sobre o caso, pra conseguir programar a alta e planejar tudo direitinho como vai ser, porque às vezes é necessário articular muito a rede, às vezes isso demora e a gente precisa de tempo pra fazer isso. Então a frequência da alta é muito relativa, não é algo regular, e também não é uma obrigação ou uma meta dar alta todo mês” (IC: a frequência da alta é relativa e irregular).
“A gente tem conseguido olhar mais pra isso, refletir bastante sobre isso, e fazer isso melhor… Pensando nessa lógica do CAPS enquanto lugar de crise, e aí passada a crise, vamos ver quais articulações podem ser feitas além desse espaço… Então hoje a alta tem acontecido com uma certa frequência, comparando com antes, quando a gente chegava a tutelar mesmo as crianças, a gente tinha muita dificuldade em fazer esse planejamento de alta, porque a gente não tinha uma rede de suporte, porque a rede de cuidados aqui na nossa região tem diversas fragilidades em escolas, assistência social, saúde, ainda tem algumas questões muito importantes que precisam ser pensadas, e que a gente entende que algumas crianças e adolescentes, precisam de uma continuidade de acompanhamento, só que diante dessa fragilidade a gente por vezes deixava essa criança no serviço até que a gente pudesse chegar numa rede ideal… Eu acho que, com o passar dos anos a gente foi fazendo diversas discussões, diversos aprofundamentos em cima dessa temática, e uma articulação melhor com a rede de cuidados, e a gente foi bancando muito mais esse processo de alta de uma forma mais frequente” (IC: a alta está acontecendo com maior frequência em comparação a períodos anteriores devido maior atenção da equipe para este tema).
“A gente percebe que nas reuniões de discussão de casos a equipe sempre acaba discutindo os casos novos e comete esse erro de não parar pra olhar de novo os casos que a gente já está acompanhando há algum tempo… Além disso, eu acho que a gente precisaria ter um serviço muito menos sobrecarregado e inchado, pra gente também ter mais qualidade de acompanhamento para as pessoas que realmente precisam, mas por toda a dificuldade dessas pessoas serem inseridas nesses outros espaços de cuidado, além do CAPS, muitas acabam ficando e ficando, quando na verdade a gente já tem uma leitura de que não precisaria mais de um serviço na lógica do CAPS, que é um serviço de gravidade, de complexidade… Então eu acho que a gente tem muitos entraves pra dar alta. Isso dificulta e faz com que a frequência de altas seja menor do que o que a gente deveria fazer” (IC: dificuldades relacionadas à frequência da alta).
“A gente não tem dado alta do CAPS, às vezes a gente dá alta de um grupo e aí passa pra um outro projeto. Isso a gente tem experimentado com um pouco mais de frequência, é algo que tem acontecido mais, então o paciente evoluiu pelo desenvolvimento emocional, mental, não cabe mais naquele grupo que está muito infantilizado, vai pra outro grupo, ou a demanda dele tem mais a ver com outro grupo mais velho, com outra proposta, então a gente faz essas mudanças. E a gente também construiu um fluxo de avaliação pra ser um pouco mais rápido, especialmente pra demandas que não são de CAPS” (IC: estratégias da equipe relacionadas à frequência da alta).
Como pode ser observado nos DSCs, esta questão parece ter provocado uma reflexão nas (os) participantes que, além de responderem sua percepção sobre a frequência da alta no CAPSij, também desenvolveram raciocínios que justificam tal frequência ser baixa, na concepção delas (es), ou seja, a falta de critérios mais bem definidos para a alta e de um fluxo efetivo, a dificuldade da equipe em priorizar a discussão da alta em suas reuniões e a fragilidade da rede intersetorial que dá pouco respaldo ao CAPSij. De qualquer forma, com respeito à alta, observou-se que ela acontece, ainda que uma análise mais quantitativa e sistematizada não tenha sido realizada.
O quinto DSC, na ordem de apresentação, que trata das dificuldades relacionadas à frequência da alta, aborda aspectos relativos aos processos de trabalho no CAPSij. Este DSC aponta para o fato de que nas reuniões de discussão de casos, geralmente são trazidos os casos novos para discussão, enquanto aqueles que já estão inseridos há mais tempo não são repensados e priorizados, o que, na percepção das (os) participantes é um erro. Acredita-se que essa situação pode ser uma realidade vivenciada pelos CAPSij, considerando a grande demanda de crianças e adolescentes em sofrimento psíquico que chega para admissão no CAPSij. No entanto, esta situação colabora justamente para a superlotação dos serviços, pois as crianças e adolescentes vão permanecendo neste espaço, o que foi inclusive destacado pelas (os) participantes como um dos motivos deste “erro”, gerando assim um ciclo de admissões frequentes e altas pouco frequentes.
Para dar alta é preciso tempo para que a equipe faça as articulações necessárias, se debruce sobre o caso e faça o seu planejamento, conforme foi destacado no terceiro DSC que discursa que a alta é relativa e irregular. Apesar do desenvolvimento de um olhar ampliado e mais cuidadoso com relação ao processo de alta, o que já se pode identificar como um avanço nos caminhos da SMIJ, apresentado no DSC que relata que a alta está acontecendo com maior frequência, é preciso pontuar que tais resultados refletem que os processos de trabalho dentro do CAPSij também estão ligados à frequência da alta.
Nesta direção, os dados e discussão apresentada nesta seção, configuram-se como elementos fundamentais para os profissionais e gestores dos CAPSij, no sentido de repensar a dinâmica, os processos de trabalho e a gestão do cuidado nestes equipamentos de SMIJ.
Uma estratégia relatada no último DSC é a alta de um grupo para outro dentro do próprio CAPSij, que pode acontecer com maior frequência se comparada à alta do serviço. Esta parece ser uma estratégia que permite tanto aos profissionais quanto às crianças e/ou adolescentes e seus familiares perceberem os seus percursos e demandas na trajetória do cuidado, formando portanto, parte do processo de alta.
Em relação à percepção das (os) participantes sobre a frequência da alta, observou-se que os resultados observados aqui são similares aos do estudo de Bueno (2013), que também identificou que esta acontece de forma reduzida, segundo terapeutas ocupacionais trabalhadoras de CAPSij do Estado de São Paulo, sendo pontuado pela autora que:
Este baixo número de altas pode estar relacionado a uma carência de serviços nos quais estes usuários possam ser inseridos e um reflexo da fragilidade da rede de serviços dos diversos setores que assistem às crianças e aos adolescentes, além da complexidade dos quadros dos usuários (Idem, p. 61)
Outras justificativas discutidas ainda na pesquisa de Bueno (2013), que também corroboram com o presente estudo, dizem respeito ao fato de alguns profissionais da equipe protegerem e evitarem dar alta aos usuários; a classificação dos usuários por patologias; a hierarquia da psiquiatria como detentora do poder; e a dificuldade de haver a horizontalidade entre os profissionais – entre si e com as famílias e usuários.
Diante de tais resultados e reflexões, percebe-se que a temática da alta parece, de modo geral, ainda ser pouco explorada e problematizada no âmbito das equipes dos CAPSij. Nesse sentido, o presente estudo contribui, na medida em que pauta a questão e permite identificar aspectos que podem ajudar a repensar algumas dinâmicas do processo de trabalho, capazes de otimizar e facilitar o curso do cuidado e, inclusive, da alta de crianças e adolescentes.