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Os rastreadores encontrados com maior frequência foram “interrupção abrupta da medicação” e “uso de laxantes”. Um estudo que utilizou a mesma ferramenta numa população de perfil semelhante, encontrou com maior frequência esses rastreadores (Burch, 2011).

A detecção do rastreador “interrupção abrupta do medicamento” requer uma análise criteriosa para interpretação adequada quanto à ocorrência ou não de EAM. Existem diversos motivos que levam um medicamento a ser suspenso, embora alguns deles não tenham relação com a ocorrência de evento adversos a medicamento, como término do tratamento, falta de acesso, alteração de dose e melhora no quadro clínico do paciente, entre outros. De modo semelhante, os rastreadores “uso de antieméticos” e “uso de laxantes” aparecem com bastante frequência nas prescrições, porém podem estar relacionados a outras indicações comuns aos pacientes com o perfil da unidade estudada, como, por exemplo, ao uso de sonda de alimentação mal posicionada que pode causar náusea e vômitos ou ainda aos longos períodos que os pacientes passam acamados e que podem causar constipação. A própria patologia do paciente também pode ser responsável por esses sintomas e pela necessidade de uso desses medicamentos. O registro adequado das condutas clínicas no prontuário é essencial para a identificação dos eventos adversos a medicamentos.

Entre os EAM identificados, 20 eventos foram identificados através dos rastreadores e 11 não foram associados a nenhum dos rastreadores utilizados. O evento adverso “prurido” foi identificado em três prontuários através das anotações nas evoluções da equipe multidisciplinar envolvida diretamente na assistência e cuidado junto ao paciente e não esteve associado a nenhum dos 14 rastreadores. De modo semelhante, o evento “diarreia” foi identificado por meio das anotações em dois prontuários e não estava associado aos rastreadores do estudo.

Esses dois eventos juntos foram responsáveis pela identificação de cinco (45%) dos 11 EAM detectados sem associação aos rastreadores. É importante salientar que nos três casos de prurido houve administração de hidroxizina por via oral, um medicamento anti-histamínico utilizado para alergias. Esses resultados sugerem que a alteração do rastreador “uso de difenidramina”, de modo a incluir todos os outros medicamentos da classe dos anti-histamínicos H1 padronizados no hospital e a inclusão do rastreador “diarreia” poderiam aumentar a capacidade de identificação de EAM na população do estudo.

Takata et al. (2008), em seu estudo que utilizou rastreadores em uma população pediátrica, encontrou dezoito de 107 EAM (16,8%) que não estavam associados a nenhum rastreador (Takata et al., 2008).

Dos 14 rastreadores selecionados e utilizados neste estudo, 7 identificaram eventos adversos a medicamentos, reforçando o possível benefício que a inclusão de rastreadores acarretaria ao método. Quanto aos outros sete rastreadores que não identificaram EAM, três apareceram, porém não estiveram associados a nenhum EAM e quatro não apareceram em nenhuma internação.

O rastreador “naloxona” foi identificado uma vez e não foi associado a evento adverso a medicamento como seria esperado por se tratar de um antídoto usado para reverter os efeitos dos analgésicos opioides. No entanto, a investigação no prontuário revelou que o paciente foi preparado para ser submetido a um procedimento no centro cirúrgico, mas o procedimento foi cancelado e o medicamento naloxona foi administrado para reverter a analgesia com opioide. Não houve, portanto, nenhuma anotação mencionando qualquer evento. Outro rastreador não associado a nenhum evento adverso foi “hipoglicemia”. Este também ocorreu apenas uma vez e não havia nenhuma informação no prontuário do paciente a respeito desse achado laboratorial (glicose = 36 mg/ dL). O terceiro rastreador não relacionado a EAM foi “hipercalemia” identificado em três prontuários. Em nenhum dos três prontuários havia qualquer anotação a respeito desses resultados, não sendo possível identificar as causas nem relacionar com eventos adversos. A ausência de registro em prontuário das condutas clínicas relacionadas aos resultados de exames laboratoriais prejudica a análise das possíveis causas desses achados e, por consequência, a identificação de possíveis EAM nesses casos.

Os rastreadores “uso de flumazenil”, “uso de poliestirenossulfonato de cálcio”, “tempo parcial de tromboplastina” e “aumento da creatinina sérica” não foram identificados em

nenhuma internação. É possível que eles pudessem demonstrar utilidade em amostras maiores ou em populações pediátricas com perfil mais ampliado (emergência, pacientes cirúrgicos, unidades de tratamento intensivo etc).

Os rastreadores que identificaram o maior número de eventos adversos a medicamentos foram “interrupção abrupta da medicação”, “uso de fitomenadiona” e “uso de laxantes”.

Esse resultado está de acordo com o esperado já que esses rastreadores estão entre os mais encontrados. Outros estudos que utilizaram a ferramenta trigger tools na população adulta também identificaram a maioria dos EAM através do rastreador “interrupção abrupta da medicação” (Giordani et al., 2012; Sam et al., 2015).

Estabelecendo comparação entre os rendimentos dos rastreadores, pode-se observar três grupos. O primeiro grupo é formado pelos rastreadores que obtiveram o melhor rendimento: “uso de difenidramina”, “uso de fitomenadiona” e “excesso de sedação/letargia/queda/hipotensão”. Esses três rastreadores sinalizaram EAM em 100% dos casos onde apareceram, demonstrando alta sensibilidade para identificação de eventos. Dentre esses, os rastreadores “uso de difenidramina” e “uso de fitomenadiona”, que se referem ao uso de medicamento, podem ser coletados com facilidade através da Ficha de Coleta de Medicamentos (FCM). A facilidade na coleta aliada ao alto rendimento sugere que a implantação de um programa de monitoramento de EAM poderia ser iniciada utilizando esses rastreadores. Além do mais, o rastreador “uso de difenidramina” identificou um dos EAM que foram classificados com um grau maior de gravidade (F). Já o rastreador “excesso de sedação/letargia/queda/hipotensão” precisa de uma análise mais detalhada do prontuário e depende da qualidade dos registros feitos pela equipe de saúde.

No segundo grupo encontra-se o rastreador “exantema”, que obteve rendimento intermediário, entre 30 e 70%. Esse rastreador foi identificado através de relato da equipe assistencial nos prontuários. A identificação de EAM a partir desse rastreador requer investigação detalhada para estabelecer a relação causal entre a administração de um medicamento e a ocorrência do exantema.

O último grupo é constituído pelos rastreadores com o rendimento abaixo de 30%: “uso de laxantes”, “uso de antieméticos” e “interrupção abrupta da medicação”. Apesar do baixo rendimento, os rastreadores “uso de laxantes” e “interrupção abrupta da medicação” estiveram associados à metade dos EAM identificados pelos rastreadores, o que lhes confere utilidade

dentro do estudo. O rastreador “uso de antieméticos” pode sinalizar a ocorrência de náusea e vômito, que são sintomas inespecíficos e muito comuns em várias patologias e condições clínicas, o que torna difícil determinar a associação com EAM.