Capítulo 1: Rio de Janeiro, 1860-1870
1.1.1 Frequência do público consumidor (1860-1870)
Anos Nº do Público
Frequentador da Biblioteca Entrada e Saída de Livros Nº de Acionistas
1860 -- 33.819 -- 1861 2.938 -- -- 1862 3.145 30.153 -- 1863 3.152 29.993 -- 1864 3.002 31.935 -- 1865 2.145 26.965 -- 1866 2.109 -- -- 1867 1.315 26.720 1340 1868 2.183 25.760 1414 1869 2.250 31.496 1620 1870 2.295 38.459 1796
Quadro 1: Correlação entre o público frequentador, movimentação dos livros e acionistas (“--”: dados
não encontrados)
O quadro se refere à frequência do público da biblioteca, movimentação dos livros e número de acionistas no intervalo de dez anos. Começando com a variável frequência do
público, devo dizer que não tive acesso à biografia desse público responsável pela
movimentação nesse espaço de sociabilidade e literatura; por isso, e por uma questão de clareza da exposição, inicio apresentando e distinguindo os únicos dois públicos possíveis dentro do Gabinete nesse período: os “acionistas” e os “subscritores”. Os subscritores pagam uma mensalidade à associação, garantindo exclusivamente o acesso e o empréstimo de livros da biblioteca; já os acionistas – além de pagarem as mensalidades e de poderem emprestar livros do acervo – podiam, por meio da compra de ações, chegar a ocupar cargos administrativos nas funções de presidente, secretário, tesoureiro e membros do conselho deliberativo, todos escolhidos pelos próprios acionistas por meio de votação em assembleias.150 Acionistas e subscritores são, portanto, os responsáveis pela frequência na biblioteca. Entretanto, os acionistas merecem algum destaque, porque o funcionamento, a organização e a manutenção de tudo o que concernia ao Gabinete estavam a cargo deles. Isso aponta, antecipadamente, uma das razões de atribuirmos a estes acionistas a qualidade de portadores e suportes de tudo o que tem relação com a biblioteca.
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“A distribuição dos cargos previstos para a diretoria (presidente, secretário e tesoureiro), eleita e aprovada anualmente na assembleia geral, guardava uma correspondência com a dignificação e o reconhecimento de seus ocupantes por parte da colônia lusitana, mas também era respaldada pela competência intelectual, ou ainda, pela disponibilidade financeira [...]. O ocupante do cargo de presidente da instituição cumpria um papel figurativo, estando incumbido de presidir as sessões (ordinárias, solenes e comemorativas) e a assembleia geral, ler os discursos e atas, rubricar os documentos relativos às despesas e admitir novos sócios e subscritores”. Nelson Schapochnik, Os jardins das delícias: gabinetes literários, bibliotecas e figurações da leitura na Corte Imperial, op. cit., p. 8. Quanto aos secretários, estes cuidavam da redação dos relatórios de contas da diretoria e, juntamente com o tesoureiro, dos pareceres destes relatórios.
Então, no plano da simples constatação, vemos que o número do público frequentador aumenta nos três primeiros anos do decênio e decai vertiginosamente até 1867, sofrendo um novo aumento até o início da década seguinte. Esta flutuação coincide com o movimento de entrada e de saída de livros da biblioteca ao longo da década.
Acerca da movimentação (entrada e saída) dos livros na biblioteca, ela é decrescente a partir de 1860, havendo uma elevação em 1864, que não se sustenta e declina gradativamente até 1868, ocorrendo nova elevação nos anos seguintes. Comparando estas duas variáveis, nota-se uma diminuição da frequência do público e da movimentação dos livros entre 1867 e 1868, sendo que na virada da década há uma retomada da dinâmica, tanto dos frequentadores quanto dos livros na biblioteca: considere essa variação (flutuação) como uma chave para
adentrar o espaço das relações sociais entre os homens e os livros dentro do Gabinete e chegar ao conhecimento da posição social que ocupa o público.
Para começar a entender, portanto, as razões dessas pequenas variações dentro da biblioteca,151 primeiramente será necessário estabelecer outras relações entre as variáveis apresentadas.
Atente-se para o número de acionistas, considerando os dados encontrados, referentes apenas ao último quatriênio da década de 1860. Os resultados apontam para uma média aproximada de 1.500 acionistas entre 1867 e 1870.152 Constata-se também que esse número é crescente em 1869 e 1870, repetindo a mesma tendência as variáveis frequência do público e
movimentação dos livros, algo que merece ser comentado.
Nota-se que no ano de 1867 o número de acionistas é maior que o de frequentadores da biblioteca, enquanto a movimentação dos livros é maior que em 1868. Neste ano, o número de frequentadores quase dobra em relação ao número de acionistas, enquanto o movimento dos livros cai. Já em 1869 e 1870, os números seguem aumentando entre as três variáveis. Como vemos, entre 1867 e 1868 e apesar do aumento da frequência do público, o movimento dos livros diminui, repetindo a flutuação dos outros quadros.
Diante disso, se estabelecermos uma correlação entre o número de frequentadores e o número de acionistas, poderíamos aventar para o fato de que a movimentação dos livros, considerando as flutuações, é realizada quase exclusivamente pelos acionistas. Faço essa
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Um estudo inspirador sobre as flutuações dos números de visitantes de museus e da estrutura do público pode ser encontrado em Pierre Bourdieu e Alain Darbel, O amor pela arte, op. cit., p. 29.
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Considerei nesse cálculo o número dos acionistas “ausentes”, cuja média é de setenta e quatro portugueses nesses últimos anos. Compreendem os ausentes aqueles que não foram excluídos do rol de acionistas, mas estão fora da associação por motivos diversos, como falta de pagamento das mensalidades, viagem, doença ou óbito. Nesse último caso, as ações ficavam a cargo da família, normalmente, as esposas. Cf. O livro do Copiador, op. cit.
afirmação levando em conta dois aspectos: 1º) os acionistas representam em termos numéricos grande parte das pessoas envolvidas com o Gabinete na década de 1860; 2º) subtraindo o número de frequentadores do número de acionistas poderemos chegar, relativamente, ao número de subscritores, constatando que os acionistas são, de fato, a grande maioria. Vejamos os indicadores:
1867: 1315 (frequentadores) – 1340 (acionistas): 35 (subscritores); 1868: 2183 (frequentadores) – 1414 (acionistas): 769 (subscritores); 1869: 2250 (frequentadores) – 1620 (acionistas): 630 (subscritores); 1870: 2295 (frequentadores) – 1796 (acionistas): 499 (subscritores).
* Total no quatriênio: 8043(frequentadores) 6179 (acionistas) 1933 (subscritores)
Tomando os resultados obtidos com os subscritores, podemos sugerir que a movimentação da biblioteca depende, em 1867, totalmente dos acionistas, ao passo que, nos anos seguintes, os subscritores até representam um número bastante grande; todavia, considerando o total de frequentadores no quatriênio, os acionistas continuam sendo a maioria. Lembrando que existem apenas dois públicos possíveis para o acervo do Gabinete – acionistas e subscritores –, a probabilidade de grande parte dos acionistas expostos nos quadros acima serem responsáveis pela movimentação e flutuação da biblioteca é bastante grande. Essas conclusões vêm nos favorecer na medida em que não tivemos acesso aos dados biográficos do público em geral da biblioteca; em compensação, sabendo de antemão que os acionistas têm presença marcante na associação, este dado parece-me suficiente para começarmos a caracterizar o público da biblioteca responsável pelas flutuações do número de homens e de livros. Considere-se, portanto, o público em potencial do acervo – ou melhor, os consumidores em potencial dos livros: os acionistas do Gabinete Português de Leitura, lembrando que são consumidores, e não necessariamente leitores, já que não houve contato com nenhum testemunho de leitura (práticas de leitura). Por outro lado, tive acesso ao movimento de compra e circulação dos livros dentro do Gabinete, conforme será apontado adiante.
O passo seguinte é tentar caracterizar o perfil socioprofissional e as competências153 de alguns dos acionistas dentro do Gabinete Português.
153
Entendo aqui competência conforme a perspectiva de Pierre Bourdieu e Alain Darbel (O amor pela arte, op. cit., p. 71), isto é, como posse de disposições particulares que definem, nesse sentido, posições sociais e orientam a ação do público frequentador da biblioteca.