5.2 APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS RESULTADOS
5.2.1 Utilização dos critérios de qualidade do produto na avaliação de riscos
5.2.1.4 Frequência, consequência, impacto, severidade e abrangência
A pergunta 1 da entrevista (“Qual critério é mais priorizado por você? Por que?” - vide Apêndice C), objetiva identificar, dentre os critérios formais de medição de risco da empresa (Probabilidade e Impacto), qual é o mais priorizado na AR. Como respostas, obteve-se que 33,33% da amostra não faz distinção dentre os critérios, mas que seguia a ordem de prioridade de acordo com o resultado da relação Probabilidade X Impacto. A maioria de 66,66% da amostra, indicou que priorizava o Impacto (ROVAI, 2005; MANUJ e MENTZER, 2008; LALONDE e BOIRAL, 2012). Com comentários como o de SO11: “Impacto para mim é um vicio, com certeza, sem duvidas”.
Desses, 33% afirmaram ainda que a Probabilidade por vezes é preterida e os demais falaram se tratava mais de uma questão de priorização do que de não valorização da probabilidade.
O Impacto também foi o critério mais citado (vide Quadro 14 (6)) e mais citado dentro de outros critérios como Severidade, Tempo de impacto, Abrangência, Custo, Frequência, Legislação e outros (vide Apêndice D). Isso ocorre, além da preferência declarada, pelo fato de o Impacto ser o critério que os respondentes possuem uma visão mais abrangente e menos delimitada da sua definição. Incluindo aspectos de outros critérios em seu conceito. Na análise de conteúdo, cada respondente atrelou sua mensuração à um aspecto diferente como, Custo, Legislação, saúde do colaborador e principalmente Clientes (citado em 44% das respostas). Além disso, as métricas sugeridas pela empresa para avaliar o Impacto, por si só misturam o seu conceito com o de Severidade e Abrangência, uma vez que o usuário classifica o risco com
19 Entrevista concedida por PROJ12. Entrevista XII. [Dez. 2018]. Entrevistador: Clarissa Frade de Araújo. Recife,
métricas alinhadas com esses conceitos e não com o conceito de Impacto exclusivamente (vide início da subseção 5.2.1) (KARIMIAZARI et al, 2011; LING e THENG ANG, 2013).
O Quadro 12 (5), expõe resultados de concordância a respeito das opiniões dos respondentes do questionário sobre os critérios: Frequência, Consequência, Impacto, Severidade e Abrangência.
Alinhadas com as discussões sobre Impacto, as respostas obtidas sobre o critério (I32, I33 e I34) indicam que os usuários priorizam para o tratamento os riscos com maior impacto. Contudo, por mais que haja critérios com maiores dispersões, seus índices não são baixos, o que confirma a avaliação descontrolada e sem padrão deste critério.
Quando 12 (5) – Frequência, Consequência, Impacto, Severidade e Abrangência: resultados concordância
Os resultados das questões FE28 e FE29 indicam que os respondentes priorizam riscos de maior frequência e que não colocam tanta atenção em riscos menos frequentes. Contudo, com os resultados das entrevistas, constatou-se que na prática, os respondentes optam por tratar ou não tratar os riscos considerando o Impacto, em detrimento da Frequência, como verifica-se nos comentários a seguir:
• SO11 “A gente não foca muito nisso não. A não ser que tenha um grande impacto (informação verbal)”20;
• PI7: “[sobre um risco com alta frequência e baixo impacto] Ele poderia ser tratado, mas não de maneira prioritária. É um risco pequeno... e que não vai ter um impacto tão relevante para o cliente, enquanto outros podem ter uma probabilidade menor de o risco acontecer e o impacto ser muito grande (informação verbal)”21;
• GQ10: “A probabilidade se for alta que não tenha o impacto tão grande acho que não tem tanta interferência nas atividades gerais, tanto na empresa quanto na segurança ou no colaborador em si. O impacto se ele acontecer uma vez, dependendo desse impacto pode ser muito mais sério (informação verbal)”22.
Esse critério é mais utilizado para desempate na seleção de riscos para o tratamento (quando mais de um risco possui o mesmo nível de impacto) do que como um fator decisivo de avaliação. Contudo, um risco com baixo impacto e com muita incidência pode ser prejudicial a longo prazo. Um risco de baixo impacto que atinja os clientes ou os colaboradores, por exemplo, pode gerar insatisfação com a recorrência. Os indicadores de dispersão confirmam essa variação em seu uso.
20 Entrevista concedida por SO11. Entrevista XI. [Dez. 2018]. Entrevistador: Clarissa Frade de Araújo. Recife,
2018. 1 arquivo .mp3 (40min). A entrevista na íntegra encontra-se transcrita no Apêndice O disponível em CD.
21 Entrevista concedida por PI7. Entrevista VII. [Dez. 2018]. Entrevistador: Clarissa Frade de Araújo. Recife,
2018. 1 arquivo .mp3 (37min). A entrevista na íntegra encontra-se transcrita no Apêndice K disponível em CD.
22 Entrevista concedida por GQ10. Entrevista X. [Dez. 2018]. Entrevistador: Clarissa Frade de Araújo. Recife,
Quanto ao critério Consequência, o resultado da questão CS30 aponta para o uso de ferramentas da qualidade para o levantamento das consequências dos riscos. Esta é uma prática positiva, especialmente para o caso da empresa estudo de caso pelo fato de eles não medirem a Consequência, mas apenas descrevê-la. Dessa forma as ferramentas da qualidade auxiliam para uma descrição mais completa e guiam a discussão sobre o risco (SURESHCHANDAR, RAJENDRAN e ANANTHARAMAN, 2003; ASPINWALL, 2008; ZHAO et al, 2014; RITCHIE e BRINDLEY, 2017). Isso prepara os usuários para a avalição do impacto (GQ9: ...porque ele [o critério Consequência] vai clarear o que que aquele risco pode causar e vai clarear para a gente entender qual o impacto que aquilo vai ter (informação verbal)”23 / GQ10:
“Consequência vem antes de a gente definir o impacto (informação verbal)”24) e os permitem
ter uma visualização prévia do que precisarão englobar no plano de ações (PROJ5: “Essa consequência eu já tento vê-la como base para minhas ações (informação verbal)”25 / SO11: “A
gente tenta prever e já procura ações para trabalhar aquilo (informação verbal)”26). A forma
como esse critério é utilizado satisfaz a etapa de análise de risco proposta pela ISO 31000, que consiste em uma análise prévia dos riscos antes que eles sejam de fato avaliados (vide subseção 2.2.2.1).
O resultado da questão CS31 indica que tanto ocorre levantamento das consequências prováveis quanto das não prováveis (vide indicadores de dispersão). Isso ocorre devido à supervalorização do Impacto em detrimento da Frequência (probabilidade de ocorrência) por parte dos respondentes conforme comentado no início desta subseção.
23 Entrevista concedida por GQ9. Entrevista IX. [Dez. 2018]. Entrevistador: Clarissa Frade de Araújo. Recife,
2018. 2 arquivos .mp3 (32min/8min). A entrevista na íntegra encontra-se transcrita no Apêndice M disponível em CD.
24 Entrevista concedida por GQ10. Entrevista X. [Dez. 2018]. Entrevistador: Clarissa Frade de Araújo. Recife,
2018. 1 arquivo .mp3 (27min). A entrevista na íntegra encontra-se transcrita no Apêndice N disponível em CD.
25 Entrevista concedida por PROJ5. Entrevista V. [Dez. 2018]. Entrevistador: Clarissa Frade de Araújo. Recife,
2018. 1 arquivo .mp3 (33min). A entrevista na íntegra encontra-se transcrita no Apêndice I disponível em CD.
26 Entrevista concedida por SO11. Entrevista XI. [Dez. 2018]. Entrevistador: Clarissa Frade de Araújo. Recife,
Com relação à Severidade, assim como foi para o Tempo e o Impacto, as respostas obtidas no Quadro 12 (5) indicam que as pessoas priorizam os riscos para tratamento não buscando abranger a maior a quantidade possível de riscos, mas sim de acordo com a relevância da gravidade de cada um. Todavia, os resultados sobre o critério Viabilidade do tratamento do risco apontam que os profissionais não possuem um padrão de escolha sobre quais riscos tratar, mas buscam tratar todos eles obedecendo a ordem de prioridade estabelecida. Dessa forma podem colocar atenção e esforços em riscos que não darão retorno satisfatório à empresa (vide subseção 5.2.1.5).
Quanto aos resultados das entrevistas, observou-se que na empresa estudo de caso, Severidade tem sido medida dentro do critério Impacto, uma vez que faz parte da escala de mensuração deste critério. Isso leva o usuário a entender que os dois critérios são a mesma coisa, enquanto, na realidade, tratam de aspectos diferentes do risco (vide capítulo 3). Apesar disso, 54% de todos os entrevistados afirmaram não utilizar esse critério ou utilizar informalmente. Esse percentual foi obtido porque os respondentes não tinham conhecimento desse critério e do que ele engloba. 83,33%. dos respondentes não souberam diferenciar Severidade de Impacto. Ainda depois das devidas explicações, o critério foi considerado difícil de entender por 57% da amostra de pessoas que sinalizaram dúvidas sobre algum critério. Na prática, os usuários misturam o conceito dos dois critérios (GQ1: “A gente botou o nome [impacto] aqui, mas não interpretou como o impacto que tu descreveu aqui, a gente talvez tenha trocado as bolas... usou a palavra impacto quando na verdade a gente estava tratando gravidade (informação verbal)”27).
A questão A37 teve predominância de respostas nos campos discordo e concordo parcialmente e altas dispersões, o que indica que há preocupação em tanto em tratar riscos externos quanto internos. Como foi visto no início da seção, Abrangência é tida como uma
27 Entrevista concedida por GQ1. Entrevista I. [Dez. 2018]. Entrevistador: Clarissa Frade de Araújo. Recife,
medida do Impacto no formulário da empresa. Contudo, os usuários não percebem o uso desse critério, uma vez que, nas entrevistas, apenas a equipe de GQ o reconheceu como um ponto fixo da avaliação. O restante dos entrevistados ou citou a utilização com exemplos de riscos que impactavam interna e externamente à organização (75% dos respondentes) ou afirmou que não utilizava o critério (25% dos respondentes).